Coluna da Digi #s 2 e 3 – Campos de Carvalho

 A coluna de estreia, “Fabão e Maryeva” rendeu um monte de acessos e 52 comentários. Daí, na semana seguinte, no dia 27 de agosto de 2007, publiquei o texto “Christmas, the city of the sun” a respeito da festa “Independence Day” que ocorreria em Pipa para celebrar a independência do Brasil(!!!). A polêmica gerada pela crônica rendeu 137 comentários e certamente chamou a atenção para a coluna, atraindo novos leitores que talvez tenham sido fidelizados desde então.

No entanto, não vou publicar aqui a segunda coluna por tratar de um tema muito datado. Quem quiser, pode relê-la (ou conhecê-la) aqui. Prefiro publicar a minha terceira crônica publicada na Digi: “Campos de Carvalho, um escritor único“, que foi ao ar em 03 de setembro de 2007, falando um pouco sobre um dos meus autores preferidos.

***

Campos de Carvalho, um escritor único

Andando pelas livrarias da paulicéia, me deparo com dois livros que me deixam muito feliz em encontrá-los. “As Pelejas de Ojuara” do Nei Leandro em posição de destaque na prateleira me faz abrir um largo e satisfeito sorriso. E “Campos de Carvalho – Obra completa”, lançado em 1995, já em sua 10ª edição, esgotando-se ano após ano das livrarias e sendo sempre reimpresso para o desfrute de novos conhecedores de sua prosa. Walter Campos de Carvalho é para mim um dos maiores escritores do Brasil de todos os tempos. Quase sempre subestimado, hoje vem recebendo a devida justiça, alcançando boas vendas e até mesmo um certo culto por parte da nova geração de leitores e escritores.

Jorge Amado foi o seu padrinho literário. Impressionado com a imaginação do escritor paulista, dizia a quem quisesse ouvir que ele se tratava de um dos melhores romancistas em atividade no país. Porém, sua obra não foi bem aceita no seu tempo. Era um período conturbado. Publicou seu primeiro livro em 1954, ano do suicídio de Getúlio Vargas, e a última em 1964, quando veio o golpe militar. Sua prosa original e vigorosa não passou impune diante das ditaduras ideológicas que imperavam no Brasil daquele tempo.

A direita o acusava de ser um subversivo, a esquerda de não produzir uma arte engajada. E foi por não se encaixar nos caprichos ideológicos nem destes nem daqueles, que ele acabou sendo desprezado, ignorado, passando ao largo dos grandes escritores da época, sem cativar os numerosos leitores de que era merecedor.

Jorge Amado não entendia como um escritor tão bom, dono de uma fértil (apesar de curta) produção tinha que conviver com o ostracismo e críticas tão injustas. Ele dizia para o autor: “Você só será compreendido daqui a 30 anos.” Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, pouco antes de morrer, Walter declarou amargurado: “Eu não sabia que 30 anos demoravam tanto a passar.”

Mas eis que as palavras do pai de Tieta, Gabriela, Tereza Batista e outras morenas gostosas, foram de fato proféticas. Em 1995, exatos 31 anos após a publicação de seu último livro, “O Púcaro Búlgaro”, a editora José Olympio relançou a obra completa do autor. Nesses 12 anos, o livro alcançou sucesso de público, crítica, vendas. Sua combinação de non-sense, personagens marcantes e um domínio absoluto da linguagem, capaz de produzir deliciosos jogos de palavras, fazem Campos de Carvalho ser inovador e ousado até para os padrões deste início de milênio, imaginem na época em que ele escrevia.

Em seu tempo não havia o conceito de politicamente correto. Por isso, o autor continua a impressionar nesses tempos insípidos de hipocrisia disfarçada de respeito ao próximo. No livro “A Vaca de Nariz Sutil”, é narrada a história de um homem apaixonado por uma garota de 15 anos que se entrega ao protagonista sobre um túmulo do cemitério. Acusado de corrupção de menores, o homem acaba escapando se valendo da condição de herói de guerra. Já em “O Púcaro Búlgaro”, o mais bem-humorado e popular de seus livros, é organizada uma expedição para provar a existência ou inexistência da Bulgária.

Ao escrever esse texto para o JH Primeira Edição, eu já havia lido 3 dos 4 livros contidos no volume da Obra Completa. Além da “Vaca de Nariz Sutil” e do “Púcaro Búlgaro”, li também “A Lua vem da Ásia” que narra as incessantes aventuras e desventuras nunca vividas por um protagonista cheio de imaginação. Numa espécie de “Mil e uma noites” delirante, ele conta sua trajetória pelos 4 cantos do planeta, desafiando a realidade numa viagem deliciosa. Já em sua frase inicial, “A Lua vem da Ásia” dá o seu cartão de visitas, apresentando ao leitor iniciante na obra do autor toda sua sutiliza e genialidade: “Aos 16 anos matei meu professor de lógica, invocando legítima defesa. E que defesa seria mais legítima?” A partir daí a lógica não existe mais, dando lugar à imaginação singular e ilimitada de Campos de Carvalho.

Em Natal não se encontra a obra de Campos de Carvalho com facilidade. Pode-se, no entanto, encomendar junto às livrarias ou comprar via internet. É importante ler o autor. Se ele não foi bem aceito ou compreendido no seu tempo, sejamos nós, no nosso tempo, a fazer justiça. Pois como escreveu o Próprio Walter em “O Púcaro Búlgaro”: “Não sou eu que ando um pouco fora de época: é a época!” 

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