Coluna da Digi # 16 – A Fábula das duas cantoras

Este foi um dos meus textos mais polêmicos que, de tão popular e viral, acabou impresso no “Mano Celo – O Rapper Natalense” (Crônicas, Jovens Escribas, 2009). Publicado em 17 de dezembro de 2007, bateu recordes de acessos na Digi e só foi superada em comentários pela já clássica “O Homem que não falava Carnatalês”.

Recordar é viver. Podem rir à vontade.

***

A Fábula das duas cantoras

Eu queria escrever um conto de fadas em que houvesse uma personagem como a Ciderela e outra como uma de suas irmãs invejosas. Ou então, como a Branca de Neve e a rainha má. Bem, eu não sei se consigo, mas depois do texto abaixo, vocês não podem dizer que eu tentei.

Era uma vez um reino distante de tudo, dos grandes centros, da realidade e principalmente do senso do ridículo. Neste reino encantado, cujas normas de conduta e tendências eram ditadas por uma elite econômica decadente, a cultura não foi desenvolvida lá. Com preguiça de pensar e criar uma identidade cultural própria, os abastados e posudos oligarcas locais mandaram comprar uma cultura prontinha. Aliás, montou com peças de segunda vindas da Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Nova Iorque, Recife, completando com uma banda caribenha de João pessoa. Misturaram bem com a mediocridade e mentalidade pequena da corte local, buscaram apoio oficial junto aos monarcas e estava pronta a gororoba para ser enfiada goela abaixo dos impassíveis súditos.

Neste reino que fica na esquina de um continente bem pra lá de Deus me livre, o caldo cultural, a geléia geral, o cosmopolitismo provinciano e influências globais brejeiras faziam surgir muitas coisas interessantes. Bandas, cantores, artistas plásticos, escritores e diversos outros surgiam o tempo todo, mas só alguns poucos ganhavam o destaque esperado. Na cidade, se plantando, tudo dava, mas quase nada prosperava.

De lá, em meio a esta situação singular, surgiram duas cantoras. Uma muito bela, com uma linda voz, bom gosto musical, simpatia, grande presença de palco e um sorriso arrebatador. A outra, também bela e de boa voz, conservava em si a influência nefasta da elite perversa onde se criou, subia aos palcos exibindo toda futilidade que lhe era peculiar, vestia um figurino mais chamativo que roupa de ciclista e se movia no palco com a graça e elegância de um cruzamento entre uma lacraia e um boneco do posto.

A primeira se chamava Renata Bá, a outra, Marisa Ali Babá. Ambas conseguiram desmentir a lógica da cidade que nada faz prosperar e obtiveram destaque na música. Renata, pelo talento, boas parcerias, escolhas acertadas e pelo encantamento que causa nas pessoas em seus shows. Ela tem um magnetismo natural e chamou atenção não só no reino, mas também em todo o continente pra lá de Deus me livre. Já Marisa, teve os louros comprados pelo seu pai, o sultão Hemir Ali Babá, que não poupava esforços (nem dinheiro) em fazer da filha uma celebridade.

Renata apresentava um repertório que contagia toda a platéia, faz com que todos queiram mexer as cadeiras pra lá, pra cá, cantavam junto e saiam das apresentações com uma sensação de bem estar que só os grandes artistas têm o poder de provocar. Marisa preferia músicas que elevariam Reginaldo Rossi ao status de cult e sua interpretação de “Como uma deusa” era tão constrangedora que fez Hosana se revirar dentro do túmulo, nas alturas ou fosse lá onde ela estivesse. Renata cantava músicas de Marcelo Camelo, já Marisa queria subir no palco montada num camelo.

No camarim de Renata não deveria ter 600 toalhas brancas, nem outras excentricidades e idiossincrasias exigidas por artistas que se sentem donos do mundo. No camarim de Marisa também não devia ter 600 toalhas brancas, mas acredito que umas 400 com estampas indianas, umas 300 rosa e mais umas 100 verde-limão. Renata chega aos shows numa perua com sua banda, equipe e produção dos eventos. Marisa chega de limusine, cercada por 34 seguranças e com uma perua na frente gritando “NINGUÉM ENCOSTA! NINGUÉM ENCOSTA!” O detalhe é que geralmente nunca havia ninguém pra encostar. Renata colecionava um número cada vez maior de admiradores. Marisa tinha um fã clube cujos membros eram remunerados pelo folclórico sultão e fotos enormes com seu rosto espalhadas por todo o reino, também bancadas pelo poderoso Hemir.

Todos os dias Marisa Ali Babá olhava no seu espelho mágico e perguntava se existia alguma cantora melhor do que ela. O espelho respondia que sim, havia alguns milhões, mas que se ele tivesse que citar todas nominalmente, levaria quase uma eternidade e ele tinha mais o que fazer além de ficar dizendo obviedades que até um surdo de nascença já sabia (o espelho andava meio sem paciência diante da falta de noção da dona). Então Marisa perguntava qual era a melhor cantora nascida no reino. E ele respondia que era a Renata e tinha uma crise de riso tão grande que quase rachava o seu vidro mágico espelhado. O espelho era um tremendo fanfarrão. Disse à dona que, se ela quisesse ser mais popular que a rival, teria que cativar os 7 anões que viviam no bosque, pois eles traziam boa sorte. Como Marisa era meio tapada e não sabia bem a diferença entre anões e crianças, nem entre bosque e parque, resolveu fazer uma manhã de autógrafos de CDs no Parque das Crianças, tendo prestado grandes serviços na educação dos pequenos, pois desde esse dia, quando os filhos aprontam em casa ou na escola, os pais e professores dizem: “É melhor você se comportar, senão vai ficar de castigo ouvindo o CD da tia Marisa Ali Babá!” E fazia-se paz.

No fim da fábula, eu teria que escrever um final feliz para a Renata Bá e um destino trágico para a Ali Babá, mas sinto que é melhor eu não levar em frente essa história. O que eu sempre admirei nas fábulas era o componente crível, verossímil. Mesmo que estivéssemos falando de bruxas, lobos falantes ou bonecos de pau mentirosos, havia sempre uma pertinência que fazia com que aquelas histórias não soassem tão absurdas. Chegavam mesmo a ser próximas da realidade. Essa que eu inventei está muito distante de ser real. E essa personagem que inventei, a Marisa Ali Babá, é surrealmente ridícula. Bem, eu tentei e vocês estão de prova. Agora deixem eu grafar a última palavra: FIM. 

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