Coluna da Digi # 8 – Romances Gráficos

No dia 08 de outubro de 2007 publiquei minha 8ª coluna na Diginet. Era um texto falando de histórias em quadrinhos e de o quanto essa modalidade de leitura (chamada pelos aficcionados de 9ª arte) vem ganhando em importância nos últimos anos. Pode ser que alguns dados do texto estejam desatualizados, uma vez que ele foi escrito há mais de 2 anos, porém, vale como registro.

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Romances gráficos – A vingança dos nerds.

Sou de uma geração que aprendeu a ler com os quadrinhos. Não que sejamos todos uma turma de superdotados, autodidatas das letras que aprendemos sozinhos o bê-a-bá. A ler mesmo (e escrever) aprendemos na escola. Quando digo que aprendemos com os quadrinhos, me refiro ao ato de ler por prazer, de pegar uma história e não largar mais até que encontremos o lamentável nomezinho FIM no canto da página. Essa relação com a leitura nos veio primeiro com as HQs e, naquela altura da vida, nenhum Machado de Assis seria capaz de nos provocar tamanho impacto, envolvimento, sedução.

Gostávamos mesmo de ler os belos quadradinhos, coloridos ou não, que comprávamos avidamente nas bancas da cidade ou nos sebos do Alecrim. Acreditávamos que nossa realidade estava mais próxima de um homem com poderes de aranha ou de um pato que se vestia de marinheiro do que de qualquer Simão Bacamarte ou Brás Cubas que nos aborreceriam com suas loucuras e obsessões se nos fossem apresentados antes do tempo.

Eu e os meus contemporâneos temos uma visão das histórias em quadrinhos mais evoluída do que os nossos pais. Para eles (os pais) aquelas revistinhas não passam disso: revistinhas. São, portanto, coisas de criança. Já nós, temos pelos quadrinhos o respeito que os eleva à categoria de literatura séria, uma arte digna de ser apreciada também na maturidade. É uma visão mais próxima da americana do que da brasileira tradicional. Nos Estados Unidos, para se ter uma idéia de o quanto eles são valorizados por lá, as HQs são chamadas de romances gráficos, definindo claramente já na nomenclatura que quadrinhos por lá é coisa de gente grande também.

Na França, todas as livrarias têm espaços enormes para as revistas, pois para os franceses, as HQs são uma vertente respeitadíssima da literatura. Nessas seções pode-se encontrar os gauleses Asterix e Obelix, o belga Tintin, os mangas japoneses, adaptações do cinema para os quadrinhos, os tradicionais Garfield e Snoopy, os imortais Alan Moore e Frank Miller, além de uma infinidade de histórias de todos os tipos, para todas as idades, inclusive clássicos da literatura como “O Médico e o monstro” ou “A metamorfose” desenhadas em edições de luxo.

Em julho passado, em São Paulo, houve um evento que acena para uma mudança de mentalidade dos brasileiros ou para um claro sinal de vitória cultural de nossa geração. O Fest Comix reuniu milhares de pessoas no Colégio São Luís, na avenida Paulista. Eram mais de 290 mil títulos em oferta de todas as editoras, de todos os tipos, nacionais e importados. Durante os 3 dias, palestras e debates sobre o tema ocorriam em auditórios lotados de adultos. Marmanjos de várias idades desfilavam com camisas temáticas que traziam emblemas de super-heróis ou personagens como o Cebolinha ou o Tio Patinhas. Fui conhecer o evento na companhia do jornalista potiguar Roberto Sadovsky, o maior fanático por HQs que conheço, que por sua vez trajava uma camisa do Quarteto Fantástico.

Mal adentramos no local e Sadovsky fez uma compra de uma coleção inteira dos X-Men. “Essa coleção é raridade.”, falou para justificar as centenas de Reais que desembolsara pelas revistas. “Minha mãe ficava louca com a quantidade de revistas que eu tinha em casa, mas eu nunca me desfiz delas. Quando mudei de Natal pra São Paulo foi o que deu mais trabalho de trazer, mas está tudo aqui comigo.”

Sadovsky, ou Boinha como é conhecido pelos amigos natalenses, é há mais de 10 anos Editor-chefe da Revista Set, uma das mais respeitadas publicações de cinema do mundo inteiro. Ele disse que só chegou aonde chegou graças às HQs que consome com avidez de um fanático desde a infância. “Uma vez eu disse: tá vendo, mãe? Se não fossem os quadrinhos, não teria acontecido nada disso.” Boinha também comemora o fato de as principais produções recentes do cinema mundial serem adaptações de romances gráficos. Cinema e HQs juntos são com certeza a melhor mistura sobre a qual ele gosta de escrever.

Como eu não sou bobo nem nada, também aproveitei os preços mais em conta para fazer algumas compras, itens essenciais em qualquer cesta básica (Aliás, era exatamente isso que recebíamos à entrada: uma cesta para fazer compras.) de um amante de HQs. Comprei Homem-aranha e Elektra de Frank Miller, toda a série Watchmen de Alan Moore, o clássico Crise nas infinitas Terras e uma outra que não me lembro qual foi, mas que Boinha disse: “Compre isso. Não me pergunte nada. Confie em mim!” Achei melhor não duvidar.

Recentemente na Bienal de Natal, foi dado um espaço para os quadrinhos, inclusive com uma oficina de produção. Iniciativas como essas devem ocorrer cada vez mais em eventos literários. Na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), ocorrida semana passada, falava-se que na edição de 2008, os romances gráficos terão seu espaço. Nas livrarias de Natal já é possível encontrar grandes obras da literatura convencional como “O Chalaça” e até “O Alienista” de Machado de Assis, aquele que só pudemos ler com propriedade e plena compreensão após termos passado pelo necessário estágio da literatura em quadrinhos. Ou seja, se até Machado aderiu, é porque os quadrinhos venceram a batalha, superaram barreiras, derrubaram preconceitos.

E todos nós, nerds, nascidos nos anos 70 e 80, estamos deliciosamente vingados. Longa vida aos romances gráficos porque imagem também pode ser literatura. 

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