Cruvinel e o Japão

Quaresma deu a dica: “Hoje tem rodízio de sushi no Takami, Cruvinel”. Meditabundo, nosso rei das oportunidades perdidas, senhor absoluto do zero a zero, tentou conjecturar o que aquilo queria dizer. Percebendo a cara de abestalhado do amigo, Quaresma esclareceu: “Vai estar cheio de gatinha, rapá! Todas elas ali, patricinhas natalenses, vulneráveis e doidas pra se dar bem, esperando os predadores naturais. Daí, dois jovens, bonitos, charmosos, bem apessoados e sobretudo humildes, como nós, honrosos membros do topo da pirâmide alimentar, vamos lá e pimba! Sacou? Catamos as boyzinhas, rapá! Nem que seja com dois pauzinhos. Aliás, você não tem problema em comer com dois pauzinhos, né Cruvinel?”

Tinha. Disse que não, que adorava comer sushi, que para ele o salmão em abundância presente nas mesas dos restaurantes japoneses era o maior símbolo da melhoria de vida dos últimos anos. Antigamente era aquela coisa de “ontem fui a um lugar muito chique, pois tinha até salmão”. Hoje não. As pessoas dizem agora algo como “garçon, você poderia me trazer esse prato com menos salmão? É que estou enjoado de tanto comê-los”. Isso sem falar em todo o resto. Aqueles outros peixes de cores diversas. Tem o branquinho, o vermelhinho e o camarão. Tem também o “hot filadélia”. Enfim, são tantas iguarias que ficava até difícil dizer de qual ele gostava mais. Foi mais ou menos isso que Cruvinel disse enquanto seu estômago se revirava só de pensar em ter que digerir toda aquela carne crua.

Se a comida oriental não apetecia Cruvinel, pelo menos o restaurante fora bem escolhido. Quaresma era expert nesses assuntos paquerativos e o Takami era o melhor restaurante japonês para ver e ser visto pelas garotas de Natal. Seus proprietários são o casal Lee, Bruce e Bárbara, sempre zelosos da qualidade e bom ambiente.  Coincidia ainda que no dia seguinte à noite da ofensiva, o Brasil jogaria contra o Japão para garantir o primeiro lugar do grupo e os 100% de aproveitamento na primeira fase.

O jogo contra o Japão, aliás, pautou as animadas conversas na mesa do Takami. Quaresma dissertava sobre a teimosia do Parreira em não escalar o Robinho e o Juninho Pernambucano, a manutenção do Cafu e do Roberto Carlos mesmo sem estar produzindo nada. a única coisa que ele concordava era com a insistência no Ronaldo que, ainda com 18 kg acima do peso, poderia fazer a diferença, já que se tratava de um fora-de-série.

Eles veriam o jogo na casa do Jacozinho onde também fariam um. Cruvinel já salivava quando pensava na quantidade de carne vermelha bem passada que consumiria dali a algumas horas e sentia um calafrio ao comparar os pedaços de picanha e maminha com os pescados que logo aportariam a sua frente. Além dele e Quaresma, havia diversos outros comensais. Alguns amigos, uns tantos conhecidos e umas gatinhas amigas dos conhecidos. Uma delas, de feições orientais, sentou ao lado de Cruvinel que, a um comando de Quaresma, avançou rumo à zona do agrião.

Seu nome era Ronalda, a filha do meio dos Aoki, aliás, a mais gatinha das 3. Cruvinel logo imaginou que pra ela, comida japonesa era como um prato típico e uma ida ao Takami equivalia para ele como uma ida ao Mangai. Sendo assim, era melhor ser discreto e fingir que estava tudo bem. Como um jogador experiente que aprende com os revezes da carreira, evitou beber para não acabar embriagado como aconteceu no dia em que o Brasil enfrentou a Croácia e mediu bem as palavras para não escorregar como há poucos dias, quando jogamos contra a Austrália. Disfarçava bem o fato de estar pouco à vontade diante daquele cardápio e também conseguia esconder a liga de borracha que unia seus dois pauzinhos para ocultar sua extrema falta de habilidade com os utensílios.

Ronalda, pelo contrário, exibia toda a desenvoltura que uma boa sansei, faixa preta de judô, que já havia até morado e trabalhado no Japão como modelo, deveria demonstrar. Ela se fartou não só dos sushis, sashimis e tekamakis, como também mandou ver no saquê. Logo estava bastante animada, enquanto o Cruvinel, que não bebera nada, apenas comera uns quantos sushis pode suportar regado a Coca-cola para não enjoar, já começava a ganhar terreno ante a crescente fragilidade do adversário.

Lá pelas tantas, as amigas de Ronalda decidiram ir mais cedo e Cruvinel, matou no peito e emendou de primeira: “Pode ficar que eu te deixo em casa.” Mais tarde, um sóbrio Cruvinel ajudava uma cabaleante Ronalda Aoki a se deslocar do carro até a entrada de sua casa. Como seus pais estavam viajando para visitar os familiares em Yokohama e as irmãs moravam em São Paulo.

Sem conseguir acreditar em sua sorte, agradeceu à milenar culinária japonesa por proporcionar os sushis, os restaurantes orientais e aquele ocasional encontro que salvaria a primeira fase da Copa da Alemanha para o nosso atacante ruim de pontaria. Ao adentrar na sala vislumbrou muitos quadros estampando figuras de samurais, gueixas e ideogramas. Na varanda, alguns bonsais belíssimos e no quarto de Ronalda, onde Cruvinel entrou rapidamente, havia um poster de Jigoro Kano (inventor do judô) e muitas medalhas de competições de judô. Ela pediu que esperasse na sala para onde voltaria em instantes.

Intantes que demoraram séculos. Foi preciso muita paciência para não explodir de tanta ansiedade. Ronalda voltoutoda cheirozinha e de quimono de seda. Cruvinel não podia crer. Seria uma vitória maiúscula, para dar moral, para assumir o favoritismo nas fases finais, no mata-mata. Ela se aproximou e ele também. Encontraram-se frente a frente no centro da sala de TV. Foi quando, bem diante dela, rostos quase colados, ela já de olhos cerrados e lábios entreabertos, no mano-a-mano, de frente pro crime, na cara do gol, na marca de pênalti, o estômago de Cruvinel resolveu se amotinar em protesto a toda aquela carne de pescado crua que ele ingerira avidamente a despeito da intolerância alimentar que aquilo poderia provacar. Nosso camisa 9 mandou a bola pra lua, sentiu um fortíssimo enjôo e vomitou salmão semi digerido na Semp Toshiba da família Aoki. Ronalda, indignada, aplicou um golpe quase mortal, derrotando Cruvinel por ipón em tempo recorde.

Ele saiu correndo, debaixo de mais golpes e muitos xingamentos. A jovem sansei não entendia como ele não havia bebido nada e passava mal daquele jeito! “Um absurdo!”, disse ela. Ele que sumisse da vida dela como um ninja em meio à fumaça, senão iria apanhar toda vez que se cruzassem.

Cruvinel chegou em casa ainda passando mal e cheio de dores no corpo. E ainda lhe doía a cabeça só de pensar nas perguntas que o Quaresma lhe faria na tarde seguinte, no churrasco na casa do Jacozinho. Decidiu fazer umas compressas para aliviar as dores do corpo e da alma. Ligou a TV enquanto aplicava as bolsas de gelo e percebeu que passava um filme. “Os 7 samurais” do Akira Kurosawa. Desligou. Era melhor tentar dormir. Mas sua agonia ainda não terminara. Durante o sono, teve um pesadelo. O godzila aparecia e destruía vorazmente sua reputação. A interpretação daquele sonho ruim era simples: Cruvinel tinha se dado mal de novo. Estava perdido. E agora, nem Jaspion, Senhor Miagy ou um exército de samurais poderiam salvá-lo.

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