Cantos das Cidades 8 – Boa Noite, Cinderela. (RN)

ETM - Gustavo Lamarine

Gustavo Lamartine, o artista, o homem, o parceiro na idealização do conto.

Eu estava bebendo uma noite perdida com o músico maloqueiro e high society Gustavo Lamartine quando o assunto partiu para, sabe-se lá porque, o golpe “Boa noite, Cinderela” que mulheres gatas e desconhecidas costumam aplicar em homens desavisados. Segundos os relatos dos e-mails mais sensacionalistas, elas botam alguma substância entorpecente na bebida do cara, arrastam para um lugar específico e extraem alguns órgãos internos. A pobre vítima acorda horas depois numa banheira de gelo e um bilhete de alerta escrito pela golpista.

Gustavo perguntou:”e se uma dessas mulheres roubasse o coração do cara? Ele teria que sair atrás dela, né?” De golpe, numa arrojada associação de ideias provocada, certamente, pela lubrificação etílica em curso, cantei um trecho da canção “A conta” do Mad Dogs: “Perambulei de bar em bar e procurei sem encontrar a vagabunda que roubou meu coração.” Pronto. Eu já tinha cenário e uma ideia para o próximo conto que escreveria para o livro Cantos das Cidades.

E resultou que o “Boa noite, Cinderela!” é um dos melhores contos que escrevi até agora. Natal merece mesmo contar com uma das mais divertidas narrativas da reunião de histórias.

Confiram um trecho:

“… Nos jornais, ofertas de córneas que custavam os olhos da cara, rins que até que não estavam caros, uma casa de frente pro mar com muitos metros de área e Shirley, universitária, recém chegada do sul, loira, 1,75m, namoradinha, anal-e-oral-inclusos-no-pacote. Quando já estava para fechar o jornal, um susto! Mas era só um apartamento de dois quartos mais dependência em Três Corações. Pensei em ir até lá, para negociar pessoalmente com o prefeito se a cidade não poderia ceder-me um dos corações. Talvez o governante ficasse comovido com minha história trágica. Talvez. Fiquei de fazer isso mais tarde. Por hora ia só anotar o telefone da Shirley mesmo.

Espalhei cartazes pelas cidades, como nesses que ficam pregados em lugares públicos e pet-shops, sempre em busca de um poodle chamado Rambo. O meu dizia “Procura-se órgão muscular oco interessado em compromisso duradouro de cerca de uma vida humana. É necessário residir em meu peito, sob o osso esterno, ligeiramente deslocado para a esquerda. Precisa ter tamanho aproximado de um punho fechado e pesar cerca de 400 gramas. Contatos no…” Bem, não houve resposta ao meu apelo, mas soube de fonte segura que Rambo foi encontrado são e salvo acompanhado de vira-latas no centro da cidade e passa bem. Se eu tivesse coração, ficaria feliz pelo pequeno peludo.

As pessoas ficavam perguntando como o meu organismo fazia para bombear o sangue sem coração. O caso é que a corrente sanguínea se reuniu e decidiu que iria continuar indo para onde bem entendesse, pois de tanto ir sem parar, acabar aprendendo o caminho e que se ficasse parado ia ser chato todos aqueles glóbulos brancos e vermelhos e plaquetas ali parados, sem fazer nada, se dedicando ao ócio, ou quem sabem à marginalidade, o que seria terrível, e era melhor continuar fazendo o que estavam fazendo até que se realizasse outra assembléia posteriormente ou que chegasse um coração novo para colocar ordem no corpo. E assim foi, e assim é, e assim vai sendo…”

Sarkis e Nalva

Paulo Sarkis (na foto, conversando com Nalva) - baixista do Mad Dogs e ídolo deste blogueiro autor.

Com um co-autor como Gustavo Lamartine e inspiração na letra dos Mad Dogs fica fácil escrever uma boa história. Essa é a verdade.

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