Coluna da Digi # 98 – Não basta ser playboy. Tem que ser DJ.

No dia 15 de março de 2010, publiquei um texto que se tornou mais um viral nessa minha carreira de seguidos e fugazes sucessos internéticos. A crônica “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ” nasceu de muitos relatos de amigos a respeito do comportamento habitual dessa juventude carnatalesca que é linda. Publiquei o texto na NET e logo ele se tornou um hit. Foi repassado por e-mail, divulgado no twitter, passado adiante das mais variadas formas. Virou assunto em mesas de bar e inflou meu ego a ponto de eu ter deixado de cumprimentar alguns amigos. Hômi, me deram tanto cabimento que até gente bacana da cidade escreveu textos opositores e Cristiano fez um bom trabalho, dizendo-se alvo do texto e, espertamente, promovendo  o Jukebox.  Enfim, foi muito legal tudo o que essa coluna provocou.

Boa leitura! E divulguem pra galera. Quero bombar esse blogue de acessos nessa sexta!

Valeu!

***

Não basta ser playboy. Tem que ser DJ!

Major, a vida anda cada vez mais difícil. Se esse hômi soubesse… Tá foda, bicho. Difícil mesmo. E o que é difícil, como esse hômi deve saber, não é fácil. É nada, hômi. Nem a pau. Ser um jovem de classe média alta em Natal está ficando cada vez mais trabalhoso. Pra mim, tem sido uma tarefa bastante árdua atender todas as exigências impostas pela sociedade e manter a pose de nababesca futilidade que se espera de um bom playboy natalense. Antigamente, bastava ter um carrão, com um som potente no porta-malas, um guarda-roupa cheio de grifes da moda, frequentar uns poucos lugares e exibir-se com a urgência de um pavão no ritual da corte. Valia falar alto, brigar em shows de axé, ser fotografado pelos colunistas sociais e ficar vergonhosamente bêbado em lugares públicos. O importante era ser notado pelos seus pares.

Mas essa moleza acabou. Hoje em dia o jovem playboy natalense e a autêntica patricinha conterrânea têm muito mais a fazer do que pensar em como vai ser o carnatal a partir de janeiro. Eles têm que cumprir uma rotina de compromissos sociais e extenuantes maratonas de eventos que deixariam qualquer chefe-de-estado em frangalhos.

Pra começar, os lugares que requerem a presença do jovem playboy são muitos. E se deixar de ir a algum deles pode significar a morte. Não a morte, morte mesmo, morrida de verdade. Mas uma morte ainda pior, uma morte social. Se você deixa de ir a um dos lugares da moda, já era! No outro dia tá todo mundo comentando, com maledicência, suposições, scraps no Orkut e SMSs mil, a respeito de sua ausência. Antigamente o roteiro de locais obrigatórios se restringia ao camarote da Vila Folia ou àquela boate da estação. Hoje, para ver e ser vista, nossa “geração Y” tem que ir a muitos barzinhos, boates, points, festas e, ainda por cima, tomar muito cuidado com a seleção dos locais que frequenta.

E não se trata só de seguir o rebanho, como muitos pensam. Deve-se ir aonde todos vão, mas com muito bom gosto, sabe? Teve até um amigo meu que quis escrever um guia de boa conduta para facilitar a nossa vida. Algo que dissesse o que é e o que não é cool. Seria o máximo para nós, membros orgulhosos dessa juventude carnatalesca que atrofiou as sinapses neuronais por falta de uso e total inapetência para a arte do pensamento. Imagina só, major, um circuito seguro para não derrapar e manter intacta a imagem e boa reputação de playboy/patricinha acéfalo potiguar. Hômi, isso não ia prestar não! O problema era que meu amigo não sabia escrever direito, daí nunca saiu o tal guia. Sem bronca, nossos iguais não iam conseguir ler mesmo. Sabe como é: a gente se cansa de ler qualquer coisa que não seja as legendas das fotos do Bobflash.

De qualquer maneira, eu, como sou um cabra de peia e gosto de ver meus amigos se darem bem, sem vacilar, saca?, vou lhe dizer qual o roteiro que deve seguir para não se queimar com as bichinhas. O caminho de tijolos amarelos se inicia nas baladas de quinta e sexta no circuito Seven, Maranello e Medievo. Não tem muito mistério não. Vista-se igual aos outros cabras, com as marcas da moda e o mesmo tipo de calça, camisa e pisante que eles estiverem usando. É melhor comprar tudo ali pela Afonso Pena, saca? Eles têm umas marcas “exclusivas”. Quer dizer, são iguais à maioria das roupas de qualquer shopping da cidade, mas como são muito mais caras, vão ajudar a te dar uma moral na noite. Quando estiver na boate, é bom estar entrosado com os grupinhos de pessoas VIPs. É gente badalada que geralmente tem nome e sobrenome. Eles nunca se chamam Renata ou Roberto. Sempre têm um sobrenome que indica status e sem o qual eles não são ninguém. Algo como Renata Faria, ou Roberto Maia. Aliás, se você próprio tiver um sobrenome legal, pode se integrar e ser aceito com muito mais facilidade. Tem certeza que não se chama De Paula ou Rosado?

Vamos seguindo. No sábado, no fim da manhã, dirija-se para a frente do hotel Manary, em Ponta Negra. Não se esqueça de sua bermuda florida. Nada de calção de futebol, senão as meninas não vão nem te olhar, a não ser com um desdém de quem acabou de ver um asquelminto gigante piscar pra elas. Se você estiver em dia com a academia e as aplicações de “estró”, melhor. Pois poderá se amostrar um pouco sem camisa pra todo mundo ver.

Depois da praia, saia correndo e dá um pulo pelo Dom Vinícius, Cervantes ou Pitanga. Uns tira-gostos legais, cervejinha ou uisquinho e papo animado sobre carros, shows, festas e resenhas diversas. É sempre bom pra saber quem tá comendo quem e qual dos amigos trocou de carro essa semana. De lá, uma passadinha no Shock Bar pra se espremer entre toda a galera. Não vale ficar cansado e deixar de ir. Tem que marcar presença, ver e ser visto. Por isso, toma um Redbull e vamu simbora, major! Vai com fé.

O “esquente” no Shock Bar termina cedo e o sábado ainda é uma criança. Por isso, vá em casa, tome um banho e volte pro circuito de bares por trás da AABB ou, pra “variar” um pouco, um Dom Café até que vai bem. Inclusive, aqui vai uma dica. Sabe o que é legal?, levar o ipod com as caixinhas de som pra colocar na mesa. Quanto mais caro e moderno melhor. É a nova versão da mala do carro escancarada. O efeito fica ainda melhor se todo mundo na mesa cantar junto as músicas alto para passarem o recado: “helloooo, eu tenho um ipod”.

No domingo, é dia de descanso? Que nada! Durma até meio-dia e depois trate de descobrir onde a galerinha esperta se encontra e vá correndo pra lá. Um churrasco na mansão de alguém, um almoço num restaurante chiquê, tipo o Buongustaio, onde as pessoas podem lhe ver da rua e admirar o quanto você é interessante por estar ali. Um sushizinho à noite também vai bem. Mas, olha só, tem que ser onde a turminha estiver, senão é o mesmo que não ter ido. É que, a partir do momento em que você decidiu se tornar um jovem society natalense, deve ir sempre aos mesmos lugares, ver e ser visto sempre pelas mesmas pessoas e julgar e ser julgado por elas. É como fazer parte de um clube, uma sociedade secreta, aliás, de secreta não tem nada. É bastante exibicionista, na verdade. Mas não importa. Você faz parte dela, então assuma o seu fardo.

Ah, sim! E cuide de se comportar de forma adequada. Tem que ser um pouco de ator também. Nada de discrição. Você não deve ser coadjuvante de porra nenhuma. Nesse filme, todos são protagonistas. Então, tudo o que fizer, faça com que seja notado por sua “plateia”. E entenda-se por plateia toda essa gente bronzeada, siliconada, anabolizada, de sorrisos perfeitos e valores frívolos que lhe circunda. Não faça nada, desde acender seu cigarro a balançar seu drink, sem o mínimo de estardalhaço. Fale de suas posses, de grandes feitos (nada precisa ser verdade. Lembre-se: você é um ator), de seu saldo bancário, de suas inúmeras conquistas amorosas. Mas fale alto, pra todo mundo ouvir. Nesse clube, as mulheres são gasguitas e os homens são gabolas.

Quando o fim de semana acaba vem a segunda-feira. A semana, lembre-se, serve pra recarregar as baterias para a próxima sucessão de compromissos inadiáveis, com início marcado para a quinta seguinte. Por isso, nada de atividades desgastantes como um estágio, faculdade difícil ou, pelo amor de Deus, um trabalho! Se for estagiar em algum lugar, dê preferência a alguma empresa do seu pai ou da família, onde você goze de todos os privilégios e regalias, como chegar tarde e sair na hora que quiser.

Agora, como eu sou seu amigo, major. Vou lhe dizer qual é o pulo do gato: trabalhar com algo que esteja ligado a sua rotina. Promotor de boate, comissário de bloco ou produtor de show. Ou ainda, major, você pode ser, sabe o que?, pois eu vou lhe dizer agora. DJ, meu amigo! É limpeza e dá a maior moral na cidade. Basta inventar um nome invocado e manter a pose nas picapes. Nem precisa desse negócio de conhecimento musical. Isso é coisa de amador. Descubra quais as musiquinhas da moda entre a rapaziada dos camarotes ou nas boates de São Paulo e Recife. Daí, encha seu equipamento de MP3 e fique lá todo posudo com a testa franzida e fones nos ouvidos.

Mas isso, claro, se você quiser se estressar. Porque dá trabalho ser DJ. Você acaba ficando muito solicitado e famoso demais. E ainda tem que cumprir toda a rotina semanal de ir aos lugares da quinta ao domingo, enfim, os seus dias úteis. Não pode descuidar. Qualquer passo em falso e sua reputação vai pro espaço. Porque é aquela coisa, major. É um dia-a-dia muito trabalhoso, sabe? É um sacerdócio, uma vida de renúncias e sacrifícios. Mas é assim que é. A vida pra um jovem playboy natalense anda cada vez mais difícil. E o difícil, major, não é nada fácil.

***

1. “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ!” é uma frase de um publicitário amigo que não me autorizou a publicar seu nome.
2. Agradecimentos especiais para Paulo André Linhares e Rodrigo Silveira (o Rodra) pelas dicas.

About these ads

Tags: , , ,

4 Respostas to “Coluna da Digi # 98 – Não basta ser playboy. Tem que ser DJ.”

  1. Diêgo Cesar Says:

    Gostei muito da crônica. Acho que é mesmo esse tipo de rotina que gente bitolada julga interessante. Pra ser alguém, além de grana, tem de ser igual a todo resto, preocupar-se com as mesmas futilidades. Outros correm atrás. Faculdade é a maior responsabilidade. Sempre tentando descolar um estágio que valha a pena, look basicão e fim de semana o rockinho no Dosol.

  2. ana celia Says:

    Legal, como já tinha lhe dito, vc consegue colocar no papel todo o “teatro” natalense!

  3. Clarisse Says:

    Olá!
    Descobri teu blog por acaso..eu de vez em qdo leio qqr coisa mas gosto mais de ler o q os outros escrevem, não sou de dar mto opnioes, pois nem sempre elas contam, mas devo admitir q vc merece o meu muito obrigado. Eu sou de natal, mas moro em Lisboa ja a um certo tempo. Todas as vezes que tenho saudades de casa e começo a calcular uma forma de voltar, leio o teu blog…ehehehehe.-..ai relembro dos milhares de motivos q me fizeram fugir daí! Fica a saudade dos amigos e da família..claro..mas natal é mesmo é pra ser turista!!! Pois nem rico o cara pode ser…pois se tiver bom gosto vai ficar muito insatisfeito com o que anda a acontecer por aí!!!
    Parabens pelo trabalho..Ah, eu tb fui aluna de Graça Pinto e andei pelo setor V, e so faltei morrer de rir, com a saudosa cronica sobre fefeu!!Niguem nunca descreveu Graça Pinto tão bem, tive um ataque de riso!!!!
    Um abraço!

  4. Dayalla Says:

    Todos deveriam ler isso!
    Muito bom, tá de parabéns!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 30 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: