Uma partida de WAR

Hoje eu decidi postar um texto longo. No meu primeiro livro, “Verão Veraneio”, uma das crônicas que fez mais sucesso foi “Uma partida de WAR” que narrava o desenrolar de uma tensa peleja sobre um bélico tabuleiro. Ano passado, divulguei o texto na comunidade do WAR no Orkut e o pessoal por lá gostou. Amanhã, vou colocar algumas novidades sobre o lançamento de “Mano Celo”. Hoje, quem tiver tempo e disposição de ler um texto que extrapola o limite de toques padrão da internet, boa leitura.

 

***

 

UMA PARTIDA DE WAR

 

O dia estava perfeito e todo mundo se divertia numa boa, “numa Nice”, sem stress. Aliás, em Pirangi no Verão, stress é decidir entre bater bola e paquerar. São poucas as praias como esta em que se pode ver um mar e mulheres deslumbrantes, disputar peladas e mulheres divertidíssimas, encontrar amigos e mulheres muito legais, comer pratos típicos e mulheres deliciosos.

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Mas como eu ia dizendo, o dia estava perfeito e a galera se divertia sem maiores preocupações. O Sol brilhara forte durante toda a manhã. O “terral” rolou e, conseqüentemente, a Prainha “craudiou” de surfistas. Quem não tem prancha vai de jacaré mesmo, do lado de cá das pedras. As gatinhas de biquíni exibiam suas formas esculpidas às custas de muita abstinência e suor derramado nas caras (caríssimas) e aristocráticas academias de ginástica. Os garotos também exibiam seu material para conferência. Músculos conquistados com doses de “estró” e “deca”. Nos corpos malhados (com trocadilho, por favor) sunguinhas “bad-boy”, bermudas floridas ou cuecas de fora. Depende da moda.

 

Á tarde, como por milagre, maré seca! É na baixa maré que as areias de Pirangi se convertem em verdadeiros tapetes para jogar futebol. A FIFA já classificou a praia como o melhor lugar para a prática de futebol de areia no mundo. É sério! Deu na Placar. No fim da tarde, Pirangi parece a imagem do paraíso. Casais apaixonados andam pela areia, grupos de banhistas aproveitam a água morna e as peladas duram até escurecer.

 

Quando chega a noite, todo mundo procura o que fazer. É preciso aproveitar cada minuto das férias. Alguns descem para beira mar, munidos de violões e segundas intenções, e improvisam luais e cantadas. Mas, se você preferiu ficar em casa com o seu pessoal, todo cuidado é pouco. Você está sujeito a uma das maiores ameaças do verão: “UMA PARTIDA DE WAR”!

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Sempre haverá alguém na turma disposto a estragar a sua noite, mesmo sem saber. Normalmente a pessoa que sugere uma inocente partida deste bélico jogo de tabuleiro tem boas intenções. O cara não tem noção do perigo que se esconde por trás do “brinquedo” e quer apenas divertir-se e divertir. Muitos deixam-se enganar pela cândida aparência e depois têm de arcar com as conseqüências. Lembrem-se: só porque uma coisa parece inofensiva não significa que realmente o seja. Quem acha que WAR é apenas um brinquedo deve ter usado cocaína como talco de bebê.

 

Por isso, resista se alguém sugerir uma partidinha. Disfarce, ignore, finja que não é com você, boceje. Faça-o entender que, se começarem a jogar, você vai ficar com sono e terão que interromper a disputa no meio. Mude de assunto: “Vocês viram a Susana Scoth fazendo top-less na praia?” Se não funcionar, tente algo mais alarmante: “W. Bush está atacando o Iraque! Salve-se quem puder!” Ou ainda: “Encontraram o corpo do Ulisses!”

 

Porém, sinto dizer que os jogadores de WAR são chatos e inconvenientes. Quando você perceber, o tabuleiro já vai estar montado (de cabeça pra baixo com relação a você) e os exércitos escolhidos (você ficou com as pecinhas amarelas, apesar de odiar essa cor). O número de jogadores? 6, lógico, para poder ser o mais sacal e demorado possível.

 

Entre os disputantes, há diversos tipos e figuras. Tem o cara zen, geralmente surfista, que não liga pra esse lance de competição e acha que essa parada de ficar discutindo por causa de um jogo… Pô, aí! Nada a ver! Tem também o principiante, aquele que nunca jogou. Não sabe o que são as trocas, os exércitos, os objetivos e muito menos onde ficam Dudinka, Vladvostok, Aral e Omsk. Com esse aí, não tem jeito. Você vai ter que ficar interrompendo sua estratégia para responder perguntas o tempo todo. “Por que tem umas pecinhas maiores que as outras?” “Eu posso atacar da Austrália pra Califórnia?” “Pra que servem essas cartas?” Outra figurinha fácil é o ladrão. Fique de olho nele. Ele vai tentar te passar a perna em todas as jogadas. Põe exércitos a mais no tabuleiro, puxa cartas fora de sua vez, rouba nos dados. Não se engane. Todo político jogou WAR na juventude. Também estão sempre entre os jogadores, um casal de namorados e, é claro, você, sua anta!

 

Os disputantes se preparam. Dividem os territórios, espalham os exércitos, decidem a ordem das jogadas (você é o último) e distribuem os objetivos. O principiante pergunta quem são os exércitos vermelhos e como faz para destruí-los. A namorada vai logo dizendo que é proibido armar complôs e que não se deve deixar fatores “extra-tabuleiro” interferirem na estratégia. O surfista concorda: “Pô, esse lance todo de complô, aí. Não tem nada a ver”. O principiante pergunta: “Como assim complô?” Você suspira. A noite vai ser longa.

 

Namorado: – Eu começo. Vamos lá, meu amor. Três contra um no México.

Namorada: – Contra mim?! Qual é a sua? Está querendo me destruir?

Namorado: – Não. Só estou seguindo minha estratégia…

Namorada: – Que é me destruir, não é?

Surfista: – Calma, gatation. Esse lance de stress, aí. Tem nada a ver.

 

Mas não adianta. A namorada já está convencida da premeditação do ataque sofrido e, por sua conta e risco, resolve mudar de objetivo. É óbvio que o namorado quer destruir seus exércitos. Ora, com mais 4 competidores à mesa, ele veio atacar justo os seus exércitos? A partir dali a sua função no jogo passa a ser destruir os exércitos azuis do namorado e, para que dê certo, arma uma terrível conspiração.

 

Principiante: – Me explica de novo. Os dados amarelos são pra atacar e os vermelhos pra defender?

Surfista: – Não, cara. Nada a ver.

Namorado: – Os vermelhos são pra atacar.

Principiante: – Então os amarelos são pra defender?

Namorado: – É.

Principiante: – Mas e se eu quiser, posso atacar usando os amarelos?

Você: (Não fala nada, mas revira os olhos de raiva).

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O ladrão começa a agir. A essa altura ele já vai na terceira troca, apesar de o jogo estar apenas na 4ª rodada. Quando você não estava olhando ele pôs uns exércitos a mais na China e até roubou um território sem que ninguém notasse.

 

Ladrão: – 3 contra 1 em Borneo (arremessa os dados que dão 3,1 e1).

O principiante arremessa os seus e obtém 3,2 e 2.

Ladrão: – Ganhei!

Namorado: – Como ganhou? Você perdeu os três.

Ladrão: – É, mas ele jogou os dados vermelhos em vez dos amarelos.

Principiante: – Mas os vermelhos não são pra defender?

Surfista: – Pó, cara, nada a ver.

Você sussurra um “Puta que pariu! Vá ser burro assim, lá na caixa prego!”

 

Alguém se distrai e deixa cair seus exércitos no chão. A caixa se espatifa e voam pecinhas verdes por toda varanda da casa. Todo mundo ajuda a juntar. O ladrão se aproveita e coloca 10 exércitos em Madagascar. Passadas várias horas de jogo a situação está tensa. O casal já não se fala há muitas rodadas. Todos os participantes estão cansados e mais longe dos seus objetivos do que quando o jogo começou. Apesar de suas artimanhas, o ladrão não tem tido sucesso nas conquistas e não está melhor que os outros.

 

Principiante: – Minha vez de jogar. 3 contra 1 nesse país aqui.

Namorado: – Aí não pode. Não faz fronteira.

Principiante: – Ah, é? Então nesse outro aqui (arremessa os dados amarelos por engano).

O Surfista, que já foi zen, perde a paciência e começa a esganar o principiante aos gritos.

Surfista: – Os dados amarelos são pra defender, entendeu?! Pra defender!

 

O casal também começa a discutir asperamente e ela joga na cara dele que já o traiu com o Beto e que não se arrepende. Ele fala que isso não é nada. Pior fez ele que a traiu com a Sílvia, a Tâmara e a Lúcia. Nesse momento o ladrão já mexeu tanto no tabuleiro que está quase conquistando o mundo. Você, puto, dá um bico na mesa e joga tabuleiro, cartas, peças e tudo mais pelos ares. A namorada (e anfitriã), aos prantos, expulsa todo mundo de sua casa. Você vai embora aliviado e feliz.

 

Alguns dias depois, você encontra o namorado da dona da casa. Ex-namorado, ele faz questão de esclarecer. Ele dá a notícia que o cachorrinho da ex-namorada, um poodle-toy, faleceu engasgado com uma peça de 10 exércitos no dia seguinte ao jogo. Vocês conversam sobre a partida disputada dias antes e prometem que nunca mais jogariam aquilo. “É uma guerra, meu amigo. Uma guerra”. Depois você fica pensando no cachorro falecido. Vítima civil de uma guerra que não era dele. Pois é, cada guerra tem as vítimas que merece.

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3 Respostas to “Uma partida de WAR”

  1. Gustavo Guedes Says:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    “…são poucas as praias como esta em que se pode ver um mar e mulheres deslumbrantes, disputar peladas e mulheres divertidíssimas, encontrar amigos e mulheres muito legais, comer pratos típicos e mulheres deliciosos…”.

    Quem nunca jogou aquela velha partida de War que atire a primeira pedra; quem nunca usou o momento para discutir outras coisas [inclusive assuntos conjugais] atire outra.

    Um abraço meu Caro.

  2. Groff Says:

    Não recomendo ler “uma partida de war” no local de trabalho em pleno horário de expediente…Todo mundo vai querer saber o motivo da sua crise de riso, principalmente seu chefe.
    Fiainho, estamos ansiosos para a chegada do seu livro.

  3. Mimi Says:

    Uma partida hoje a noite?????? sem Diana!! AHAHAHAHHAHAAHHAH!!!

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