Carlão de Souza e o prazer de ler

Jovens, navegando outro dia pelo Substantivo Plural do Tácito Costa, cliquei na coluna de Carlos de Souza, conhecido pelos amigos como Carlão. Lendo algumas de suas postagens me deparei com um belíssimo texto sobre o prazer e, sobretudo, a importância da leitura. Fiquei tão encantado que pedi permissão a Tácito e ao próprio Carlão para reproduzi-lo na íntegra aqui nO Fiasco, citando obviamente a fonte e dando-lhes todo o crédito. Permissão concedida, divido o texto com vocês.

***

Por Carlos de Souza

20 de outubro de 2009

Depois que li o texto de Vargas LLosa, enviado por Tácito, sobre a importância do romance, fiquei pensando. Outro dia fui convidado a sentar numa mesa de jovens recém-contratados por uma grande empresa. Eles festejavam a vitória recente e queriam que eu compartilhasse com eles. Ocorre que, passados mais ou menos uns trinta minutos, eles continuavam falando no ambiente de trabalho e apenas nisso. Deixei o tempo passar e esperei que o assunto descambasse para algum filme recentemente assistido, algum romance recentemente lido, alguma obra de arte recentemente apreciada. Mas nada. Ficaram ali se deliciando com os acontecimentos do cotidiano corporativo como se extraíssem daquilo um grande prazer. Pedi licença e fui para outra mesa.

Depois disso tenho notado que somente nas mesas em que convivem pessoas que gostam de ler é possível se estabelecer uma boa conversa com rico repertório. Fora disso, é uma aridez acabrunhante. Pessoas que não lêem são incapazes de sustentar uma boa conversa. Quando chegam às raias do desespero, lançam mão de uma enxurrada de piadas que mais constrangem que diverte quem é obrigado a ouvir e polidamente sorrir. Vargas LLosa tem razão ao dizer que o mundo sem o romance cai direto na barbárie. Não tenho a menor dúvida disso.

Arrisco até a dizer que quem fica viciado em leitura dificilmente a substitui por alguma droga fuleira como a cocaína ou o crack. Acho que os problemas das drogas poderiam ser resolvidos com um simples livro. Quem lê muito não abre mão deste prazer por paraísos artificiais por muito tempo. Ler é sempre melhor. O melhor ópio que existe. Melhor que religião. Melhor que álcool. Um pouco menos que sexo. Um pouco menos que música.

No dia em que fui convidado para falar de literatura no programa Grandes Temas, da TV Universitária, eu disse que escrever era inútil, mas ler não. Meus parceiros arregalaram os olhos e disseram, mas como? Eu queria dizer que não é necessário escrever mais nada. Basta ler os clássicos. Mas era só uma provocação.  Claro que uma estória sempre pode ser recontada de outra maneira, ad infinitum. Não, o romance não morreu. A cada dia descubro novos e novos autores que justificam o fato de eu continuar vivendo e gostando muito dessa loucura toda.

Então, já que gosto tanto de ler, eu mesmo me arrisco a escrever livros irrelevantes que ninguém quer ler. Mas continuo fazendo deste ofício o motivo de minha existência. Porque escrever é como amar e “ninguém pode viver sem amar”, como diz aquele mexicano no filme À Sombra do Vulcão, de John Huston, baseado no livro de Malcom Lowry. Livro que foi reescrito até a exaustão, porque Lowry não suportava a idéia de estar plagiando alguém. Como se fosse possível ser original depois dos gregos.

Li na coluna de Ailton Medeiros o texto de uma pessoa que não encontrava mais prazer em ler. Fiquei triste por ela. Queria que essa pessoa redescobrisse o prazer de ler alguns clássicos da literatura, Cervantes, Kafka, Dostoievski… Shakespeare. Talvez assim ela redescobrisse o caminho dos novos autores que estão fazendo releituras magníficas destes mesmos clássicos. Moacy Scliar recontando a estória de Tamar ou Saramago recontando a estória de Caim. Essa pessoa pode até mesmo ler a Bíblia, não para procurar conforto espiritual, mas para buscar textos literário de altíssima qualidade como esses citados acima.

Para finalizar, gostaria de recomendar o filme O Leitor, de Stepehn Daldry. A cena em que ela pede ao menino, “leia Guerra e Paz, kid” é a síntese de tudo que eu queria dizer aqui.

Ler é a grande aventura da humanidade.

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2 Respostas to “Carlão de Souza e o prazer de ler”

  1. Ellen R. Says:

    Show de bola esse texto do Carlão, que é um grande incentivador da leitura, vive me presenteando com livros.
    Abçs

  2. Gabriel Galvão Says:

    Excelente texto.

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