Coluna da Digi # 15 – O Matanza

Esta crônica sobre a banda carioca “Matanza” foi publicada no dia 10 de dezembro de 2007 na Diginet.

***

Este blogueiro com amigos num show da banda no Centro Cultural Dosol

Em 2001 eu morava no Rio de Janeiro e criei o hábito de ler todas as sextas-feiras o Rio Fanzine, suplemento sobre cultura alternativa do jornal O Globo, que trazia sempre novidades sobre música, bandas novas, quadrinhos, arte-marginal e filmes B. Foi lá que tomei conhecimento, por exemplo, de uma mostra de animação que ocorreu em Botafogo, onde adquiri em VHS os raríssimos desenhos baseados no filme “O Balconista”, nunca lançados no Brasil.

 

“Primeiro dia fora da cadeia estadual

É ela que eu encontro bem na porta a me esperar

Num conversível com motor ligado que acabara de roubar.”

 

Um dia, lendo o Rio Fanzine, me deparei com o seguinte título: “Xerife, o Matanza está na cidade!” Redator publicitário que sou, sempre atento a bons títulos, prossegui a leitura, pois se um xerife precisava ser alertado, o que dirá eu, que gostei da banda já a partir do nome. O sub-título dizia: “Banda fora-da-lei lança explosivo disco unindo country e hardcore”. O texto falava das músicas do disco, das temáticas etílicas e bem-humoradas, das letras machistas ambientadas no velho oeste americano, em meio a assaltos a bancos, tiroteios e vampiros ao melhor estilo “Um drink no inferno”.

 

“O último bar, quando fecha de manhã,

só me lembra que eu não tenho aonde ir.

Bourbon, tenho demais, mas que diferença faz

se você não está aqui pra dividir?”

 

Para um órfão da recém falecida “Raimundos” era um alento e tanto. Uma banda que misturava hardcore com outros ritmos e que tinha no humor um dos seus mais sólidos alicerces soava deliciosamente familiar. Semanas depois, soube de um show que o grupo faria no Ballroom, casa que abrigava bandas independentes cariocas e de outras plagas no início destes anos 2000. O Ballroom era um dos lugares mais legais do Rio, ainda mais pra um natalense foragido como eu, saudoso do Blackout que deixara por essas bandas. O espaço no bairro do Humaitá guardava diversas semelhanças com o atual Galpão 29.

 

“Bom de noite é ir pra rua,

mesmo quando está chovendo.

Eu que nunca me arrependo,

tá errado, eu tô fazendo.”

 

Cerveja na mão, olhos no palco, abrem-se as cortinas. Surge um enorme viking ou, como dizem os humoristas do Rock&Gol, um gigante lenhador ruivo, bradando para o público: “A pior coisa que uma mulher pode roubar de um homem não é o seu dinheiro, não é a sua comida: é o seu caminhão!” Uma guitarra toca a melodiosa e agitada “Ela roubou meu caminhão”, as rodas de pogo tomam conta do lugar, a cerveja gelada sobe à cabeça e, de súbito, fui arrebatado pelo Matanza.

 

“Rápido, garçom, me traga o seu melhor uísque.

Esse seu amigo aqui só tem mais meia hora.

Até que o diabo descubra que eu morri

E venha me levar embora.”

 

Depois daquele primeiro CD (“Santa Madre Cassino”), vieram outros dois de músicas próprias (“Músicas para beber e brigar” e “A arte do insulto”) e um duplo que homenageia um dos ídolos da banda (“To hell with Johnny Cash!”). O hardcore tornou-se mais presente nas melodias e as letras cada vez mais incisivas, violentas e irreverentes. Arrisco dizer, com ironia, por favor, que as letras do Matanza são as mais belas poesias que se produz na música brasileira atualmente e a banda sabe como ninguém passar sinceridade na hora de falar em sentimentos sem cair no choro como é a moda entre os roqueiros desses novos tempos. E esse é mais um motivo para gostarmos do grupo: talvez o Matanza seja o último reduto macho do Rock brasileiro nesse novo milênio.

 

“Não me lembro de nada.

Não me conte o que eu fiz.

Acordei de ressaca,

Muito mais feliz.”

 

E cada vez que a banda vem a Natal ela ganha mais pontos no meu ranking de predileção. Os dois shows realizados nos Festivais Dosol de 2005 e 2007 foram antológicos, marcantes e históricos. Apresentações que valem por uma porrada, com direito a roda de pogo gigante, um viking no microfone e muitas camisetas pretas na platéia. Nessas ocasiões, gosto de repetir com um indisfarçável sorriso a manchete do Rio Fanzine lá no início do século: “Xerife, o Matanza está na cidade!”

 

Carlos Fialho é escritor e fã do Matanza.

Este texto foi escrito com a máxima parcialidade possível.

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