Archive for dezembro \29\+00:00 2009

Big Broder Natal 2010. Os últimos candidatos.

dezembro 29, 2009

Parei com internet uns dias para escrever. E-mails, só essencial. O blogue, o orkut e o twitter, tudo abandonado. E o fim do ano chegou e tive que viajar, passei uns 10 dias longe de internet, computador, realidade virtual. Agora, voltei. E tendo que correr atrás. Daqui a uns dias, começa o Big Brother da Globo e eu preciso estar com o meu Big Bróder Natal todo acertadinho. Faltam eleger ainda 6 dos 12 participantes. Então, vamos fazer as escolhas em massa. Todas de uma vez. Só vale votar em um candidato por cada alternativa tríplice, hein?

Mas aproveito a oportunidade para explicar aos que chegaram agora o que é o BBN 2010. Seguinte, resolvi fazer uma série de 12 crônicas interativas utilizando como personagens as 12 celebridades natalenses mais populares entre os que acessam o meu blogue. A disputa começa em janeiro na Diginet (www.diginet.com.br) e, a cada semana, os leitores da Digi vão eliminar um dos participantes. No final, teremos o grande vencedor.

Peço aos que forem votar nos comentários desta postagem que escolham conscientemente os candidatos que possam render o maior número de situações divertidas nos textos que virão.

Vamos lá, moçada. As escolhas se encerram até o próximo dia 10 de janeiro. Aliás, alguém sabe me informar quando começa o BBB da Globo?

 

BIG BROTHER NATAL – VOTAÇÃO de 7 a 12 de 12:

7

O modelo Fábio Lima x Os meninos do Batendo perna x Solón Silvestre

8

Diogo Guanabara  x Clênio do Uskaravelho x Diogo das Virgens

9

Kristhal x Lane Cardoso x As meninas do Tricor

10

Frederico Alecrim x Monsenhor Lucas x Professor Kokinho

11

Fernanda Tavares x Michele Rincón x A Miss Brasil

12

Micarla de Sousa x Fátima Bezerra x Virna

Coluna da Digi # 18 – Resoluções para 2008

dezembro 26, 2009

Na coluna da Digi número 17 (“O futuro vai ser bom”), atualizada no dia 24 de dezembro de 2007, véspera de Natal, quando nossos sentimentos mais nobres em direção ao próximo afloram, falei sobre o que eu poderia fazer no ano seguinte para melhorar a vida de pessoas mais necessitadas. Em tom reflexivo, abordei o tema do sofrimento e da miséria que atingem a muitos semelhantes que nos cercam.

Para quebrar um pouco o clima triste que imperou nesta crônica, no dia 31 de dezembro de 2007, publiquei na Digi o texto “Resoluções para 2008” com algumas gracinhas inofensivas com o único intuito de descontrair um pouco. Teve gente que gostou e houve também que não entendesse a piada, exigindo que eu abordasse temas mais sérios ou críticos na coluna. Normal, como dizia o Chacrinha e repete o Caio Vitoriano: “Eu vim para confundir”.

***

Resoluções para 2008

Como diria Arthur Dapieve, do passado de onde escrevo ainda é 2007. Eu ainda não estourei champanhe, não pulei 7 ondas nem bebi as 12 latinhas de cerveja que pretendo entornar logo mais. Ainda não reuni os amigos para comemorar a passagem de ano e promover a primeira grande farra de 2008. Também não fiz minha piada habitual, quando às 00h01, chego para alguma amiga ou amigo desavisado e digo num misto de melancolia e ironia, temperados com um cinismo calculado: “Esse ano está passando voando, né não? Lá se foram os primeiros 60 segundos. Que coisa!”

Porém, mesmo aqui do passado, algumas coisas eu já fiz para 2008. As resoluções. Aquelas promessas todas que a gente faz só pra poder quebrar depois. Todo mundo tem uma listinha dessas. Voltar a falar com um amigo, começar aquele curso de espanhol, aprender a surfar ou convidar uma gatation especial para jantar. Pois bem, decidi, aqui de público, revelar a minha lista de resoluções de ano novo. Uma lista singela e cercada de expectativas. Coisas que pretendo ou não fazer, metas a cumprir ou vícios a largar. Espero que eu consiga levar adiante tudo que almejo para este ano que se inicia no futuro onde você já se encontra lendo este texto.

– Em 2008 eu NÃO vou parar de fumar!

– Também não pretendo COMEÇAR a fumar.

– Coletarei assinaturas para a construção de um disco-porto em Ponta Negra, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento do turismo interestelar, atraindo um maior número de visitantes extraterrestres e ajudando a recuperar o título de capital espacial do Brasil para Natal. É flagrante na cidade a falta de uma pista de pouso para naves espaciais. E o que mais irrita é o descaso das autoridades para uma questão de tão grande importância para a nossa cidade!

– Vou comprar CDs só porque todo mundo está parando.

– Não pretendo andar no teto para não deixar pegadas.

– Vou pedalar 4 vezes por semana, entrar em forma e tentar (pelo menos, tentar) ir a Pipa de bicicleta.

– Covarde é quem não tenta.

– Pede pra sair 02!

– Vou organizar uma expedição à Bulgária para tirar a limpo de uma vez por todas se aquele país existe ou não. Estão abertas as inscrições.

– Vou fundar um fã-clube de Bruce Lee, o grande e incansável guerreiro oriental.

– Em 2008 vou comer mais pirão. E também cavaco chinês.

– Provarei cientificamente a importância dos clipes de papel como objetos redentores da humanidade.

– Largarei a vida de escritor e correrei atrás do meu sonho de me tornar técnico em contabilidade.

– O Japão caça baleias. Eu protestarei!

– Vou lançar um livro reunindo algumas das melhores crônicas publicadas na Digi.

– Em 2008, não vou pular o Carnatal.

– Irei a um zoológico e sairei correndo e gritando: “Fujam todos! Eles estão soltos!”

– Vou aprender alguma coisa muito inútil só pra poder dizer pras pessoas: “eu sei fazer isso e você não.”

– O jardineiro é Jesus e as árvores somos nozes.

– Vou ler a lista telefônica de Teresina.

– Farei análise para descobrir a origem e tentar resolver um estranho medo que sinto de grampeadores.

– Vou fugir com um circo.

– Devolverei o circo aos verdadeiros donos, caso venham reclamar a propriedade.

– Em 2008, não comerei picles.

– O mesmo não posso dizer das alcachofras, beterrabas e lentilhas.

– Vou assistir “Cidadão Kane”, “Casablanca”, “Garganta Profunda” e “Brasileirinhas 2”.

– Não vou andar de dromedário em Genipabu.

– Começarei um regime a base de cevada e espetinhos de picanha. É tiro e queda!

– Não vou aprender a tocar violão, nem lutar jiu-jitsu, nem praticar hipnose de tijolos.

– Vou escrever um best-seller. Será a história de um homem que vai a Pipa, toma um trago e começa a dar em cima de todas as mulheres solteiras. Vai se chamar: “O caçador de Pipa”.

– Também vou escrever “A surfistinha de Cabul”. Pode ser que venda alguma coisa.

– Irei a um show de rock, beberei feito um condenado, ficarei de ressaca e direi: “Nunca mais eu bebo ontem!”

– Mais banho de mar, mais dias de sol.

– Passarei um mês sem usar celular.

– Em 2008, tentarei manter essa coluna atualizada.

– Em 2008, quero ter você como leitor.

– Se eu conseguir, já terá valido a pena.

– Feliz ano novo!

O Homem Lento – Trechos

dezembro 23, 2009

Concluí a leitura de “O Homem Lento” do sul-africano J. M. Coetzee. Tinha curiosidade ler o autor, uma vez que é detentor de um prêmio Nobel de Literatura. O livro é bom, mas confesso que esperava mais de um autor premiado com o Nobel. Pretendo ler outras obras dele mais pra frente. Por hora, fiquem com alguns trechos que grifei do romance.

***

“Claro que ele não é um caso especial. Tem gente perdendo membros ou o uso dos membros todos os dias. A história está cheia de marinheiros de um braço só e de inventores em cadeiras de rodas; de poetas cegos e  reis malucos também. Mas no caso dele, o corte parece ter distinguido o passado do futuro com uma clareza de tal forma incomum que dá um novo sentido à palavra novo.”

“Mas o momento passa e eles não aproveitam, coisa que, depois, olhando em retrospecto, ele agradece. Não quer se tornar objeto da caridade sexual de mulher nenhuma, por mais bem intencionada.”

“Ele não tem certeza se jamais gostou de paixão ou aprovou isso. Paixão: um território estrangeiro; uma aflição cômica, mas inevitável, como caxumba, que se espera sofrer ainda jovem em uma de suas variedades mais brandas, menos devastadoras, para não pegar com maior seriedade depois.”

“Estou pouco me importando se você me contou histórias inventadas. Nossas mentiras revelam tanto de nós quanto nossas verdades.”

“Cresça! Viva como herói! É isso que os clássicos nos ensinam. Ser um personagem principal. Senão, para que vale a vida?”

“Eu sou um rebotalho, metal inferior. Não sou redimível. Não tenho nenhuma utilidade para você, para ninguém. Não tenho valor. Pálido demais, frio demais, medroso demais. O que levou você a me escolher? O que lhe deu a ideia de que poderia fazer alguma coisa comigo? Por que ficar comigo?”

Coluna da Digi # 16 – A Fábula das duas cantoras

dezembro 23, 2009

Este foi um dos meus textos mais polêmicos que, de tão popular e viral, acabou impresso no “Mano Celo – O Rapper Natalense” (Crônicas, Jovens Escribas, 2009). Publicado em 17 de dezembro de 2007, bateu recordes de acessos na Digi e só foi superada em comentários pela já clássica “O Homem que não falava Carnatalês”.

Recordar é viver. Podem rir à vontade.

***

A Fábula das duas cantoras

Eu queria escrever um conto de fadas em que houvesse uma personagem como a Ciderela e outra como uma de suas irmãs invejosas. Ou então, como a Branca de Neve e a rainha má. Bem, eu não sei se consigo, mas depois do texto abaixo, vocês não podem dizer que eu tentei.

Era uma vez um reino distante de tudo, dos grandes centros, da realidade e principalmente do senso do ridículo. Neste reino encantado, cujas normas de conduta e tendências eram ditadas por uma elite econômica decadente, a cultura não foi desenvolvida lá. Com preguiça de pensar e criar uma identidade cultural própria, os abastados e posudos oligarcas locais mandaram comprar uma cultura prontinha. Aliás, montou com peças de segunda vindas da Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Nova Iorque, Recife, completando com uma banda caribenha de João pessoa. Misturaram bem com a mediocridade e mentalidade pequena da corte local, buscaram apoio oficial junto aos monarcas e estava pronta a gororoba para ser enfiada goela abaixo dos impassíveis súditos.

Neste reino que fica na esquina de um continente bem pra lá de Deus me livre, o caldo cultural, a geléia geral, o cosmopolitismo provinciano e influências globais brejeiras faziam surgir muitas coisas interessantes. Bandas, cantores, artistas plásticos, escritores e diversos outros surgiam o tempo todo, mas só alguns poucos ganhavam o destaque esperado. Na cidade, se plantando, tudo dava, mas quase nada prosperava.

De lá, em meio a esta situação singular, surgiram duas cantoras. Uma muito bela, com uma linda voz, bom gosto musical, simpatia, grande presença de palco e um sorriso arrebatador. A outra, também bela e de boa voz, conservava em si a influência nefasta da elite perversa onde se criou, subia aos palcos exibindo toda futilidade que lhe era peculiar, vestia um figurino mais chamativo que roupa de ciclista e se movia no palco com a graça e elegância de um cruzamento entre uma lacraia e um boneco do posto.

A primeira se chamava Renata Bá, a outra, Marisa Ali Babá. Ambas conseguiram desmentir a lógica da cidade que nada faz prosperar e obtiveram destaque na música. Renata, pelo talento, boas parcerias, escolhas acertadas e pelo encantamento que causa nas pessoas em seus shows. Ela tem um magnetismo natural e chamou atenção não só no reino, mas também em todo o continente pra lá de Deus me livre. Já Marisa, teve os louros comprados pelo seu pai, o sultão Hemir Ali Babá, que não poupava esforços (nem dinheiro) em fazer da filha uma celebridade.

Renata apresentava um repertório que contagia toda a platéia, faz com que todos queiram mexer as cadeiras pra lá, pra cá, cantavam junto e saiam das apresentações com uma sensação de bem estar que só os grandes artistas têm o poder de provocar. Marisa preferia músicas que elevariam Reginaldo Rossi ao status de cult e sua interpretação de “Como uma deusa” era tão constrangedora que fez Hosana se revirar dentro do túmulo, nas alturas ou fosse lá onde ela estivesse. Renata cantava músicas de Marcelo Camelo, já Marisa queria subir no palco montada num camelo.

No camarim de Renata não deveria ter 600 toalhas brancas, nem outras excentricidades e idiossincrasias exigidas por artistas que se sentem donos do mundo. No camarim de Marisa também não devia ter 600 toalhas brancas, mas acredito que umas 400 com estampas indianas, umas 300 rosa e mais umas 100 verde-limão. Renata chega aos shows numa perua com sua banda, equipe e produção dos eventos. Marisa chega de limusine, cercada por 34 seguranças e com uma perua na frente gritando “NINGUÉM ENCOSTA! NINGUÉM ENCOSTA!” O detalhe é que geralmente nunca havia ninguém pra encostar. Renata colecionava um número cada vez maior de admiradores. Marisa tinha um fã clube cujos membros eram remunerados pelo folclórico sultão e fotos enormes com seu rosto espalhadas por todo o reino, também bancadas pelo poderoso Hemir.

Todos os dias Marisa Ali Babá olhava no seu espelho mágico e perguntava se existia alguma cantora melhor do que ela. O espelho respondia que sim, havia alguns milhões, mas que se ele tivesse que citar todas nominalmente, levaria quase uma eternidade e ele tinha mais o que fazer além de ficar dizendo obviedades que até um surdo de nascença já sabia (o espelho andava meio sem paciência diante da falta de noção da dona). Então Marisa perguntava qual era a melhor cantora nascida no reino. E ele respondia que era a Renata e tinha uma crise de riso tão grande que quase rachava o seu vidro mágico espelhado. O espelho era um tremendo fanfarrão. Disse à dona que, se ela quisesse ser mais popular que a rival, teria que cativar os 7 anões que viviam no bosque, pois eles traziam boa sorte. Como Marisa era meio tapada e não sabia bem a diferença entre anões e crianças, nem entre bosque e parque, resolveu fazer uma manhã de autógrafos de CDs no Parque das Crianças, tendo prestado grandes serviços na educação dos pequenos, pois desde esse dia, quando os filhos aprontam em casa ou na escola, os pais e professores dizem: “É melhor você se comportar, senão vai ficar de castigo ouvindo o CD da tia Marisa Ali Babá!” E fazia-se paz.

No fim da fábula, eu teria que escrever um final feliz para a Renata Bá e um destino trágico para a Ali Babá, mas sinto que é melhor eu não levar em frente essa história. O que eu sempre admirei nas fábulas era o componente crível, verossímil. Mesmo que estivéssemos falando de bruxas, lobos falantes ou bonecos de pau mentirosos, havia sempre uma pertinência que fazia com que aquelas histórias não soassem tão absurdas. Chegavam mesmo a ser próximas da realidade. Essa que eu inventei está muito distante de ser real. E essa personagem que inventei, a Marisa Ali Babá, é surrealmente ridícula. Bem, eu tentei e vocês estão de prova. Agora deixem eu grafar a última palavra: FIM. 

Coluna da Digi # 15 – O Matanza

dezembro 23, 2009

Esta crônica sobre a banda carioca “Matanza” foi publicada no dia 10 de dezembro de 2007 na Diginet.

***

Este blogueiro com amigos num show da banda no Centro Cultural Dosol

Em 2001 eu morava no Rio de Janeiro e criei o hábito de ler todas as sextas-feiras o Rio Fanzine, suplemento sobre cultura alternativa do jornal O Globo, que trazia sempre novidades sobre música, bandas novas, quadrinhos, arte-marginal e filmes B. Foi lá que tomei conhecimento, por exemplo, de uma mostra de animação que ocorreu em Botafogo, onde adquiri em VHS os raríssimos desenhos baseados no filme “O Balconista”, nunca lançados no Brasil.

 

“Primeiro dia fora da cadeia estadual

É ela que eu encontro bem na porta a me esperar

Num conversível com motor ligado que acabara de roubar.”

 

Um dia, lendo o Rio Fanzine, me deparei com o seguinte título: “Xerife, o Matanza está na cidade!” Redator publicitário que sou, sempre atento a bons títulos, prossegui a leitura, pois se um xerife precisava ser alertado, o que dirá eu, que gostei da banda já a partir do nome. O sub-título dizia: “Banda fora-da-lei lança explosivo disco unindo country e hardcore”. O texto falava das músicas do disco, das temáticas etílicas e bem-humoradas, das letras machistas ambientadas no velho oeste americano, em meio a assaltos a bancos, tiroteios e vampiros ao melhor estilo “Um drink no inferno”.

 

“O último bar, quando fecha de manhã,

só me lembra que eu não tenho aonde ir.

Bourbon, tenho demais, mas que diferença faz

se você não está aqui pra dividir?”

 

Para um órfão da recém falecida “Raimundos” era um alento e tanto. Uma banda que misturava hardcore com outros ritmos e que tinha no humor um dos seus mais sólidos alicerces soava deliciosamente familiar. Semanas depois, soube de um show que o grupo faria no Ballroom, casa que abrigava bandas independentes cariocas e de outras plagas no início destes anos 2000. O Ballroom era um dos lugares mais legais do Rio, ainda mais pra um natalense foragido como eu, saudoso do Blackout que deixara por essas bandas. O espaço no bairro do Humaitá guardava diversas semelhanças com o atual Galpão 29.

 

“Bom de noite é ir pra rua,

mesmo quando está chovendo.

Eu que nunca me arrependo,

tá errado, eu tô fazendo.”

 

Cerveja na mão, olhos no palco, abrem-se as cortinas. Surge um enorme viking ou, como dizem os humoristas do Rock&Gol, um gigante lenhador ruivo, bradando para o público: “A pior coisa que uma mulher pode roubar de um homem não é o seu dinheiro, não é a sua comida: é o seu caminhão!” Uma guitarra toca a melodiosa e agitada “Ela roubou meu caminhão”, as rodas de pogo tomam conta do lugar, a cerveja gelada sobe à cabeça e, de súbito, fui arrebatado pelo Matanza.

 

“Rápido, garçom, me traga o seu melhor uísque.

Esse seu amigo aqui só tem mais meia hora.

Até que o diabo descubra que eu morri

E venha me levar embora.”

 

Depois daquele primeiro CD (“Santa Madre Cassino”), vieram outros dois de músicas próprias (“Músicas para beber e brigar” e “A arte do insulto”) e um duplo que homenageia um dos ídolos da banda (“To hell with Johnny Cash!”). O hardcore tornou-se mais presente nas melodias e as letras cada vez mais incisivas, violentas e irreverentes. Arrisco dizer, com ironia, por favor, que as letras do Matanza são as mais belas poesias que se produz na música brasileira atualmente e a banda sabe como ninguém passar sinceridade na hora de falar em sentimentos sem cair no choro como é a moda entre os roqueiros desses novos tempos. E esse é mais um motivo para gostarmos do grupo: talvez o Matanza seja o último reduto macho do Rock brasileiro nesse novo milênio.

 

“Não me lembro de nada.

Não me conte o que eu fiz.

Acordei de ressaca,

Muito mais feliz.”

 

E cada vez que a banda vem a Natal ela ganha mais pontos no meu ranking de predileção. Os dois shows realizados nos Festivais Dosol de 2005 e 2007 foram antológicos, marcantes e históricos. Apresentações que valem por uma porrada, com direito a roda de pogo gigante, um viking no microfone e muitas camisetas pretas na platéia. Nessas ocasiões, gosto de repetir com um indisfarçável sorriso a manchete do Rio Fanzine lá no início do século: “Xerife, o Matanza está na cidade!”

 

Carlos Fialho é escritor e fã do Matanza.

Este texto foi escrito com a máxima parcialidade possível.

Coluna da Digi # 14 – O Homem que não falava Carnatalês

dezembro 16, 2009

As colunas da Digi de número 12 e 13, respectivamente “A mulher” e “O lado bom da morte” foram pertinentes naquele período, mas agora estariam por demais defasadas em seu conteúdo. Por isso, vamos pular para o dia 25 de novembro de 2007, data em que foi publicada a minha crônica recordista de comentários da Diginet até hoje, “O Homem que não falava Carnatalês”. Esta crônica, assim como a publicada anteriormente aqui neste blogue (“Parasitas Sociais”) acabou sendo selecionada para figurar no meu terceiro livro, “Mano Celo – O Rapper Natalense”, publicado em maio deste ano.

Divirtam-se com a lembrança.

***

O homem que não falava Carnatalês!

NÃO! Não vou pegar uma latinha e bater uma na outra! Não quero! Muito obrigado. Também não vou chupar toda e manivela pra mim é uma engrenagem e não uma dança. Gramaticalmente, eu vos digo: o que arria, arria. Não arreia! Piuí, piuí, piuí, tira a mão do meu ombro. Maria Joaquina de Amaral Pereira Góis não contribói com porcaria nenhuma! No máximo, ela contribuiria com alguma coisa, mas acredite, não é o caso.  

Vou me apresentar. Eu sou o deslocado, aquele que está no lugar errado e na hora errada, o corpo estranho, o último natalense que não vai passar pelo corredor da folia, nem assistir de cima a batalha num ostentoso e feliz camarote.

Não vou levantar poeira nem estar presente quando rolar a festa. Não quero presenciar o grandioso espetáculo de exibicionismo social e de conquista primitiva, quando os machos da espécie recuperam suas raízes tribais, utilizando-se inclusive de violência no ritual da corte, empreendido sobre fêmeas em período de cópula. Vou perder o fenômeno da sociedade conservadora e preconceituosa que se despe de seus valores arcaicos durante três dias, se desempacota e vive um breve e alegre período libertino para, na segunda-feira seguinte, se empacotar novamente e vestir sua máscara de hipocrisia e podre tradição.

Vou para o exílio! Serei refugiado de algum país remoto, onde não se fale esse idioma obrigatório. Uma nação que, pelo menos no próximo fim de semana, não seja colônia da Bahia, que não considere Salvador a capital de um reino. Tenho que fugir. Vou embora daqui! Fico ridículo de abadá. Saio e só volto quando a sociedade se empacotar novamente, quando essa cidade for um lugar mais ou menos seguro outra vez. Quero emergir no obscurantismo e só vir à tona quando pudermos respirar em paz sem ser sufocados por refrões opressores.

Sei do tamanho de minha renúncia. Entendo que abro mão de toda a devassidão de ocasião, da atmosfera libidinosa, do sexo, das drogas, da alegria inconsciente, inconseqüente e sem sentido que fizeram desse país o que ele é hoje! Por isso, se eu ficar, não me deixem cair em tentação. Que eu não ouça o canto da sereia das belas natalenses em flor, oferecendo-se ao som daqueles cânticos odiosos, verdadeiros mantras impregnados de vogais: “aê-aê-aê, eô-eô-eô”! NÃO! Se eu fraquejar me amarrem, mas não num cordão de isolamento. Internem-me, mas não na colônia pinel. Não quero ser um burro elétrico, correndo atrás do trio. Vou fugir dessa cidade. Comigo ninguém pode e eu odeio mamãe sacode!

Coluna da Digi # 11 – Parasitas Sociais

dezembro 15, 2009

Primeiramente, mil desculpas pela demora na atualização. Os motivos são muitos. Hoje republico neste blogue mais uma coluna da Digi. Mas não uma crônica qualquer, essa é bem especial. Foi uma das que mais repercutiu e deu início a uma feliz sequência de colunas líderes de audiência e acessos que foram publicadas entre novembro e dezembro de 2007. A que divido com vocês hoje se chama “Parasitas Sociais” e foi postada no dia 05 de novembro de 2007.

Relembrem e divirtam-se!

***

Parasitas sociais

Papai, quando eu crescer eu quero ser um colunista social, a profissão mais promissora de Natal. Terei respeito, dinheiro, projeção e tudo mais que um trabalhador bem sucedido almeja. Terei empresários, políticos e socialaites, sobretudo as socialaites, aos meus pés, à minha mercê, em minhas mãos. Papai, você vai sentir tanto orgulho do seu filhinho! Vai até esquecer aquela história de eu ter que fazer direito ou medicina ou engenharia. Vôts! Colunista social é o que há, painho. Não, não, nada disso. Também não precisa diploma de jornalismo não. O verdadeiro colunista social é autodidata. Aprende fazendo ou, no meu caso, observando o que os outros já fizeram. Eu já sei direitinho o que vou fazer. Terei uma carreira meteórica, você vai ver.

Para provar que não estou delirando e que não se trata de um sonho irresponsável de um jovem idealista, tenho dados comprobatórios de que o nicho de mercado para esta categoria profissional está em franca ascensão. Com o desenvolvimento econômico da cidade, muitos empresários têm prosperado, criando um grande contingente de novos ricos despreparados, mal educados, burros como uma porta, casados com esposas de hábitos fúteis e pais de filhos mimados. Essas famílias desprovidas de qualquer traço de caráter e personalidade farão de tudo para saírem em minha coluna.

Considerando que os empresários mais antigos e supostamente mais bem preparados e inteligentes também não são lá grandes coisas no que toca o intelecto e sempre precisarão de notinhas e fotinhas nas páginas dos noticiários que os mantenham em evidência, eles também acabarão se tornando meus clientes. Isso sem falar nos representantes do mundo jurídico. Promotores, juízes, advogados, todo mundo pagando para figurar com um belo sorriso, acompanhado de um elogio e de um dos termos inconfundíveis que eu mesmo vou inventar. Serei um colunista com estilo próprio. Vai ser tuuuuuudo!!!

E os dentistas e médicos, proprietários de clínicas da cidade? E os donos de construtoras? E de restaurantes? E de concessionárias de veículos? Todo mundo querendo sair na coluna do seu filhinho aqui. Afe! Que povo pra gostar de aparecer! Mas tem que gostar mesmo, pois se não aparecer na minha página no jornal, não existe, desaparece aos olhos da sociedade, vira um (argh!) fracasso total.

Eu próprio terei que cultivar uma imagem bastante exuberante de mim mesmo. Terei que virar um personagem, uma caricatura ambulante, cheia de trejeitos e idiossincrasias, um verdadeiro pavão quase humano. Serei afetadamente afeminado, mas sem nunca assumir uma suposta homossexualidade. Arrumarei até um casamento de fachada se preciso for. Ficarei bêbado em festas e armarei barracos memoráveis como parte de minha excentricidade de colunista. E ai de quem sair por aí sujando meu nome, queimando meu filme, denegrindo minha imagem! Tornar-se-á vítima de minhas estocadas venenosas, minha ironia fina, minhas canetadas ferinas demolidoras de reputações. Falar mal de mim, papai, na é uma opção.

Você deve estar se perguntando: “E isso dá dinheiro?” Não é isso que os pais querem saber sempre que os filhos escolhem uma profissão? O lance, papaizinho, é que pra aparecer dentro do meu espaço lindo maravilhoso no Diário do Norte de Hoje, tem que pagar! Comigo é assim: dinheiro na mão, calcinha no chão. E isso vale pro empresário falido que quer passar imagem de ricaço, pra mulher depressiva que deseja justificar sua existência desprezível escondendo-se sob um sorriso mais artificial que sua beleza comprada em clínicas de estética e cirurgia plástica da cidade, pro filho mimado que não pega ninguém que será promovido de semi-virgem a novo Don Juan graças a uma notinha minha. Tudo será cobrado, com direito a mimos adicionais e favores “espontâneos” a cada novo cliente conquistado, mulher adquirida ou pequenas doses de felicidade vazia proporcionadas.

E sabe do que mais, pai? Eu também poderei ser um grande promotor de festas. Serão festas anuais que reunirão a nata da sociedade natalense para celebrar a mediocridade reinante nesta terra de Poti. Cada convidado pagará R$ 200 para ter a honra de comparecer e ai de quem não quiser pagar, pois será condenado ao ostracismo e obscurantismo inevitável que assombra os discretos. Aliás, não há gente que odeie mais que os discretos! Ô raça! Mas voltando às festas, painho, sabe do melhor? Não gastarei um tostão com elas, pois terei patrocínio de construtoras, shopping-centers, universidades particulares, da prefeitura e até do governo do estado! É mole? A prefeitura e o governo me darão milhares de reais por uma festa para a qual eu cobrarei caro o acesso e ainda me deixará cheio de dinheiro. Só pra você sentir o peso da minha influência.

Pra não pegar muito mal, invento uma lorota de que a festa é beneficente, dou umas entrevistas falando de caridade, solidariedade e pronto. As pessoas da sociedade nem vão se importar em pagar pelas senhas da festa e vão até se sentir bem, pois nunca terão feito um gesto de bondade pra seu ninguém em suas egoístas e amorais biografias. Daí, poderei sempre me defender dizendo que todo o dinheiro arrecadado com minhas festas irão para a caridade, que as empresas que me patrocinaram são responsáveis socialmente e ninguém vai nem atentar ao fato de eu comprar um Land Rover na semana seguinte à festa, apesar de manter o condomínio do meu prédio atrasado pelo décimo mês consecutivo.

Bem, painho, é isso. Espero que você aprove e abençoe a minha escolha profissional. Serei um colunista dedicado e darei tudo de mim para ascender profissionalmente neste ninho de cobras. Não há cidade mais indicada para o colunismo do que Natal. Nossa classe média e alta sociedade são vazias e vaidosas o suficiente para me deixar ricos e até os governos vão ser patrocinadores do meu estilo de vida. E assim vou prosperando, subindo na vida, sugando da sociedade o que ela tem de pior, maquiando meticulosamente em minhas colunas diárias a falta de caráter de nossos ilustres, amenizando sua falta de carisma, inutilidade e idiotice. Você vai ter orgulho de mim, painho. Tenho certeza disso.

Macanudo é muito bacana mesmo.

dezembro 3, 2009

Em 2008, um amigo me mostrou o primeiro número do “Macanudo” os quadrinhos do Liniers, ilustrador argentino. Engraçadíssimos, flertando com o non-sense e com um toque de surrealismo que funciona como marca registrada, as tirinhas me provocaram ótima impressão e imediatamente quis saber onde encontrar mais.

Os personagens alternam entre o surreal e o cotidiano que nos faz rir. A criatividade em cunhar personagens como “a vaca cinéfila”, “o homem que traduz os nomes dos filmes” e “o robô sensível” cativam e divertem. Outros protagonistas que aprontam novas e surpreendentes estripulias a cada aparição, também estão entre os favoritos, como “os duendes”, “os pinguins” ou a “gente que anda por aí”.

O mais curioso de Liniers é que ele surgiu para o grande público argentino em 2002, em plena crise econômica que nossos vizinhos atravessavam. Foi naquele momento delicado, em que seus compatriotas não tinham lá muitos motivos para se alegrarem que o ilustrador passou a publicar no “La Nacion” sua tirinha “Macanudo” que, na gíria do país significa algo como “Bacana”.

No Brasil, as tirinhas do Macanudo já podem ser encontradas, publicadas pela editora Zarabatana. Recomendo.

Visitem também os endereços do ilustrador na internet:

http://www.porliniers.com/

http://macanudoliniers.blogspot.com/

E fiquem com algumas tirinhas como exemplo:

Coluna da Digi # 10 – Copa de 2014. A roubalheira vai começar.

dezembro 3, 2009

Em 29 de outubro de 2007, escrevi a primeira crônica sobre a Copa 2014. Falava da farra de dinheiro público que seria fácil de supor a partir da escolha do Brasil como sede. Hoje, mais de 2 anos depois, infelizmente ficou provado que eu estava correto. Como se vê, no futebol, nem tudo é uma caixinha de surpresas. Algumas vezes é uma caixinha registradora mesmo.

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Copa 2014. A roubalheira vai começar!

Bem, amigos da Diginet! Estamos aqui para curtir ao vivo todas as emoções da Copa do Mundo do Brasil! Uma competição inédita! Cheia de jogadas inesquecíveis protagonizadas pelos nossos cartolas, chapéus inenarráveis dados nos torcedores (e contribuintes) brasileiros e dribles espetaculares nas leis de responsabilidade fiscal e na probidade administrativa.

Afinal de contas, antes de ser o país do futebol e a pátria de chuteiras, somos a nação da roubalheira. Os torcedores gostam de ver e de jogar bola, mas os dirigentes querem mesmo é levar umas boladas e não poupam esforços em armar suas jogadas nos bastidores. O futebol é mais um retrato fiel do brasileiro. Uma contradição ambulante e uniformizada. Somos o país do “Pelé eterno”, mas também do “Pelé de terno”. O jogador que encantou o mundo com seus lances geniais é o mesmo homem que se envolve em negociatas escusas, dando, na vida, as pisadas na bola que não deu em campo.

Como explicar que uma entidade como a CBF, que cobra até US$ 1 milhão por um amistoso da seleção, fatura alto em direitos de transmissão, fechou um contrato milionário com uma empresa suíça e vende produtos em todo o mundo, feche o balanço todos os anos com enormes prejuízos? E como essas contas absurdas e hediondas são aprovadas por unanimidade por todos os presidentes de federações? Como é que o presidente da entidade, o senhor Ricardo Texeira, a despeito de todos esses sucessivos prejuízos, multiplicou seu patrimônio desde que assumiu o cargo?

E, vejam vocês, não é que o senhor presidente quer construir estádios em quase todas as cidades sedes da Copa? Ora, ora, ora. Construir estádios? Voltemos no tempo, amigos. Sei que o brasileiro médio não tem memória, mas este colunista aqui se lembra muito bem do longínquo ano de 2007 depois de Cristo. Naquele ano, foi realizado um evento esportivo muito importante no Brasil e construído um estádio de futebol. Essa praça de esportes construída no Rio de Janeiro e que acabou custando muito mais do que o previsto. Aliás, o evento todo, que deveria sair por cerca de R$ 300 milhões, acabou custando a você e a mim, nada menos que R$ 3 bilhões! Sério, ainda estou pagando as prestações. Você não?

Imaginem vocês como vai ser se construírem estádios em todas as capitais que recebam jogos? Como não vai ser a farra com o dinheiro público, senhores? Serão bilhões embolsados em todo território nacional, sob o pretexto de terem sido investidos em concreto e com a justificativa da arte. Por isso que todo mundo quer jogos em suas cidades. Tem até um garboso deputado conterrâneo que recebeu o mandato de presente do papai levantando essa bandeira em prol do RN. Bem, no caso dele pode ser tanto uma saída pela total falta de discurso ou vontade de ficar com uma fatia do bolo também.

Natal sede de Copa do Mundo? É pra rir ou é pra chorar? Se os dirigentes papa-jerimuns não conseguem organizar nem uma fila de jogo de série A (perguntem a qualquer um que foi ver América x Flamengo), eles vão se sair bem num jogo de Copa? Fala sério! Aliás, por falar em cartolas potiguares, alguém aí sabe dizer se a federação local já explicou as acusações de corrupção feitas pelo Ministério Público e divulgadas nacionalmente pela ESPN? E a renda do jogo entre Vasco x Baraúnas? Apareceu?  

Outro péssimo indício desta Copa de 2014 é a presença de políticos. Alguém aí consegue imaginar o José Serra ou o Aécio Neves numa arquibancada de estádio com interesse sincero em acompanhar seus times? Que paixão avassaladora foi essa que despertou nos corações de ambos pelo centenário esporte bretão? O Aécio a gente até sabe que gosta de umas peladas, mas ali é diferente. E o governador do Amazonas?! Teve a cara de pau de dizer que será bom para a preservação das florestas se Manaus for uma das sedes. Quase que eu saio correndo comprar um nariz de palhaço quando ouvi isso.

Ah, e tem o Paulo Coelho também. O bruxo, clone do Peter Gabriel, que foi ensinar a todos a mágica do desaparecimento das rendas. Aliás, será que foi isso? Pois desconfio que nossos cartolas já saibam essa mágica faz tempo.

Pois é isso, meus amigos! A confirmação de mais uma Copa do Mundo no Brasil foi feita. E com esse anúncio caiu por terra uma das máximas recentes do esporte: “Não tem mais bobo no futebol.” Na verdade, tem sim: o torcedor.

Laranja Mecânica – Trechos

dezembro 1, 2009

Semana passada expiei mais um pecado literário. Li o romance “Laranja Mecânica” do inglês Anthony Burgess e meu cérebro deu voltas em torno do seu eixo. Fui arrebatado não só pelo maravilhoso livro, mas também pela magistral tradução. Hoje devo escrever uma crônica abordando a obra, o autor, o tradutor (Professor Fábio Fernandes, Doutor pela USP) e a impressão que essa leitura me deixou. Já adianto que na lista dos 5 melhores livros lidos este ano, entra fácil, assim como “O Homem do Castelo Alto” de Philip K. Dick, coincidentemente publicado no Brasil pela mesma editora de “Laranja Mecânica”, Editora Aleph.

Por hoje, divido aqui alguns trechos do romance com vocês.

Aproveitem:

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“Irmãos, esse negócio de ficar roendo as unhas dos pés sobre qual é a causa da maldade é que me torna um rapaz risonho. Eles não procuram saber qual é a causa da bondade, então por que ir à outra loja? Se os plebeus são bons é porque eles gostam, e eu jamais iria interferir em seus prazeres, e o mesmo vale para a outra loja. E eu frequento a outra loja. E mais: a maldade vem de dentro, do eu, de mim ou de você totalmente sozinhos, e esse eu é criado pelo velho Deus, e é seu grande orgulho. Mas o “não-eu” não pode ter o mau, quer dizer, eles lá do governo e os juízes e as escolas não conseguem permitir o mau porque não conseguem permitir o eu. E não é a nossa história moderna, meus irmãos, a história de alguns bravos eus combatendo essas grandes máquinas? Estou falando sério sobre isso com vocês, irmãos. Mas eu faço o que faço porque gosto.”

“O dia era muito diferente da noite. A noite pertencia a mim e aos meus amigos e a todo o resto dos jovens, e os burgueses velhos espreitavam dentro de suas casas, bebendo das transmissões mundiais idiotas, mas o dia era dos velhos e sempre parecia ter mais policiais durante o dia também.”

“A questão é se uma técnica dessas pode realmente fazer um homem bom. A bondade vem de dentro. A bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem.”

“Você está passando agora para uma região que está além do alcance do poder da oração. Uma coisa terrível, terrível de se pensar. E mesmo assim, sob um certo ponto de vista, ao ser privado de fazer uma escolha ética, você, de certa forma, escolheu o bem. Eu gostaria de crer nisso.”

“É gozado como as cores do mundo real só parecem reais de verdade quando você as vê na tela.”

“ –Isso foi há dois anos. Já fui castigado desde então. Aprendi minha lição.

– Castigo? Gente da sua laia devia ser exterminada, assim como muitas pragas incômodas.”

“Você pecou, suponho, mas o seu castigo foi além de qualquer proporção. Eles transformaram você em alguma coisa que não é um ser humano. Você está comprometido com atos socialmente aceitáveis, uma maquininha capaz de fazer somente o bem. Música, sexo, literatura e arte, tudo agora dever ser fonte não de prazer, mas de dor.”

“Alguns de nós têm que lutar. Existem grandes tradições de liberdade a defender. Não sou homem de partidos políticos. Onde vejo a infâmia, busco erradicá-la. Os partidos políticos não significam nada. A tradição da liberdade significa tudo. As pessoas comuns deixarão isso passar. Elas venderão a liberdade por uma vida mais tranquila.”

Coluna da Digi # 9 – Troféus

dezembro 1, 2009

 No dia 15 de outubro de 2007, publiquei minha 9ª coluna na Diginet. Uma crônica simplezinha que falava do carinho que tenho pelos livros que leio.

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Troféus

Tenho uma relação muito especial com os livros para sair emprestando por aí. Quando compro um novo exemplar, entrego-me à leitura com voracidade. Cada livro é um novo desafio que o leitor e bibliófilo supera a cada página e, ao concluir a leitura, merecem ser expostos em local de destaque, como um troféu de competição esportiva ou um marlin azul pescado à unha, um leão abatido a tiros num safári por um fã de Hemmingway. Assim que eu leio um novo livro, ele ganha um lugar na estante e não gosto que saia de lá a não ser para reler ou consultar.

Dói no coração de qualquer amante das letras e dos códices que reúnem todas elas nas melhores combinações possíveis ver alguém que não tem o mesmo nível de envolvimento amassar, dobrar, maltratar um volume, qualquer que seja. Mesmo que de auto-ajuda, mesmo que de um acéfalo escritor de best-sellers. Livro é livro e merece respeito, consideração e carinho.

Um amigo rebateu certa vez essa posição. “Mas se você já leu o livro por que não emprestar? Por que não dar a outra pessoa a oportunidade de ler uma boa obra?” Ora, ora, ora… Porque um livro é um objeto quase místico. O que ele transmite vai além das letras e um bom livro gera afeição, cria elos, merece registro. E, como em tudo que envolve o amor e outros sentimentos nobres, sobre as obras literárias paira a sombra do ciúme. É uma relação de exclusividade, de monogamia, de nenhuma promiscuidade. Emprestar só em casos extremos. Para alguém que ame os livros tanto quanto você ou em situação de total má intenção, quando a beneficiária ou beneficiário do empréstimo for alguém muito especial.

Isso sem falar do caminho sem volta que as obras costumam trilhar. Se um livro vai, dificilmente retorna às suas mãos em pouco tempo. Isso quando retorna. E muitas vezes, até que volta, mas com marcas irreparáveis em suas maltratadas páginas. Emprestar livros é sempre um calvário e uma lição de que não se deve fazê-lo.

Por tudo isso: um pouco de capricho, um tanto de egoísmo e muito cuidado, não empresto mesmo. Nem adianta insistir. Prefiro acrescentar mais troféus a minha sala e celebrar cada vitória, cada triunfo que a leitura de mais um livro me deu.