Colunas da Digi #5 e #6 – Quem você quer ser?

A minha 5ª coluna na Diginet, publicada em 17 de setembro de 2007, foi uma crônica chamada 4 elementos e falava das manobras em torno da votação do plano diretor da cidade que os vereadores queriam aprovar segundo os interesses das construtoras em troca de suborno que recebiam dos empresários. A Polícia Federal depois desbaratou o esquema através da “Operação Impacto”. Como essa crônica se relaciona estritamente com fatos da época, não a republicarei aqui. Publicarei então o texto “Quem você quer ser?”, uma história leve e sobre crianças jogando futebol que foi a sexta coluna publicada no dia 24 de setembro de 2007.

***

Quem você quer ser?

Uma pelada no campinho do bairro. Tava todo mundo lá. O Lero-lero, o Brasilgás, o Múcio e todos os outros que não vou dizer o nome, pois a única função deles nessa história é fazer figuração e deixar claro que tínhamos dois times formados, incluindo dois bons goleiros.

A gente só tem 9 anos. Quer dizer, menos o Lero-lero que é um ano mais velho e já está na quarta série. Como ele tem mais experiência que a gente, joga melhor. Já não corre tanto quanto nós, mas por ter muito mais idade, conhece os atalhos do campo e mostra toda a categoria adquirida em não-sei-nem-dizer-quanto-tempo de pelada.

E começamos tirando os times e botando a bola no meio e já íamos começar quando o Brasilgás gritou lá do gol: “Eu sou o Rogério!” Nossa, como é que eu ia esquecendo disso? Antes de cada pelada, a gente tem que deixar bem claro quem quer ser. O Brasilgás é o nosso goleiro oficial. No início, ele foi pro gol porque é gordinho e não tinha disposição pra jogar em outras posições. Mas com o tempo, ele tomou gosto pelo gol e acabou virando muito bom debaixo dos paus. E o ídolo dele era Rogério. Claro que era Rogério, era o goleiro da moda naquele verão.

Eu, que estava com o pé direito em cima da bola pronto para dar a saída, também levantei pro alto meu dedo e disse, antes que outro jogador fizesse, com a pose de dono da bola, conseqüentemente, chefe da pelada: “Eu sou Romário!” E só podia ser Romário mesmo. Sou baixinho, abusado, fico lá na frente esperando a bola e quem achar ruim mando embora da pelada na maior. Tá pensando o quê? Moro nesse bairro desde que nasci!

O Lero-lero também disse logo quem ele queria ser. Era o Zidane, camisa 10. Tem tudo a ver com ele. Um cara experiente, organizador de jogadas e que dá olé nos mais moços. E depois dele, todos os outros começaram a dizer que queriam ser o Kaká, o Ronaldinho Gaúcho, o Cristiano Ronaldo, o Nesta, o Gamarra. Mas faltava um. O Múcio não disse quem ele queria ser. Múcio gostava de jogar no meio, chegando na frente. Se bem que no nosso jogo isso não fazia muita diferença, pois todo mundo vai atrás da bola onde quer que ela vá. Até o seu Damião, pipoqueiro do parque de diversões que há mais de 2 anos, ou seja, mais de uma década, está no bairro é atropelado às vezes. É que ele fica lá na beira do campinho, olhando e quando a bola vai pros lados dele não tem jeito. Sai todo mundo atrás. Quer dizer, todo mundo menos os goleiros e eu, né? Eu sou o Romário. Meu lugar é na área, mesmo que o nosso campinho não tenha área, nem grama, na verdade. Aliás, é difícil dizer quando a bola sai ou não.

Mas como eu ia dizendo, o Múcio não tinha falado nada ainda. Todo mundo olhou pra ele. Uns já meio bravos, pois só faltava ele se identificar pra gente começar a jogar. Eu vi que ele tava ficando nervoso, suando frio, não ia dizer e perguntei: “Como é, Múcio? Diz logo quem você quer ser!” Ele, todo encabulado, disse bem baixinho: “Marzzzzzt…”. “Fala alto, pô!”, gritou alguém. Eu, do alto de minha “otoridade”, respondi: “Cala boca! Quem manda aqui sou eu!” E disse pra ele: “Fala alto, pô!” O Lero-lero também já tava perdendo a paciência: “Quem você quer ser, Múcio?” E o Múcio finalmente falou: “A Marta.”

Silêncio.

Mas como assim, a Marta?! “Que Marta, Múcio?” “Marta! Marta! A jogadora Marta! Da seleção feminina. Eu quero ser a Marta e pronto!”

Impasse. Eu, mesmo sendo a maior “otoridade” presente não sabia o que fazer nessa situação. A gente começava a pelada ou não? Se o Múcio queria ser a Marta, a gente tinha que decidir se podiam jogar juntos meninos e meninas. Porque daí poderiam vir a minha irmã chata pra chuchu e exigir: “Se a Marta pode, eu também posso!” Já pensou como iam ficar nossos joguinhos. Já ia pedir ajuda ao Lero-lero, quando ele falou: “Eu sou a Roseli!” E lá de trás teve um zagueiro que gritou: “E eu sou a Tânia!” E cada um que dissesse um nome de jogadora diferente. Pela primeira vez, eu ia jogar com a Mya Ham, a Cristiane, a Yasmin… Até o Brasilgás escolheu uma: “Eu sou a Milene!” Mas aí todo mundo protestou: “A Milene não, Brasilgás!” “Ela nem pega no gol!” Ele encolheu os ombros e decretou: “É a ex-senhora fenômeno. Alguma coisa ela deve ter aprendido.”

“Pronto, já podemos começar.”, eu disse e já ia rolar a bola. “Ainda não. Tá faltando você.” “Faltando o que?” “Quem você quer ser?” “Eu já falei. Eu sou o Romário!” “Não. Fala a verdade pra gente. Quem VOCÊ QUER ser?” “Tá bom. Eu sou a Pretinha.” E então a pelada finalmente começou. Foi a melhor pelada que já jogamos. Todo mundo estava muito solto. Foi legal. O Múcio não tem jogado mais bola com a gente. Resolveu praticar um esporte na escola. Entrou pro balé, parece. Nem sei se ele ainda quer ser a Marta. Mas eu já decidi. Não quero ser mais a Pretinha, nem o Romário. Quero ser astronauta ou bombeiro. Um dos dois. 

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