Quem vigia os vigilantes 5 – Pablo Capistrano

O quadrinho definitivo II

 Publicado no www.pablocapistrano.com.br

"Faça como eu: bote uma meia na cabeça e enfie a porrada na bandidagem."

"Faça como eu: bote uma meia na cabeça e enfie a porrada na bandidagem."

Imagine que você faz parte de um romance de H. G. Wells. Um romance sobre, por exemplo, uma máquina do tempo. Imagine também, seguindo essa brincadeira, que essa máquina do tempo te transporte (de um modo que só as máquinas do tempo conseguem fazer), para a cidade de… quem sabe… Braunau am Inn! na Áustria, às margens do rio Inn, já na fronteira com a Baviera alemã.

O ano é 1889, e o fim do mês de Outubro, em pleno Outono europeu, já anuncia a chegada do vento gelado de mais um inverno. Imagine que você, com seu alemão sofrível, parado na frente de uma loja de doces, vê uma senhora saindo com um carrinho de bebê. A senhora parece que lembrou de alguma coisa. Talvez uma bolsa? Algum pacote? Ela fala algo incompreensível em algum dialeto desses de fronteira e retorna para dentro da loja de doces deixando aquele adorável bebê de seis ou sete meses adormecido em seu carrinho de ferro e madeira, com aquele design de fim de século XIX.

Você, que provavelmente gosta de crianças, se aproxima sem querer acordar aquele pequeno anjo do Senhor e, mergulhando seu olhar pelos detalhes internos do carrinho percebe escrito em uma pulseirinha metálica presa no braço direito da adorável criaturinha o nome: “Adolf Hitler”.

Um arrepio sobe pela sua coluna e, como em uma explosão instantânea de imagens, você vê no seu hipocampo mental (aquela janela da microsoft que se abre na mente quando a gente tenta visualizar alguma coisa) um desfile com as mais aterradoras, mais terríveis, escatológicas e desumanas imagens do século XX. Subitamente você se questiona com toda sinceridade: “Parto ou não parto a traquéia do bebê?”.

Esse dilema ético é muito semelhante à questão que opõe os personagens Ozymandias e Roschach em Watchmen. Se você não sabe, Ozymandias é (na HQ de Moore) um dos sujeitos mais ricos do planeta, e também um dos mais inteligentes. Ele consegue inclusive, com uma mistura de inteligência e grana, enganar o Dr, Manhatan (aquele ser quântico da primeira parte desse artigo).

Rorschach, por sua vez, é um homem pobre e atormentado por uma infância cercada de violência e descaso familiar. Criado em bairros suburbanos miseráveis, filho de uma prostituta que atendia os clientes em casa e objeto freqüente de humilhação e espancamento, Rorschach faz jus ao teste psicológico, criado pelo doutor Hermann Rorschach e usado, inclusive, para identificar a presença de núcleos psicóticos.
Na obra de Moore, Ozymandias e Rorschach são duplos.

São aspectos de um mesmo princípio, pontos opostos de uma mesma idéia. Enquanto Ozymandias surge sempre no alto de grandes arranha-céus iluminados, olhando a selva metropolitana por cima, como se pairasse sobre a miséria do mundo e observasse a tragédia do destino humano a partir de uma visão “global”, Rorschach é uma criatura dos becos sombrios. Ele vive ao nível do asfalto, observando no detalhe a sordidez da maldade dos homens. A inteligência de Ozymandias, e sua posição privilegiada na escala social, permite que ele perceba em um horizonte mais amplo o futuro da espécie, e possa pensar em uma ação global para evitar uma catástrofe humana. A condição miserável de Rorschach não permite que ele tenha essa visão de fundo e seu esforço é em fazer justiça no detalhe, matando e prendendo criminosos pelos becos da metrópole.

Esses dois sujeitos orbitam em torno de uma mesma idéia de bem e de justiça. Eles encarnam a tradição de nossa moralidade ocidental, que construiu um conceito de ?bondade? em oposição a um de “maldade” e impôs uma idéia de justiça em contraste com um conceito de iniqüidade. Rorschach e Ozymandias são filhos desse mundo. Eles buscam o bem. Eles procuram a justiça, mas se diferenciam fundamentalmente porque estão em campos opostos do embate intelectual sobre a natureza da “ética”.

Boa parte da história da ética moderna gira em torno da disputa entre correntes deontológicas (de Deon ? dever) e teleológicas (de telos ? finalidade). Se você segue uma ética deontologica (como Kant) vai acreditar que uma ação é boa ou má em si mesma. Ou seja, nenhuma injustiça praticada se justifica pela obtenção de resultados positivos. Essa é a ética dos santos ocidentais, daqueles que buscam intransigentemente a verdade e a pureza. Essa é a ética de Rorschach que não admite nada mais a não ser o expurgo do mal (mesmo que de forma confusa, entrecortada, na HQ de Moore, pelo surto psicótico do personagem).

Pessoas como J. S. Mill ou Jeremy Benthan, por sua vez, seguem uma ética teleológica, utilitarista, baseada na idéia de que a ação correta não é correta em si mesma. Ou seja, uma ação que produz uma maior quantidade de mal para um maior número de pessoas não se justifica. Justo é aquilo que traz uma maior quantidade de bem, para um maior número de pessoas.

Essa é a tese de Ozymandias. A moral utilitarista e pragmática, que seduz inclusive o Dr. Manhatan, e que produz a mais abjeta revolta em Rorschach. Uma ética como a de Ozymandias permite, por exemplo, que milhões de pessoas morram para que bilhões sejam salvas porque um mal menor se justifica diante de um bem maior. Watchmen, como toda grande obra de arte, aponta para esses mundos, esses dilemas e essas ansiedades que movem a cultura ocidental por séculos. Ela é uma obra vigorosa porque é Pop sem perder a dimensão do clássico, moderna, sem esquecer a sombra arcaica do velho mundo sobe o qual nossa herança cultural foi fincada e por sobre o qual esse mesmo mundo ameaça desabar.

Sentiu o drama?
E aí, já deu tempo para pensar no seu dilema ético particular?
Já correram nessas linhas as rotas sombrias de seus desejos e o peso torto de suas próprias crenças e valores?
Ótimo.

Então me diga sinceramente, você quebra ou não quebra a traquéia do bebê?

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2 Respostas to “Quem vigia os vigilantes 5 – Pablo Capistrano”

  1. Carlos Fialho Says:

    Pablo, estou de queixo caído com o seu texto. Só não repito novamente que sou seu fã para não soar redundante demais .

  2. Erica Valeria de Paaula Says:

    Texto brilhante!
    Impossivel não se enamorar pelas idéias…
    Adorei o filme também!

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