Daniel Sour

Como nesta quinta, lanço o Mano Celo em Mossoró, gostaria de homenagear um autor da cidade que gosto muito. O nome dele é Daniel Liberalino, garoto ainda, mestre em filosofia pela Unicamp e conhecido como Daniel Sour. É um autor inédito em livro, mas acho que a hora do rapaz está chegando.

O texto que segue é “O Gabinete do Dr. Beiesdorf” que aparece como bônus na primeira edição de “É Tudo Mentira!” Divirtam-se com o humor absurdo do jovem Sour e, quem gostar, pode dar uma passada no blogue dele: http://www.disfuntorerectil.blogspot.com/

 

O Gabinete do doutor Beiesdorf

Ser médico exige muita responsabilidade, especialmente para um neurocirurgião como eu. E responsável era precisamente o que eu estava sendo aquele dia no consultório, enquanto lia um rótulo de Nescafé. Na verdade, estamos sendo responsáveis o tempo inteiro. No fim de semana, nós ligamos para os nossos amigos neurocirurgiões e dizemos:

   – E aí, rapaz, tá afim de sair hoje?

  – O que vai ter?

  – Não sei, vamos sair por aí, procurar umas boas responsabilidades pra cumprir e arrebentar!

  – Não sei, cara… estou com algumas responsabilidades pra cumprir, acho que não vou…

    Por exemplo, você não deve fazer coisas como espirrar durante uma neurocirurgia – em particular, seu muco não deve cair no cérebro do paciente; você não pode sair durante uma cirurgia para ver um jogo – ou não sair e ainda assim ver o jogo; ao final de uma neurocirurgia, não se deve dar tapinhas amigáveis no cérebro do paciente etc. Mas como eu ia dizendo, aquele rótulo de café é uma leitura interessantíssima. Conta toda a história do café, desde o descobrimento. Aquele dia no consultório eu já estava aos soluços lendo essa comovente história e ia responsavelmente virando mais um copo de uísque quando o primeiro paciente chegou. Me recompus, usando um curioso aparelho de sucção (que encontrei ali ao meu lado) para sugar minhas lágrimas e o conteúdo do meu nariz.

    – Entre, por favor – disse, sobriamente.

     O paciente usava um espantoso penteado que me fez derrubar o abajur com o susto.

    – Oi – cumprimentei, com um aperto de mãos.

   – Olá, doutor.

   – Bonito cabelo – elogiei.

   – Obrigado… é inspirado num quadro de Pollock.

     Mal sabia ele que Pollock inspirava-se no monte de esterco que tinha no quintal de casa. O paciente contou que era um estilista de vanguarda etc., depois disse que vinha sentindo dores no corpo, mas adormeci nessa parte e sonhei que estava correndo num pomar de frutas mágicas com uma bela e sorridente fadinha, sobre cujos seios eu caía sempre, com incontível alegria, após tropeçar acidentalmente. Num desses tombos, seus seios caíram e foram quicando pelo gramado, enquanto eu os perseguia aflito, então acordei e o paciente acabava sua descrição dos sintomas:

    – …e basicamente é isso, doutor. O que o senhor acha que eu tenho?

   – Sem dúvida é algo muito grave – adiantei, assumindo uma expressão preocupada.

   – C-como assim? – perguntou, aparentemente assustado, a julgar pela mudança na cor da pele.

   – Não sei se você tem chances de sobreviver. Talvez mais alguns dias. Ou horas. Ou minutos. Ou segundos… milésimos…

    Fui obrigado a interromper aí, visto que não conhecesse outras unidades de medida menores. Pouco depois, o paciente me abraçava aos prantos, enquanto eu dava tapinhas de consolo nas suas costas. O verdadeiro profissional precisa levar em conta o aspecto psicológico dos seus pacientes.

    – Pode chorar, meu amigo – disse-lhe -, um verdadeiro profissional, continuei, precisa levar em conta o aspecto psicológico dos seus pacientes – carregando na palavra “psicológico”.

   – Vamos, beba um copo de uísque.

    O segundo paciente entrou logo após o anterior, e especulo que dificilmente teria conseguido entrar após o posterior (ou seja, suceder o sucessor), dada a rígida natureza do tempo. Sua chegada súbita me impediu de continuar aquele agradável sonho e por fim devolver à minha boa companheira seus seios desgarrados, embora talvez não no mesmo sonho, já que ela certamente não se incomodaria em ficar sem os dois por mais algum tempo – e, caso insistisse, eu poderia barganhar, devolvendo apenas um deles. Contudo, como dizia, meus planos foram adiados pela entrada deste outro paciente, que ao contrário do anterior, parecia conhecer a avançada tecnologia do pente para cabelo. O indivíduo só chegou e sentou e foi logo entregando uns papéis cheios de números e termos esquisitos. Multipliquei imediatamente todos os números entre si, elevando o resultado à décima potência e subtraindo tudo pela porcentagem de algodão do meu paletó. Depois tirei a raiz quadrada, pra ver se ainda lembrava como se faz. O paciente ficou olhando estático, e não me admira, porque se alguém precisa tirar a raiz de um número de cerca de vinte dígitos para saber se você está doente, então você deve estar muito doente mesmo, prestes a cair morto. De fato, eu me sentiria na obrigação de morrer.

    – É muito grave, doutor? – perguntou.

   – Bem, a julgar pelo percentual hidromagnético do seu hipossenóide, e considerando a voltagem das moléculas, parece haver um pequeno deslocamento no seu centro gravitacional telúrico, mas…

   – Mas? Qual o problema?

   – O seu problema, garoto, é que você está saudável demais. É um caso muito grave e extremamente raro…

   – Mas tem alguma solução?

   – A medicina contemporânea vem tentando descobrir um tratamento adequado para casos delicados como o seu, mas pouco foi alcançado. Posso, de minha parte, sugerir alguns paliativos, resultantes de décadas de pesquisa diária.

       Passei então a seguinte receita para o pobre homem:

    a) 1 copo de uísque, 7 vezes ao dia

   b) Manipular produtos inflamáveis e fumar charutos – concomitantemente, para efeito mais duradouro e eficaz

   c) Mijar em cercas elétricas

   d) Nadar em esgotos

   e) Atirar-se de arranha-céus

   f) Viver

    Depois sugeri que ele tomasse alguns copos de uísque comigo, para ir adiantando o tratamento, o que ele fez. Depois saiu pela porta, após algumas tentativas fracassadas de atravessar a parede. Expliquei-lhe que ele precisará de muito mais copos de uísque para conseguir fazer isso. De minha parte, em ocasiões similares costumo pedir gentilmente para que a parede saia da minha frente, mas nesse caso a parede que precisaria de umas boas doses de uísque.

   O próximo paciente entrou quando eu estava tentando lembrar os procedimentos necessários para segurar o copo de uísque à minha frente. Sugeri com um grunhido monossilábico que o paciente e seus espectros circunvagantes tomassem assento, o que fizeram, iniciando as habituais lamentações antes mesmo que seus fundilhos tivessem tocado a cadeira.

   Este rapaz parecia ter um caso de unha encravada, julgando a partir da análise cuidadosa de sua enigmática asserção “minha unha está encravada, doutor”. Pedi para que subisse na maca e o enviei imediatamente para a sala de neurocirurgia, avisando aos enfermeiros que tratava-se de uma emergência, pois afinal era preciso fazer valer o preço da consulta. O que mais eu poderia fazer? Prescrever um band-aid? Pelo que pagou, ele certamente merecia algo melhor.

   Foi uma das cirurgias mais difíceis que já fiz.

       – Bisturi.

    – Está na sua mão, doutor.

    – Hm, bem observado. Ups, acho que deixei cair entre o lobo frontal e o temporal. Me passem outro, sim?

    – Esse era o único, doutor.

    – Você tem um lápis de cor?

    – Lápis de cor! – gritou o enfermeiro para a enfermeira, que entregou-lhe o lápis.

    – Fórceps.

    – Aqui está doutor.

    – Dinossauro de borracha.

    – Qual deles, doutor Beiersdorf?

    – O tricerátops. Não, pensando melhor, o arqueopterix.

    – Aqui, doutor.

    – Obrigado. Poderia segurar o cérebro do paciente um instante? Toma.

    – Oh! Escorregou!

    – Você devia ser mais cuidadoso, garoto.

    – Você sabe onde foi parar o hemisfério esquerdo? Não estou encontrando…

    – Acho que escorregou para baixo daquele aparelho que parece com o painel da Enterprise.

    – Não estou vendo…

    – Tudo bem, deixa pra lá. Me passa esse hemisfério aí mesmo. Hm. Pronto. Atchim!

    – Saúde, doutor.

    No fim, tudo acabou bem com alguns tapinhas amigáveis no cérebro do paciente. Para compensar esses momentos difíceis, paguei uma rodada de uísque para todos.

   Sim, é dura a vida de um cirurgião.

   Muitas responsabilidades.

  

Daniel Sour

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