Coluna do Novo Jornal – 029 – O professor de Matemática. – 12.03.2011

Uma crônica sobre um ignorante pai de aluno do IFRN. A ironia: o cara é professor.

Boa leitura e divirtam-se!

***

O professor de Matemática.

Deveria ter ilustrado com o Pateta, mas não encontrei.

Sempre admirei as pessoas que demonstram habilidade para lidar com números e desenvoltura para resolver problemas e equações as mais complexas. Os professores de matemática, então, estão no topo da pirâmide evolutiva daqueles dotados de talentos que nunca tive nem terei mais ânimo de desenvolver. Normal. Sempre tive predileção por outras áreas de interesse, matérias como História, Geografia ou Literatura. Acredito que esse mesmo fenômeno se dê, porém ao inverso, com todos que preferem dedicar-se com mais afinco a solucionar cálculos complexos e aplicar fórmulas variadas. O hábito da leitura, sobretudo a leitura literária, acaba ficando de lado, resultando em indivíduos íntimos dos números, mas para quem as letras são ilustres desconhecidas, senhores quase que absolutamente incapazes de interpretar um texto simples.

Numa sociedade como a nossa tantos analfabetos funcionais pode ser perigoso, gerando toda sorte de más interpretações. Aliás, acredito que grande parte dos problemas da humanidade, muitos conflitos bélicos, diversas das mais violentas disputas, enfim, os maiores desentendimentos conhecidos se devem a más interpretações. Gente que entendeu mal o que foi dito, que não atentou para esta ou aquela palavra redentora de algum discurso ou que não teve a noção completa de alguma mensagem cordial. É a não compreensão do que exprimimos que embola o meio de campo das boas intenções e transforma elogios sinceros e desinteressados em supostas críticas ferozes e impiedosas.

Com o que escrevemos esta situação se agrava sobremaneira. Tudo porque a absoluta falta do hábito da leitura em nossa sociedade produz gerações inteiras de indivíduos incapazes de interpretar um texto simples. Um fato ocorrido recentemente em Natal serve para ilustrar bem o que digo. Os leitores deste periódico, bem informados que são, devem ter tomado conhecimento do episódio envolvendo professores do IFRN e um pai de aluna, também professor do Instituto Federal, mas de matemática. Os professores passaram textos de temática sexual, todos publicados em jornais e revistas de circulação nacional. Os textos abordavam o sexo de maneira bem humorada e um deles discorria sobre o pênis. Nada demais.

Na verdade, textos que admitam a prática sexual como corriqueira e saudável, para mim, são muito bem vindos em meio a uma geração reprimida por pais conservadores que foram, eles próprios, influenciados por hábitos interioranos e dogmas religiosos medievais. Se o pênis textual em questão for utilizado também, com fins didático-pedagógicos, melhor ainda. No entanto, o pai de aluna, que ensina matemática, zeloso da inocência da filha, não assimilou bem os textos, havendo interpretado mal (muitíssimo mal) o contexto de cada um deles.  Para o pai e professor, aqueles textos não tinham nada de educativo. Muito pelo contrário: incitavam práticas imorais, inomináveis, socialmente reprováveis, ao tratar de assuntos torpes e abjetos como sexo e até chegar ao cúmulo de citar nominalmente o órgão masculino.

Foi aí que, tomado de irrefreável indignação, revestido de ignorância (e, como se sabe, a ignorância é a mãe da intolerância, do preconceito e da estupidez) o homem resolveu tomar uma atitude simples como uma equação de primeiro grau: processou os inconsequentes e despudorados professores de língua portuguesa que tentavam “corromper a juventude” por meio da infusão de termos pornográficos e de baixo calão, expressões imorais, sexuais, sórdidas.

Na audiência, após ouvir os profissionais da gramática, tomar conhecimento dos termos da acusação e do teor dos textos trabalhados em classe, o juiz considerou improcedente o pedido do docente. Livres do questionamento, mas sentindo-se expostos ao ridículo pelo colega que entende de interpretação textual na mesma medida em que eles dominam análise combinatória, agora são eles que dão o troco, processando o parvo pai da moça por tê-los prejudicado. Espero que os gramáticos não o estejam processando por burrice, uma vez que a culpa não é dele por ser tão néscio, mas sim do pouco ou quase inexistente gosto pela leitura, fato que não é privilégio do professor. No país em que não se compreende metáforas, a falta do hábito de ler nivela todas as classes sociais por baixo, provocando a generalizada má interpretação das mensagens. Acontece nas melhores famílias. Aliás, em quase todas as famílias brasileiras.

Fico imaginando o cotidiano daquele pobre professor de matemática, espécime abundante em nossas hostes, um tipo de cego, condenado às trevas da incompreensão textual, que até consegue vislumbrar as frases formuladas a sua frente, lê-las na celulóide do jornal ou no cristal líquido do seu PC, mas sem saber o que elas significam quando unidas. O coitado conseguiu identificar algumas palavras esparsas nos textos, mas ficou confuso e chocado ao não perceber o que queriam dizer ao serem organizadas em textos. O pobrezinho não entende que, assim como uma dízima periódica, a Palavra também apresenta sequências infinitas de possibilidades.

Possibilidades estas que estão longe de ser realidade para muitos jovens e adultos que padecem deste mesmo mal, o câncer chamado de analfabetismo funcional, subtraindo oportunidades de presente e futuro. É possível salvá-los. Precisamos fazer um trabalho urgente de resgate desta turma, trazê-los de volta das trevas onde se encontram aprisionados. Vamos educar as crianças, os jovens, os adolescentes, incentivá-los a ler, criar neles o gosto pela leitura, mostrar que é divertido, senão eles vão acabar mal que nem aquele professor que está sendo processado por ter entendido mal um texto e acabarão, tal qual o matemático, assustando-se quando lerem a palavra pênis como se estivessem diante de um. Dos grandes.

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