Coluna do Novo Jornal – 008 – O Clube dos Manicacas – 16.10.2010

Wanderley Moreira, colega publicitário sempre me contava anedotas sobre o Clube dos Manicacas que ele e alguns amigos tentaram implantar anos atrás. Inspirado nas histórias contadas por ele, escrevi esta coluna para o Novo Jornal, da qual gosto bastante. Na verdade, é uma das que saíram no Novo que eu mais curto. Ainda mais porque eu próprio sou um manicaca assumido e orgulhoso de tal condição.

E esperam que vocês gostem também. Divirtam-se!

***

O Clube dos Manicacas

O Clube dos Manicacas teve vida curta. Acabou precocemente porque as mulheres proibiram seus maridos e namorados de comparecerem às reuniões. Uma pena, pois o clube tinha nobilíssimos fins e sua razão de existir era justamente manter os membros fiéis a suas convicções. E, no caso dos componentes de tão representativa instituição, manter-se fiéis a suas convicções significava, por extensão, serem fiéis a suas mulheres. Mas ai deles se tentassem argumentar em defesa dos encontros periódicos. Logo vinha uma resposta contundente: “um bando de homem junto só pode estar aprontando alguma coisa! Ou estão fazendo safadeza ou estão falando em safadeza ou estão pensando em safadeza!” Enfim, tudo acabado. E não adiantava discutir. Num mundo onde imperam a injustiça e a incompreensão não haveria mesmo lugar para um clube tão zeloso de seus firmes princípios.

Talvez a rápida decadência do Clube dos Manicacas tenha ocorrido devido a uma intervenção divina com o objetivo de preservar a pureza de seus sócios. Deus pode ter impedido a continuidade do clube ao antever as terríveis perseguições que ele sofreria por parte dos ímpios, abjetos e usurpadores seres humanos. De fato, era difícil conceber a existência de uma organização que pregava valores tão puros num mesmo planeta em que existiam o terrorismo, a miséria e o Luan Santana. Seria um animador sinal de esperança, é verdade, mas cá pra nós, será que o mundo merecia?

Em todo caso, mesmo que brevemente, o clube teve uma trajetória marcante.  Sua história, apesar de curta, é rica em lutas pelos direitos dos oprimidos e vale a pena ser relembrada aqui neste espaço. O fundador e primeiro presidente do Clube dos Manicacas foi Wanderley Moreira. Sua plataforma de trabalho se baseava na conquista de direitos básicos dos manicacas, como o de jogar bola com os amigos uma vez por semana ou tomar uma cervejinha com os colegas depois do expediente. Wanderley conseguiu liberação para se bater uma peladinha durante a semana à noite, desde que o peladeiro se comprometesse a acompanhar a patroa no supermercado das quintas-feiras. Também foi permitido a partir de então que os maridos e namorados comparecessem a um happy-hour a cada 15 dias, desde que fossem em bares movimentados, bem iluminados, acompanhados de colegas de trabalho com mais de 2 anos de empresa e que o termo “uma cervejinha” fosse levado ao pé da letra. Além dessa primeira flexibilização de normas, ficou acordado que haveria uma segunda rodada de negociações muito em breve para garantir a ampliação dos direitos dos cônjuges, bem como outros pontos importantes como assistir futebol em bares e a participação em torneios de pôquer.

Porém, após brilhantes 23 dias no exercício de seu mandato, forças ocultas (quer dizer, na verdade, sua esposa pediu para ele deixar o cargo), obrigaram os sócios a escolherem um novo representante. Thiago Lajus foi alçado ao poder com o compromisso de promover uma revolução nas relações marido-mulher, conquistando privilégios nunca antes sonhados por qualquer homem manobrado por mulher. De perfil progressista e mentalidade prafrentex, sua campanha foi marcada por discursos inflamados que prometiam uma nova era de diálogo, confiança, compreensão e generosa permissividade para que os manicacas de Natal e, quem sabe um dia?, do mundo inteiro, pudessem andar na linha com muito mais liberdade.

Lajus, apesar de sua correção, firmeza de caráter e reputação ilibada (a única vez que fez alguma coisa escondido da mulher, foi preparar uma festa de aniversário surpresa para ela. Mesmo assim, sofreu remorso depois.), ficou apenas 6 dias no poder. Sua postura ousada e a personalidade inquieta incomodaram sobremaneira as esposas que obrigaram seus maridos a votarem o Impeachment do presidente. Em sua defesa, tentou argumentar que a coisa não era bem assim, que promoveria uma revolução sim, mas só se não impedisse de os homens assistirem a novela das 8 com suas mulheres, que os benefícios de suas ações seriam mútuos, que elas seriam plenamente recompensadas. Em vão. Thiago Lajus foi deposto por uma astuciosa manobra das mulheres que manipulavam seus homens.

O terceiro presidente do clube deveria ter um perfil mais moderado. Nada de arroubos de heroísmo ou tendências à subversão. O escolhido não poderia ser outro, senão o Varela.  Aquele sim, um sujeito irrepreensível. Era o álibi perfeito para os amigos infiéis. A alegação de que eles não estavam fazendo nada de errado, pois estavam acompanhados daquele que era uma reserva moral dos homens comprometidos, o maior exemplo de correção e boa conduta que já surgiu nas sociedades judaico-cristãs-ocidentais. Sempre que queriam se safar de alguma pisada na bola com as patroas, recorriam ao santo nome do Varela. Era infalível.

Varela tinha um jeito quieto, tranquilo, silencioso, mas não obstante essa aparente passividade, obteve avanços significativos. Os homens poderiam, por exemplo, assistir filmes de ação, guerra ou artes marciais no cinema, fato inédito para qualquer manicaca. Em contrapartida, só teriam que levar as mulheres para ver quantas comédias românticas elas quisessem, o que não se configurava exatamente num problema, uma vez que eles já faziam isso antes. Foi também durante a sua gestão que ele estendeu o direito de reunião etílica para ver corridas de Fórmula 1. Antes, esses encontros eram permitidos apenas para jogos do brasileirão em bares frequentados apenas por homens. As corridas teriam que ser vistas na casa de algum amigo casado, mas ainda assim, era um passo adiante.

Após 40 dias de atuação discreta, mas surpreendente, Varela precisou abdicar do cargo. Ajudaria a esposa na difícil tarefa de ser vice-síndica do condomínio onde moravam e, portanto, não poderia mais se dedicar à presidência, havendo inclusive aberto mão de sua condição de sócio. Foi aí que o clube acabou. Temendo que o cargo de líder pudesse ser ocupado por um membro da ala radical, as mulheres finalmente proibiram seus maridos, noivos e namorados de comparecerem às reuniões. Todos nós, obedientes e disciplinados que somos, atendemos aos seus pedidos. Até porque, nós do Clube dos Manicacas fazemos absoluta questão de dizer sempre as últimas palavras em qualquer discussão: “Sim, senhora!”

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 008 – O Clube dos Manicacas – 16.10.2010”

  1. edson de paula Says:

    aqui em Inhumas – Goiás temos um moto clube que se chama Moto Clube Manikacas, Só tem uma diferença, que elas mandam é inquestionável, mas nós não abecedemos.

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