Cus de Judas – Trechos

Esta semana concluí a leitura de um excelente romance, “Os cus de Judas”  do português Antonio Lobo Antunes, um excelente relato sobre a guerra de independência de Angola. Fiquei encantado com o livro, a sensibilidade do autor, e o estilo com que usa a linguagem figurada. Pude desfrutar desta leitura graças ao amigo Paulo Araújo, alma boa e generosa que passou um período de trabalho por plagas africanas e me presenteou com a publicação.

A obra é repleta de trechos primorosos e, grifador compulsivo que sou, separei alguns para postar aqui no blogue e, quem sabe, aguçar a curiosidade de um que outro leitor.

Fiquem agora com os trechos que extraí:

“Quem me enfiou sem aviso nesse cu de judas de pó vermelho e areia, a jogar as damas com um capitão idoso, quem me decifra o absurdo disto, as cartas que recebo e falam de um mundo que a lonjura tornou estranjeiro e irreal, os calendários que risco de cruzes a contar os dias que me separam do regresso e apenas achando à minha frente um túnel infindável de meses onde me precipito mugindo…”

“Configurava-se um cenário triste como a chuva num recreio de colégio.”

“Jantaram na messe ao lado do comandante reluzente de orgulho, cuja timidez se embrulhava nos sorrisos de um adolescente em falta.”

“Os batuques dos luchazes eram concertos de corações pânicos, taquicárdicos, retidos pelas trevas de galoparem sem controlo na direção da própria angústia.”

“Transformar a minha vida numa sucessão sem nexo de cambalhotas desastrosas. Planos grandiloquentes em que Freud, Goeth e São Francisco convergiam e se combinavam, começaram a grelar-me na cabeça arrependida, milagres de algibeira para Lavosiers mongolóides… Jurava eu a mim mesmo num fervor de peregrino de Compostela, afadigar-me-ia a construir, a partir do meu nada confuso, a digna estátua de bronze do marido e do filho ideais, …”

“Descobri-me personagem de Becket aguardando a granada de morteiro de um Godot redentor.”

“A minha filha acaba de nascer. Acaba de nascer e a essa hora as senhoas do Movimento Nacional Feminino devem estar pensando em nós sob os capacetes marcianos dos secadores dos cabeleireiros, os patriotas da União Nacional pensam em nós comprando roupa interior preta, transparente, para as secretárias, a mocidade portuguesa pensa em nós preparando carinhosamente heróis que nos substituam, os homens de negócios pensam em nós, fabricando material de guerra a preço módico, o Governo pensa em nós atribuindo pensões de misérias às mulheres dos soldados, e nós, mal agradecidos, alvos de tanto amor, saímos do arame em que apodrecemos para morrer por perversidade de mina ou emboscada, ou deixamos negligentemente filhos sem pais a quem ensima a apontar com o dedo o nosso retrato ao lado da televisão, em salas de estar onde tão pouco estivemos.”

“Um sol alegre como o riso de um polícia toca xilofone nas persianas.”

“Há onze meses que só vejo morte e angústia e sofrimento e coragem e medo, há onze me masturbo todas as noites, há onze meses que não sei o que é um corpo ao pé do meu corpo,  e o sossego de poder dormir sem ansiedade, tenho uma filha que não conheço, uma mulher que é grito de amor sufocando em um aerograma, amigos cujas feições começo inevitavelmente a esquecer, uma casa mobiliada sem dinheiro que não visitei nunca, tenho vinte e tal anos, estou a meio da minha vida e tudo me parece suspenso à minha volta como as criaturas de gestos congelados que posavam para os retratos antigos.”

“O meu pai costumava contar que o Rei Felipe exclamara certa vez para o arquiteto do Escurial: “Façamos qualquer coisa que o mundo diga de nós que somos loucos.” Pois bem, nesse caso a ordem recebida pelo gorducho de capacete: “Façamos qualquer coisa que o mundo diga de nós que somos mongolóides”.”

“Os generais no ar-condicionado de Luanda inventavam a guerra de que nós morríamos e eles viviam.”

“Um labirinto de angústia que o uísque ilumina de viés da sua claridade turva, segurando os copos vazios na mão como os peregrinos de Fátima as suas velas apagadas.”

“Viu por acaso como nos assustamos Se alguém, genuinamente, sem segundos pensamentos, se nos entrega, como não suportamos um afeto sincero, incondicional, sem exigências de troca? A esses, os Camilos Torres, os Guevaras, os Allendes, apressamo-nos a matá-los porque o seu combativo amor nos incomoda, procuranmo-los, de bazuca ao ombro, raivosos, nas florestas da Bolívia, bombardeamos-lhes os palácios, colocamos no seu lugar sujeitos cruéis e viscosos, mais parecidos conosco.”

“Ah, as refeições frente a frente, em silêncio, cheias de um rancor que se palpa no ar como a água de colônia das viúvas.”

“Estou mudado. Afasto-me dos retratos do ano passado como um barco do cais.”

Tags:

Uma resposta to “Cus de Judas – Trechos”

  1. João da Mata Costa Says:

    Caro Fialho,

    Grande livro. Parabéns por divulgar os Cus…
    Li esse elel livro ha muito tempo com muito gosto.
    Em minha opinião é o melhor livro do Lobo Antunes

    abraços,

    damata

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: