Tio Marx e a turma da revolução – por Pablo Capistrano

 

Hoje, para lembrar que sábado tem lançamento do novo livro de Pablo Capistrano no Midway, publico um dos textos que deve estar entre os 47 de “Simples Filosofia”. Proveitem o aperitivo e apareçam na livraria sábado.

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www.pablocapistrano.com.br

Não sei porque mas toda vez que eu olho para o meu contracheque eu lembro de Karl Marx, o sujeito que escreveu a maior obra sobre o Dinheiro (Das Kapital) sem um puto furado no bolso. Marx foi o espectro que rondou o mundo ocidental por cento e cinqüenta anos e junto com a turma da revolução fez um grande estardalhaço no século XX. Guerras, massacres, torturas, guerrilhas, discussões acaloradas em mesas de bar, rupturas, divórcios, títulos acadêmicos, honras militares, filmes de aventura. Tudo isso feito em nome do Karl Marx quer seja contra ou a favor.

Lembro que quando me aproximei do movimento estudantil (no começo dos anos noventa) eu era existencialista. Lia Sartre, acreditava em revolução estética e pensava que o mundo era uma imensa rota 66 na qual os verdadeiros revolucionários eram Jack Kerouack, Allen Ginsberg e Bill Burroughs (a santíssima trindade beat). Lembro que tinha verdadeiras pelejas teóricas com a turma da TPOR, da Convergência Socialista, do Correio dos Trabalhadores ou qualquer uma das facções revolucionarias marxistas que assombravam o pátio da Escola Técnica Federal ou a cantina do DCE no setor I do campus da UFRN. Naquela época, Marx estava por fora. O muro havia caído e meu pai havia, depois de trinta anos de militância no PCB abandonado a cartilha marxista e pulado nos braços da Igreja Católica. Como eu nunca decorei o Credo só tinha uma saída: virar existencialista. Então, nada melhor para fazer do quer malhar o velho Marx e a turma da revolução.

Quinze anos depois aqui estou eu, olhando para meu contracheque de proletário da educação e pensando comigo mesmo: até que esse tal de Marx não era lá tão idiota assim. Na verdade, a despeito desse período de rebeldia pós-adolescente, o marxismo sempre esteve na pauta das conversas em família. Boa parte dos filhos de Seu Benjamim Capistrano (meu avô paterno) eram comunistas. Os sobrinhos também. Teve gente da família indo para Cuba trabalhar com Fidel, gente tendo aula de Marxismo com Luis Maranhão, gente envolvida com todo tipo de atuação política. Até meu tio Lula (que ganhou esse apelido no começo dos oitenta pela barba farta em homenagem ao líder sindical homônimo) chegou a ser preso por pichar os muros do Palácio do governo em Natal com o clássico “Abaixo a Ditadura!”.

Marx realmente entrou na pauta do mundo no século XX e poucos foram os filósofos que conseguiram, em tão pouco tempo, produzir um impacto tão significativo na vida cotidiana de bilhões de seres humanos. Com Marx a filosofia deixa de seu um curioso “inutensilho” de sujeitos esquisitos e passa a ser um instrumento de transformação social. Mas há uma sombra filosófica que paira sobre Marx. Um espectro que nunca se afasta muito dele. Um encosto intelectual, para usar um termo mais “igreja universal”. Por mais que esse marrano Alemão (filhos de Judeus assimilados) tenha produzido um pensamento próprio e significativo no campo da teoria política e na economia; em filosofia ele sempre vai ser visto como alguém que fez alguns pequenos ajustes no pensamento de Hegel e ajudou a limpar o resto de metafísica que ainda lhe poluía o pensamento. Marx usa uma base materialista clássica, dos velhos atomistas da Grécia antiga (Demócrito e Epicuro) para entender o mundo moderno. Isso não teria sido possível se Hegel, antes dele não tivesse subvertido o cânone católico e ido “resgatar” os pensadores originais, “pré-socraticos”. Marx põe a história em um ponto privilegiado de seu raciocínio e toma emprestadas as ferramentas dialéticas de Hegel para postular uma tese de Vico de que nós só conhecemos e dominamos aquilo que produzimos. Somos aquilo que fazemos. O trabalho de nossas mãos constrói o mundo em que nós vivemos e é com o trabalho de nossas mãos e com o esforço dos trabalhadores, que um dia foram servos, que um dia foram escravos e que um dia foram livres, que a civilização se edifica.

A grande intuição política de Marx é a de inverter para corrigir a lógica hegeliana de produção da história. Não são os heróis que constroem os mundos. As civilizações humanas, todo seu drama e toda sua tragicomédia é produto da massa amorfa de mãos anônimas que erguem as grandes construções do homem.  Como bem observou Walter Benjamim, Marx nunca deixou de ser um profeta judeu. Ele nunca abandonou a base do profetismo bíblico que, no período posterior a destruição do primeiro templo, lembrava ao povo de Israel qual era a verdadeira justiça do Eterno. Marx acabou se tornando o profeta político desse novo mundo, competindo com Nietzsche pela hegemonia da alma das massas no século XX. Mas, a despeito desse impacto no universo político, talvez, a maior contribuição intelectual de Marx tenha mesmo sido o diagnostico preciso e certeiro do modo de pensar que gira o moedor de carne humana do sistema capitalista. Ninguém entendeu a alma de um burguês como Marx. Provavelmente só o poeta francês Charles Baudelaire tenha penetrado de forma tão radical no abismo recôndito e profundo da náusea burguesa. Marx chafurdou na ferida da modernidade. Ele enfiou o dedo na chaga burguesa e conseguiu desmantelar a falcatrua ideológica do capitalismo como ninguém havia feito.

Liberdade, igualdade e fraternidade foram os lemas da revolução que encantou Hegel. Marx seguiu o mestre e o corrigiu. Mostrou que entre os lemas da revolução francesa e a realidade de um sistema que destroça os limites morais da humanidade e transforma Deus em uma nota de cem euros havia uma grande e nauseabunda contradição. Como todo bom profeta judeu, o tio Marx desceu da montanha para quebrar o bezerro de ouro da mentalidade burguesa que o próprio capital financeiro, judaico e protestante, ajudou a construir. Deu, para entender, porque é que eu lembro de Marx toda vez que olho meu contracheque? Pois é meu velho, a luta continua!

 

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