Na mesa com Marçal – Direto do fundo do bau

Mais uma crônica retirada do fundo do bau, escrita em 2007, narra um pouco da noite em que conheci o escritor Marçal Aquino, na ocasião do lançamento dos livros dos Jovens Escribas em São Paulo. Divirtam-se.

***

Marçal, Antonio Prata e Daniel Galera.

Marçal, Antonio Prata e Daniel Galera.

Você percebe que um ser humano é fora do normal quando começa a notar que ele é o ídolo dos seus próprios ídolos. Foi dessa forma que conheci a obra de Jorge Luís Borges. Sou fã dos textos do gaúcho Luís Fernando Veríssimo, do carioca Arthur Dapieve e do paulista Antonio Prata. Prata faz diversas referências a Borges em seus divertidíssimos contos; Dapieve considera o autor como o melhor escritor do Século XX; Veríssimo vai além e define Borges como o melhor escritor da história. E olhe que falamos de três autores brasileiros apaixonados por futebol, o que deve pesar um pouco em se tratando de um autor argentino elogiado tão efusivamente por eles. Em todo caso, fui conferir a obra do hermano e descobri que ele tem todos os méritos em ser ídolo dos ídolos. Tanta imaginação a serviço da literatura fez de Borges um escritor universal, estudado, cultuado, admirado e, claro, lido no mundo inteiro.

Quando cheguei em São Paulo, junto com outros 4 colegas escritores potiguares para lançarmos nossos livros e o Projeto Jovens Escribas, logo percebi que Marçal Aquino é o cara. Era uma fria noite paulistana e os convidados começavam a chegar à Mercearia São Pedro.  Vários deles, escritores residentes na capital paulista, lidos e admirados por alguns de nós. O primeiro foi André Laurentino, autor de “A Paixão de Amâncio Amaro”, um romance considerado como um dos melhores publicados no Brasil em 2005. Autor revelação da Festa Literária de Paraty no Rio de Janeiro. Entre os presentes também estavam Daniel Galera e o já citado Antonio Prata, além de um outro ilustre, mas não-escritor, Nando Reis. Mas foi Laurentino que apontou com indisfarçável admiração: “O Marçal chegou.” Eu, sem ligar o nome ao escriba, perguntei: “Quem?” “Marçal Aquino. Você não conhece? Olha ele ali. Você precisa conhecer!”

Daniel Galera, autor bem-sucedido da geração 00, adaptado para o cinema e teatro, o homem por trás da editora Livros do Mal, também passou boa parte da noite conversando e absorvendo o que o grande Marçal tem a dizer. Antonio Prata também fez o mesmo. E Nando Reis, ao conhecê-lo pessoalmente, disse sem a menor cerimônia: “Seu livro mudou minha vida!” Isso deveria significar alguma coisa. 

A noite foi passando e, em dado momento, tive eu também o privilégio de sentar à mesa com o Marçal. Numa roda de bate-papo bem aquilatada, todos só tinham olhos e ouvidos para ele e suas histórias. Eu aproveitei o momento o quanto pude. Deliciei-me com alguns ótimos “causos” da vida real vividos por ele.

“Um amigo meu transou com uma hermafrodita!”, declarou. “Tava lá, metendo na buceta dela, dele, sei lá, quando a hermafrodita começou a fica de pau duro. Não riam ainda não que a história não acabou. Não é que a porra da hermafrodita ficou excitada e gozou no meu amigo?! Olha, eu não sei vocês, mas eu não gosto de ter algo entre mim e a parceira não. Prefiro o tradicional mesmo.”, decretou.

“Um dia eu cheguei pra um amigo e disse: pô, tô a fim de dar umas porradas. Aí ele disse que tinha um clube sadomasoquista que ele freqüentava em que várias mulheres iam lá pra apanhar voluntariamente. Eu fui. Cheguei lá, peguei um chicotinho e comecei a espancar com força uma mulher que gemia a cada porrada. Lá pras tantas, ela disse: ‘Isso é o melhor que você consegue fazer? Pode bater com força, meu!’ Aí, eu desci a porrada e ela gozou de tanto apanhar. É estranha a sensação.”

Lá pras tantas, uma mulher muito bêbada, estilo mala-sem-alça, senta à mesa e diz: “Uma cartomante disse que eu vou morrer.” O sábio Marçal de bate e pronto: “Eu digo a mesma coisa. Essa é a única certeza, minha filha. Não precisa ser cartomante pra saber disso.” “Mas você não está entendendo. Ela disse que eu só tenho 15 anos de vida.” “Ela disse isso? Imagina! Você não chega a isso tudo não!” A mulher saiu horrorizada da mesa. Antes de ir embora perguntou como era o nome daquele homem de afirmações tão terríveis: “Marcelino. Meu nome é Marcelino Freire.”

Marçal tem muitas outras histórias pra contar. E as melhores a gente não acha em mesas de bar, mas em prateleiras de vídeo-locadoras ou livrarias. Agora, uma coisa é certa: tomar uma cerveja com ele, mesmo que por um breve (apesar de memorável) espaço de tempo, ajuda a entender de onde ele tira personagens tão elaborados. Em muitos casos, são os personagens que buscam o escritor.

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4 Respostas to “Na mesa com Marçal – Direto do fundo do bau”

  1. Lu Longo Says:

    Muito boa a crônica!!!! Uma dessas pessoas que estavam lá já tinham me contado parte da história! Estou boba com a coincidência! Abraços!

  2. Lu Longo Says:

    ops: … já tinha…

  3. Carlos Fialho Says:

    Luciana, coincidência das coincidências então! Quem era essa pessoa?

  4. Lu Longo Says:

    Aquele cuja vida mudou pelo livro…

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