Coluna da Digi # 11 – Parasitas Sociais

Primeiramente, mil desculpas pela demora na atualização. Os motivos são muitos. Hoje republico neste blogue mais uma coluna da Digi. Mas não uma crônica qualquer, essa é bem especial. Foi uma das que mais repercutiu e deu início a uma feliz sequência de colunas líderes de audiência e acessos que foram publicadas entre novembro e dezembro de 2007. A que divido com vocês hoje se chama “Parasitas Sociais” e foi postada no dia 05 de novembro de 2007.

Relembrem e divirtam-se!

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Parasitas sociais

Papai, quando eu crescer eu quero ser um colunista social, a profissão mais promissora de Natal. Terei respeito, dinheiro, projeção e tudo mais que um trabalhador bem sucedido almeja. Terei empresários, políticos e socialaites, sobretudo as socialaites, aos meus pés, à minha mercê, em minhas mãos. Papai, você vai sentir tanto orgulho do seu filhinho! Vai até esquecer aquela história de eu ter que fazer direito ou medicina ou engenharia. Vôts! Colunista social é o que há, painho. Não, não, nada disso. Também não precisa diploma de jornalismo não. O verdadeiro colunista social é autodidata. Aprende fazendo ou, no meu caso, observando o que os outros já fizeram. Eu já sei direitinho o que vou fazer. Terei uma carreira meteórica, você vai ver.

Para provar que não estou delirando e que não se trata de um sonho irresponsável de um jovem idealista, tenho dados comprobatórios de que o nicho de mercado para esta categoria profissional está em franca ascensão. Com o desenvolvimento econômico da cidade, muitos empresários têm prosperado, criando um grande contingente de novos ricos despreparados, mal educados, burros como uma porta, casados com esposas de hábitos fúteis e pais de filhos mimados. Essas famílias desprovidas de qualquer traço de caráter e personalidade farão de tudo para saírem em minha coluna.

Considerando que os empresários mais antigos e supostamente mais bem preparados e inteligentes também não são lá grandes coisas no que toca o intelecto e sempre precisarão de notinhas e fotinhas nas páginas dos noticiários que os mantenham em evidência, eles também acabarão se tornando meus clientes. Isso sem falar nos representantes do mundo jurídico. Promotores, juízes, advogados, todo mundo pagando para figurar com um belo sorriso, acompanhado de um elogio e de um dos termos inconfundíveis que eu mesmo vou inventar. Serei um colunista com estilo próprio. Vai ser tuuuuuudo!!!

E os dentistas e médicos, proprietários de clínicas da cidade? E os donos de construtoras? E de restaurantes? E de concessionárias de veículos? Todo mundo querendo sair na coluna do seu filhinho aqui. Afe! Que povo pra gostar de aparecer! Mas tem que gostar mesmo, pois se não aparecer na minha página no jornal, não existe, desaparece aos olhos da sociedade, vira um (argh!) fracasso total.

Eu próprio terei que cultivar uma imagem bastante exuberante de mim mesmo. Terei que virar um personagem, uma caricatura ambulante, cheia de trejeitos e idiossincrasias, um verdadeiro pavão quase humano. Serei afetadamente afeminado, mas sem nunca assumir uma suposta homossexualidade. Arrumarei até um casamento de fachada se preciso for. Ficarei bêbado em festas e armarei barracos memoráveis como parte de minha excentricidade de colunista. E ai de quem sair por aí sujando meu nome, queimando meu filme, denegrindo minha imagem! Tornar-se-á vítima de minhas estocadas venenosas, minha ironia fina, minhas canetadas ferinas demolidoras de reputações. Falar mal de mim, papai, na é uma opção.

Você deve estar se perguntando: “E isso dá dinheiro?” Não é isso que os pais querem saber sempre que os filhos escolhem uma profissão? O lance, papaizinho, é que pra aparecer dentro do meu espaço lindo maravilhoso no Diário do Norte de Hoje, tem que pagar! Comigo é assim: dinheiro na mão, calcinha no chão. E isso vale pro empresário falido que quer passar imagem de ricaço, pra mulher depressiva que deseja justificar sua existência desprezível escondendo-se sob um sorriso mais artificial que sua beleza comprada em clínicas de estética e cirurgia plástica da cidade, pro filho mimado que não pega ninguém que será promovido de semi-virgem a novo Don Juan graças a uma notinha minha. Tudo será cobrado, com direito a mimos adicionais e favores “espontâneos” a cada novo cliente conquistado, mulher adquirida ou pequenas doses de felicidade vazia proporcionadas.

E sabe do que mais, pai? Eu também poderei ser um grande promotor de festas. Serão festas anuais que reunirão a nata da sociedade natalense para celebrar a mediocridade reinante nesta terra de Poti. Cada convidado pagará R$ 200 para ter a honra de comparecer e ai de quem não quiser pagar, pois será condenado ao ostracismo e obscurantismo inevitável que assombra os discretos. Aliás, não há gente que odeie mais que os discretos! Ô raça! Mas voltando às festas, painho, sabe do melhor? Não gastarei um tostão com elas, pois terei patrocínio de construtoras, shopping-centers, universidades particulares, da prefeitura e até do governo do estado! É mole? A prefeitura e o governo me darão milhares de reais por uma festa para a qual eu cobrarei caro o acesso e ainda me deixará cheio de dinheiro. Só pra você sentir o peso da minha influência.

Pra não pegar muito mal, invento uma lorota de que a festa é beneficente, dou umas entrevistas falando de caridade, solidariedade e pronto. As pessoas da sociedade nem vão se importar em pagar pelas senhas da festa e vão até se sentir bem, pois nunca terão feito um gesto de bondade pra seu ninguém em suas egoístas e amorais biografias. Daí, poderei sempre me defender dizendo que todo o dinheiro arrecadado com minhas festas irão para a caridade, que as empresas que me patrocinaram são responsáveis socialmente e ninguém vai nem atentar ao fato de eu comprar um Land Rover na semana seguinte à festa, apesar de manter o condomínio do meu prédio atrasado pelo décimo mês consecutivo.

Bem, painho, é isso. Espero que você aprove e abençoe a minha escolha profissional. Serei um colunista dedicado e darei tudo de mim para ascender profissionalmente neste ninho de cobras. Não há cidade mais indicada para o colunismo do que Natal. Nossa classe média e alta sociedade são vazias e vaidosas o suficiente para me deixar ricos e até os governos vão ser patrocinadores do meu estilo de vida. E assim vou prosperando, subindo na vida, sugando da sociedade o que ela tem de pior, maquiando meticulosamente em minhas colunas diárias a falta de caráter de nossos ilustres, amenizando sua falta de carisma, inutilidade e idiotice. Você vai ter orgulho de mim, painho. Tenho certeza disso.

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