O mar e o marasmo – Direto do fundo do bau

Encontrei esse texto aqui no meu bau eletrônico. É bestinha e foi escrito em 2007. Achei legal postar aqui pra voltar a atualizar. Aliás, vou subir outros posts ainda hoje e tentar atualizar todos os dias até sexta.

***

Um professor citou certa vez uma passagem de Marcel Proust no seu “Em busca do tempo perdido”. Ele dizia que o protagonista se sentia, com relação a seu amor por Albertine, como uma criança diante das ondas do mar. Corre delas quando se aproximam e corre atrás delas quando se afastam. Não me recordo da citação na íntegra, mas essa é a idéia geral.

Nos últimos tempos, tenho me sentido assim com relação aos romances que falam do mar. Há alguns momentos na literatura universal em que você deve correr de encontro às ondas, mas outros em que se deve correr delas e buscar desesperadamente abrigo em terra firme. Obras que contam aventuras pelos sete mares constituem um dos gêneros mais populares há séculos. O oceano é um dos cenários mais misteriosos e fascinantes do planeta e, vale lembrar, que ele ocupa 75% de sua superfície. Se levarmos em consideração esse dado, é de admirar que não se façam mais romances marítimos.

Entre os livros que li e me senti navegando em águas seguras, cito “Moby Dick” e “20 mil Léguas Submarinas”. Dois clássicos. O primeiro, do nova-iorquino Herman Melville, narra a caçada pelos oceanos do mundo ao monstro marinho gigantesco, a baleia branca que devorou a perna do Capitão Ahab. Curioso é notar que numa época pré-correção política e quando o Discovery Channel não chegava a muitos lares (1851), as baleias podiam ser caracterizadas como aberrações da natureza que saíam por aí, afundando embarcações e devorando pernas e braços a esmo. O autor se refere às baleias de uma forma geral como monstros marinhos, e não só à astuciosa e temível Moby Dick do título.

“20 mil léguas submarinas” é uma típica aventura, ao melhor estilo Júlio Verne. Um escritor de notável imaginação e que explorava o desconhecido para criar universos próprios e sedutores. Explorou o espaço (Da terra à Lua), a terra firme e o céu (Volta ao mundo em 80 dias), o interior do planeta (Viagem ao Centro da Terra) e, claro, o mar. O Nautillus, submarino secreto, sem pátria, com idioma próprio, comandado pelo lunático Capitão Nemo, desbrava o mundo por baixo d’água, protegendo os oceanos da nociva ação dos seres humanos. Como? Afundando os navios, ora. Como se fosse uma Moby Dick motorizada. Pelo caminho, uma lula gigante, tubarões na caça submarina, muitos perigos e intrigas. Júlio Verne era tão visionário que previu a invenção da lâmpada elétrica que já funcionava no Nautillus e também do próprio submarino que não existia em 1870 quando o livro foi publicado. “20 mil léguas submarinas” é, até hoje, a única adaptação decente para o cinema de um livro de Júlio Verne.

Dos autores atuais e mais, digamos, moderninhos, vale destacar “A Praia” que tornou o inglês Alex Garland famoso e célebre em todo o mundo. Esqueçam a adaptação desastrosa para a tela grande com Leonardo di Caprio. Leiam o livro e fujam do filme como faria se visse uma Tsunami.

Fujam também de qualquer livro do Amyr Klink. Que o cara atravesse o Atlântico num barco a remo, tudo bem. Louve-se esse grande feito. Mas querer que se leia “100 dias entre o céu e o mar” é nos afogar em um oceano de tédio e pasmaceira comparável às mais terríveis calmarias de que se tem notícia. Um livro em que as partes mais emocionantes ocorrem quando uma tartaruga roça o casco no fundo do barco ou quando o autor/aventureiro cai no sono, não é, convenhamos, muito empolgante.

E pra cometer um sacrilégio literário antes de encerrar, devo confessar, não sem constrangimento, que detestei “O velho e o mar”. Arrastei-me com certa dificuldade e desânimo pelas páginas (não muitas) da obra clássica de Hemingway. Sinceramente, esperava mais dessa história de pescador. O Hemingway certamente foi um grande escritor e eventualmente pode ter sido um bom pescador. Porém, as duas habilidades não foram bem combinadas. Em todo caso, aconselho que leia a obra e tire suas próprias conclusões. Mas, para mim, “O velho e o mar” é peixe pequeno perto de “Moby Dick” e “20 mil léguas submarinas.” 

 

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