Coluna da Digi # 21 – Uma xícara de açúcar

Esta crônica publicada na Diginet no dia 21 de janeiro de 2008 foi mais uma bem divertida (pelo menos para mim) que publiquei naquele fértil período do fim de 2007 e início de 2008. Ela se baseou em relatos de diversos amigos que moram em coletivos condominiais e também em minha própria experiência, uma vez que, desde os 9 anos de idade, eu moro em condomínios. Se você também vive num lugar assim, é rir para não chorar.

Divirtam-se!

***

Uma xícara de açúcar.

O ambiente é mal iluminado. De repente você se vê rodeado de pessoas estranhas, gente de olhar vazio, inexpressivo, alguns parecem não ter rosto. Começam a falar, todos ao mesmo tempo, freneticamente, palavras que fogem à sua compreensão, frases atropeladas e sem o menor sentido. Um deles, o líder, fala e, ao fazê-lo, todos os outros se calam. Ele diz que você será prejudicado. Suas finanças sofrerão com os rumos fantasmagóricos dos sinistros acontecimentos que se seguem naquele fétido e apertado ambiente. Você quer falar alguma coisa, mas não consegue. Abre a boca, mas não emite som. As demais pessoas, ao contrário, continuam falando cada vez mais alto e agridem seus tímpanos com impropérios e absurdos que lhe causam náuseas poderosíssimas. Isso lhe parece um pesadelo? Calma. É apenas uma reunião de condomínio.

Você acaba de chegar ao prédio novo. “Que beleza!”, você pensa. Mais uma oportunidade que a vida lhe dá para fazer novos amigos, trocar gentilezas e exercitar toda a cordialidade do bom brasileiro com seus vizinhos. Cheio de boa vontade, você comparece à primeira reunião de condomínio na nova morada. Ansioso por saber quem são as pessoas que vão dividir áreas comuns e paredes com você. Imbuído de um infinito espírito fraterno, você acredita que estranhos são aqueles amigos que ainda não conhece. Tudo é muito lindo, o sol brilha, que maravilha. Você está a um passo de quebrar a cara. Bem vindo ao lar, Dorothy.

Uma reunião de condomínio é um lugar no espaço/tempo em que ninguém se entende. Seria como reunir o Pato Donald, o goleiro reserva do Corínthians, um soldado Talibã e uma secretária de consultório odontológico para falar sobre “o correto cultivo de hortaliças em quintais pouco espaçosos”. Enquanto um morador quer utilizar a verba extra do condomínio para comprar azulejos roxos para a piscina, outro quer contratar profissionais para educar as crianças do prédio a não se jogarem do oitavo andar, pois diferentemente do que eles vêem nos filmes de super-heróis, o homem não pode voar.

O síndico tenta apaziguar os ânimos, mas só consegue mais caos e desordem ao propor uma taxa extra para conseguir atender às reivindicações dos condôminos. Alguns protestam e são informados de que terão que pagar uma multa por protesto em reunião além da taxa extra já estabelecida anteriormente. Um dos presentes fica indignado e brada furiosamente contra o síndico, mas logo se contém ao saber da multa de indignação ainda mais cara que a de protesto.

Em um dado momento da reunião, os presentes concluem que o síndico é um só e, como tal, insuficiente para servir de único alvo de seus protestos e discordâncias. A partir de então se tem início intensos embates envolvendo os moradores. Tais duelos verbais começam em tom sereno e cordato, mas vão crescendo em intensidade até que um dos envolvidos caia morto de exaustão ou humilhação. Ao vencedor, cabe ter seu pedido atendido ou simplesmente recebe amigáveis tapinhas de congratulações em suas costas. Houve uma vez uma discussão que durou mais de 17 horas a respeito de uma vaga de garagem, uma câmera de vigilância, uma boneca inflável de bigode e um desentupidor de pia. Ao vencedor, coube a honra da vitória e muitas explicações a dar.

Envolvido pelo ambiente de ativa participação de todos os presentes, você comete um erro fatal e irremediável: levanta o dedo, pedindo a palavra. Nesse momento, todos que esperneavam e emitiam sons semelhantes ao de um pterodáctilo no momento da cópula silenciam e olham pra você com um misto de interesse e desprezo. Consciente de que agora já não dá para voltar atrás, mas inadvertido quanto à dimensão da asneira que está prestes a cometer, você prossegue e faz um questionamento aparentemente simples e sem maiores conseqüências: “Como se dá a utilização da quadra de esportes do condomínio?”

Mas o que ninguém lhe avisou foi que síndicos odeiam quadras de esportes. Aliás, síndicos odeiam esportes ou qualquer outra atividade que os façam suar e se esforçar em demasia, a não ser, claro, reuniões de condomínio. Os síndicos foram, sem exceção, na infância, aqueles garotos gordinhos e desajeitados que nunca eram escolhidos para o time de futsal nem se fossem donos da bola.

Com uma voz pausada e tom sereno ele lhe informa que qualquer morador pode fazer uso das áreas de lazer do condomínio, bem como do complexo esportivo do prédio, desde que cumpra algumas regras básicas de conduta e utilização. Ou seja, basta requerer por escrito em 8 vias, com antecedência mínima de 3 meses, podendo utilizar o espaço por no máximo meia hora, apresentando atestado médico de todos os atletas que farão parte da atividade e mostrando diante de uma comissão de condôminos ilustres e ex-condôminos beneméritos que é capaz de fazer malabarismo com facas afiadas e de se teletransportar no tempo e no espaço. Cumprindo tais normas, pode-se jogar futebol, basquete, bocha ou biriba numa boa. Síndicos também odeiam que outras pessoas suem praticando esportes.

Todo mundo, quer more em remotas chácaras do interior de Mato Grosso ou em sofisticadas coberturas da Barra da Tijuca, tem sempre aqueles dias em que quer sossegar, dormir cedo, ver um filme, ler um livro ou a reprise daquela imperdível partida de sinuca (regra européia que é mais flexível que a americana). Pois bem, são justamente nesses dias que o seu vizinho do 402 resolve fazer uso do salão de festas para uma, digamos, confraternização com os amigos. Até aí, nada demais. O problema é que o gosto musical do seu vizinho, bem como dos seus pares, tem a beleza e singeleza de uma operação para extrair o apêndice e o volume do som (novo, importado e megapotente) o faz sentir inveja dos surdos que não são obrigados a passar por uma situação como essas ou dos mortos que não precisam conviver com nenhum vizinho idiota e fanfarrão. Aliás, do jeito que a tal festa vai, é bem provável que você se junte a uma das duas categorias. Pelo volume do som, deve se tornar um deficiente auditivo até o amanhecer e, levando-se em conta a forma como a potência sonora abala as estruturas do prédio, um desabamento fatal não está inteiramente descartado.

É claro que nesses fins de semana em que ocorrem essas celebrações ao incômodo extremo, o síndico nunca está lá para tomar providências e a polícia, se acionada, chega já perto do fim da, digamos, festa, quando seu sono e descanso já estão irremediavelmente prejudicados.

Outro aspecto inerente à vida em condomínios é a convivência com o corpo funcional. Tem sempre o porteiro que acha que é dono do prédio ou o zelador que resolve lavar o seu hall bem na hora de você ir trabalhar, esperançoso de que o assoalho molhado possa render um divertido tombo com, talvez, uma conseqüente fratura da espinha.

Mas os funcionários são apenas um ínfimo detalhe se levarmos em conta o festeiro do 402, o síndico que odeia esportes e todos os outros moradores que podem ser assassinos em série, zoófilos ninfomaníacos, lobisomens ou militantes do PSOL. Por isso, o conselho que eu dou é: fique longe! Se, ao abrir o elevador, se deparar com alguém dentro, feche a porta sem a menor cerimônia. Ao ser convocado a uma reunião de condomínio, peça perdão pela ausência, alegando ter que comparecer a uma apresentação teatral da escolinha do seu filho (mesmo que você seja solteiro e não tenha filhos). E, nunca, jamais, em hipótese alguma, peça ou ceda uma xícara de açúcar. Você não sabe onde estará se metendo. Lembre-se: a vida em um edifício é cheia de altos e baixos, especialmente se você morar no oitavo andar.

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