Quem vigia os vigilantes? 4 – Alex de Souza

Coluna Bazar – www.nominuto.com.br

"Bogus? Não. Eu sou o Dr. Manhattan."

"Bogus? Não. Eu sou o Dr. Manhattan."

Se você tem carteirinha de nerd, deve estar ligado no falatório em torno do lançamento de Watchmen – o Filme, que esta semana completa mais ou menos um mês em cartaz. O burburinho foi tão grande que abafou a chegada às telas grandes de outra polêmica adaptação de um clássico dos quadrinhos – o assassinato do Spirit, de Eisner, cometido pelo falastrão do Frank Miller.

Não vou engrossar o coro dos contentes que aclamaram o longa-metragem como a última coca-cola do deserto, nem pretendo pichar o filme por considerá-lo inferior à série em quadrinhos na qual se baseou. Primeiro, porque, como filme, é pra lá de mediano. Segundo, porque é um disparate qualquer tipo de comparação entre mídias tão distintas, como literatura, quadrinhos ou cinema.

Se for para comparar Watchmen – O Filme com alguma coisa, que seja então com outras adaptações cinematográficas de histórias em quadrinhos. E aí, meu amigo, me vêm à mente dois ótimos filmes lançados no ano passado. O primeiro deles é a obra-prima Cavaleiro das Trevas; o outro, o empolgante Homem de Ferro.

Frente a esses dois títulos, Watchmen pode até ser uma aventura interessante, mas fica difícil de amarrar-lhes a chuteira.

Para quem viveu numa bolha de plástico por mais tempo que John Travolta e nunca ouviu falar em Watchmen, a história é a seguinte: num mundo em que super-heróis realmente surgiram, por volta da década de 40, a história mundial sofreu algumas mudanças significativas.

Em 1985, a Guerra Fria ainda está no auge, Nixon coleciona o quinto mandato presidencial e a tensão nuclear entre EUA e URSS (um doce pra quem ainda lembrar o que significa a sigla) atinge o ponto máximo com a iminente invasão soviética ao Afeganistão.

Neste cenário, o Comediante, um herói que trabalha clandestinamente para o governo, é assassinado, dando início a uma trama que envolve os antigos mascarados, a maioria deles já aposentados, e que pode culminar, literalmente, com o fim do mundo.

A série redefiniu, junto com Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, o estilo de contar histórias nos comics norte-americanos. É considerada por muitos a melhor história em quadrinhos já escrita. Pode ser exagero, mas dentro do gênero super-heróis é difícil algum material que possa superá-la. O mesmo não pode ser dito da adaptação para a telona: além de não ser ‘o maior filme de todos os tempos’, tampouco é ‘o melhor filme de super-heróis de todos os tempos’.

Um mérito da adaptação é não trair em demasia os fãs (exceto os mais xiitas) – por sinal, a sequência de abertura, no qual a história americana é recontextualizada a partir da presença dos supers é, digamos, antológica. No mais, é apenas divertido.

Agora, se vale como consolo, outro ponto positivo, ao menos para mim, foi que o filme me despertou a vontade de reler Watchmen (acho que pela 12ª vez, numa estimativa modesta). E aí, folheando novamente a primeira reimpressão brasileira, lançada em 12 volumes pela Abril, em 1999, é possível perceber porque Alan Moore e David Gibbons conseguiram ser cultuados por meio mundo. Além de uma história muito bem tramada, a maxissérie é um exagero formal nos aspectos linguístico e metalinguístico.

Estruturada de forma a conter sempre nove quadros por página, divididas em três fileiras de três quadros verticais, a narrativa ‘acostuma’ o leitor à estrutura fixa, que é quebrada apenas em momentos-chave que, apenas quando se chega ao final da história, é possível se entender o significado.

Além disso, os quadros são minuciosamente construídos com elementos nem um pouco aleatórios. Nada que aparece nas imagens, nos diálogos e nas narrativas em off é gratuito – são peças de um megapuzzle que apenas reiteradas leituras ou olhares bastante atentos podem se dar conta de montar.

Outro recurso (inclusive apontado por Milena Azevedo na resenha publicada no e-zine Asfixia) é alternância de cores quentes e frias nos quadros, sinalizando mudanças de tempo, de tom narrativo e mesmo de personalidade entre os personagens.

Sem falar na presença de uma segunda história dentro da história, um exercício metalinguístico no qual um garoto lê uma história de quadrinhos sobre piratas que passa a se integrar à narrativa, dialogando com a trama central e mesmo oferecendo mais pistas.

Além disso, há referência pop no quilo: os heróis de Watchmen são todos decalcados da finada Charlton Comics, editora de segunda linha que foi comprada pela DC Comics (de cabeça podemos citar: Rorscharch/Questão; Dr. Manhattan/Capitão Átomo; Coruja/Besouro Azul; Comediante/Pacificador); os quadrinhos de pirata, típicos dos anos 50, são homenageados de maneira belíssima, assim como a chamada Era de Ouro dos supers; a imprensa marrom recebe um retrato ácido e bem-humorado; Cole Porter, Sinatra, Dylan e todos os standards da música americana também são lembrados, e por aí vai…

Como se não bastasse, Moore, um místico inveterado, constrói uma crítica ao cientificismo que dominou o século 20 – como bem apontou o pesquisador Gian Danton, em Watchmen e a Teoria do Caos (Editora Marca de Fantasia, 84 páginas, R$ 12). Ou seja, é pano pra manga que não se acaba mais. E você, que leitura faria?

Alex de Souza

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