Quem vigia os vigilantes? 1 – Pablo Capistrano

Pablo Capistrano

Pablo Capistrano

Já confessei aqui há algumas atualizações que sou fã de carteirinha de Watchmen. Quando li os quadrinhos, fui impactado pela profundidade e amplitude da história imaginada por Allan Moore. Tem um texto meu antigo, de 2005, acho, que escrevo sobre minha admiração por Moore.

 

Curti demais o filme. Considerei a fidelidade absoluta como um ato de respeito à obra original e aos fãs do maior romance gráfico de todos os tempos. Por isso, fiquei surpreso ao perceber que do grande público, QUASE NINGUÉM GOSTOU DO FILME. Cheguei a me perguntar se havia algo errado comigo. Mas aí comecei a saber das opiniões de outros leitores da HQ e de pessoas que gostam do trabalho de Moore. A tranquilidade e a certeza de que estamos diante de um filme que será cultuado como um dos mais importantes da história do cinema voltaram subitamente.

 

Hoje, publico as impressões do escritor e filósofo Pablo Capistrano. Por e-mail, ele disse “O filme é muito bom, às vezes eu achava que já havia visto aquelas imagens em algum lugar, era como se eu já houvesse visto aquilo. Depois eu notei que estava lembrando da HQ, incrível. Esse filme com certeza foi feito por um fã do Moore.”

 

Abaixo segue um texto de Pablo sobre a história de Watchmen. Em breve, publicarei mais.

 

CF

 

 

 

O quadrinho definitivo: Parte I.  

 

Pablo Capistrano.  

www.pablocapistrano.com.br

 

Uma das passagens mais significativas de Watchmen, de Allan Moore (agora adaptada para o cinema) é a conversa entre o Dr. Manhattan e Laurie, a filha e sucessora da Espectral (uma heroína dos anos quarenta que fazia parte dos antigos minutemen).  Se você não é fã de quadrinhos ou viu o filme e não entendeu muita coisa, Dr. Manhattan é uma espécie de ser quântico. Uma consciência que se manifestou no mundo através daquilo que um dia foi Johnatan Osterman, um físico que trabalhava para o governo dos EUA e que foi literalmente desintegrado após um acidente em uma área de pesquisas nucleares. Há um aspecto curioso nesse personagem que o liga a algumas interpretações místicas e esotéricas de figura de Jesus-Cristo. Para correntes adocionistas e gnósticas, o homem Jesus não é o mesmo ser do cristo após o batismo, ou ressuscitado. Nessas leituras, Cristo é uma presença que aparece aos apóstolos, um vulto ou um fantasma, uma imagem que acompanha os homens e que se apropria da forma da Jesus para construir algum tipo de comunicação com os humanos. Jesus precisou morrer na cruz (ou ser batizado, que é um tipo de renascimento ritual), para que Deus pudesse falar diretamente aos homens através de sua forma, assim como John precisou ser desintegrado dentro daquele reator nuclear para que a consciência quântica do universo aparecesse entre os homens na forma do Dr. Manhattan.

 

Tecnicamente, de todos os personagens de Watchman, só o Dr. Manhattan tem algum tipo de “super-poder”. Na verdade ele só tem dois super-poderes: (1) ele aprende o tempo de forma quântica, ou seja, ele enxerga a simultaneidade de todos os eventos de modo que o presente, o passado e o futuro aparecem a ele juntos; (2) ele altera a estrutura atômica da matéria. Pouca coisa não é?

 

Na verdade esses dois atributos dão ao Dr. Manhanttan o poder de saber tudo e o poder de fazer qualquer coisa com a matéria. Ou seja, nosso amigo é onisciente e onipotente (e onipresente também, porque ele pode se desdobrar em infinitos lugares ao mesmo tempo). Esses são os clássicos três atributos de Deus na teologia cristã. Mas, apesar das influências claras às heresias místicas cristãs e gnósticas, há algo que afasta essa consciência quântica de qualquer doutrina cristã.

 

O personagem de Moore não é como pensavam os cristãos, um Ser sumamente Bom. Apesar de poder fazer qualquer coisa, poder estar em qualquer lugar ao mesmo tempo e saber de tudo que aconteceu, acontece e que vai acontecer, Dr. Manhatam a medida que a narrativa de Watchmen vai se desenrolando, se torna cada vez mais indiferente, cada vez mais distante das misérias e dos sofrimentos atrozes que os homens, com sua estupidez inerente, costumam a infligir a si mesmos.

 

Quando Laurie, sua namorada humana, tenta convence-lo a impedir uma guerra nuclear entre Soviéticos e Norte-americanos (lembrem que a história do quadrinho se passa em 1985) ele responde: “Não há, a rigor, nenhuma diferença entre matéria viva e matéria morta”. Vida e morte, presente, passado e futuro, dor e prazer, são aspetos de uma mesma totalidade sem costura da matéria que se interliga em um mesmo plano quântico. Somos todos poeira de estrelas (como diz o jargão da física moderna) e nossa existência está condicionada por uma quantidade tão incompreensível e infinita de eventos que não é possível pensar em um tratamento especial para o homem. Dr.. Manhattan, viajando por Marte, reflete com Laurie (humana demais para se relacionar com um ser como ele) qual a importância da vida em um universo como o nosso? Para alguém que percebe a simultaneidade do tempo e que conhece as chaves para a modificação da estrutura de base da matéria, as preocupações dos humanos com vida e morte não fazem absolutamente nenhum sentido. Apenas nós, seres tão limitados, confinados em uma percepção finita da vida trememos diante da morte e sofremos diante da idéia de um fim para a nossa espécie.

 

Do ponto de vista do Deus de Watchmen e do ponto de vista do universo, nossa ocorrência não tem nem mais nem menos dignidade do que o choque de um cometa em um planeta congelado nos confins de um sistema solar qualquer. O Deus de Watchmen nos observa, mas não interfere no que vê. Ele é real, existente, mas é absolutamente indiferente as nossas orações e as nossas ansiedades. O Ser quântico que está mergulhado na eternidade não tem motivos para sentir mais piedade de uma criança humana do que de um pedaço de rocha oxidada que se esfarela no solo marciano.

 

O homem criou uma auto-imagem que lhe confere uma importância fundamental na ordem natural. Ele pensou ser a jóia da coroa da criação de Deus, o ser mais perfeito e mais amado porque seria o ser mais semelhante àquela figura eterna, que tudo sabe, tudo pode e que está em todas as coisas.. O homem pensou um Deus que o ama e que o perdoa. Um Deus que o salva e que morre por ele. Moore pensou um Deus distante de nós, que apenas nos observa, com uma mistura de curiosidade e tédio, enquanto mantém sua mesma atenção pluralizada direcionada simultaneamente a todos os eventos no tempo e no espaço. Esse Deus nos deixa absolutamente livres, submetidos apenas a esse imenso e misterioso horizonte de eventos materiais. Esse caos multifacetado que constrói o cenário para os dramas dos homens, seus sofrimentos e suas alegrias. Watchman é o quadrinho definitivo e a peça central da oitava arte, porque sua base teológica nos ensina uma dolorosa lição: Deus nos deixa livres e nossa liberdade tem um preço pago ao infinito com o peso da nossa própria solidão.

 

 

Pablo Capistrano

www.pablocapistrano.com.br

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Uma resposta to “Quem vigia os vigilantes? 1 – Pablo Capistrano”

  1. Bertram Says:

    Fialho,

    A maioria dos fãs do quadrinho com quem tive a oportunidade de conversar concordam com você e acham a adaptação de Snider a mais fiel já feita em relação a HQ’s, principalmente em tratando de obra prima de insofismável valor que é Watchmen.

    Todavia, considero-me muito conservador nesse quesito: não tolerei o fato de terem posto Michael Clarke Duncan como Wilson Fisk (que não é negro na revista), apesar de ser um ator de talento inquestionável; não engoli as inúmeras – e muitas vezes desnecessárias à adaptação, ocorrendo ao alvedrio sem rumo de Brian Singer – desvirtuações de X-Men (algumas aceitáveis, como a óbvia e necessária mudança nos uniformes, mas outras sem explicação plausível, como a redução da psicologicamente marcante Mística a uma mera capanga receptora de ordens); não avalizei o fato das teias de aranha serem produzidas pelo próprio organismo de Parker (tirando o que fizeram com a Gwen Stacy, dentre outras coisas); não aceitei e nunca aceitarei também a forma mostrada em The Dark Knight como Dent se transformou em duas caras, estratosfericamente diferente da encontrada na série O Longo Dia das Bruxas.

    Em suma, a adaptação de Watchmen foi boa, é verdade, mas também não saí 100% satisfeito do cinema, a começar pelo final parcialmente diferente do da HQ (que não irei dizer as razões da minha insatisfação com ele pela óbvia razão de não estragá-lo para um eventual leitor que acompanhe o seu blog). Tenho outras críticas à adaptação também, poucas, é verdade, que não estou me recordando delas no momento em que estou redigindo este texto.

    Em suma, levando em consideração meu xiitismo, a adaptação foi boa sim (talvez realmente a melhor já feita), mas, na minha opinião, com as ressalvas que devem naturalmente ser feitas em virtude da impossibilidade de se adaptar de forma 100% fidedigna qualquer obra literária, acho que poderia ter sido melhor. Consideravelmente melhor.

    Grande abraço.

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