Palumbo 1 – Nossa amarga docilidade.

No meio de 2009, o professor Tarcísio Gurgel me escreveu um e-mail falando de seu novo livro e, no meio, dizia: “…inclusive tenho um assunto pra tratar com você. É a respeito de um projeto no qual estou metido agora que saí da universidade.” Eu não sabia que projeto era esse e esqueci de perguntar, até que soube da Revista Palumbo e imaginei que receberia um convite para colaborar. Fiquei ansioso, pois pelo que li no blogue de Sérgio Vilar, a editoria teria Osair Vasconcelos, Dácio Galvão e Albimar Furtado, além do próprio Tarcísio. Só fera.

Um dia, chegou um e-mail/convite. Osair Vasconcelos me encomendou uma visão de Natal desde fora, feita sob o ângulo de quem há 6 meses saiu da cidade. E assim surgiu minha primeira colaboração com a Revista Palumbo. Agora, que um novo número (o terceiro já) está sendo produzido, divido com vocês o texto impresso na publicação.

Espero que gostem.

***

Nossa amarga docilidade.

O Forte dos Reis Magos, símbolo de uma Natal que um dia resistiu e um natalense em sua posição preferida e habitual.

Em 2007, a caminho da Feira do Livro de Mossoró, o escritor carioca João Paulo Cuenca passou uns dias em Natal. Na ocasião, ele falou sobre uma viagem que havia feito recentemente ao Japão. Perguntado sobre o que aprendeu a respeito do país do Godzila, ele surpreendeu na resposta. “Na verdade, aprendi muito mais sobre o Brasil, estando lá. Foi um aprendizado por oposição.”, disse, para depois completar: “Por exemplo: vendo o mar de Natal eu me dei conta de como o mar do Rio é escuro. Porque a água de vocês é muito clarinha.”

Essas palavras entraram em minha cabeça e lá permaneceram como valiosa lição. Sempre que viajo por um período, curto que seja, procuro pensar em Natal, enxergar a cidade onde eu nasci e cresci sob a perspectiva aumentada da distância. É incrível a quantidade de atitudes simples e cotidianas que resultariam num lugar melhor para viver.

Para começar, vou repetir uma máxima que ouço desde os primeiros passos, no bairro do Alecrim. “Natal é a melhor cidade do mundo para se morar.” De fato. Temos praias belíssimas e centenas de quilômetros de litoral de norte a sul, um clima de verão permanente e uma característica imprescindível para que nos tornássemos uma potência turística: a docilidade de nossa gente.

No entanto, essa qualidade que possivelmente faz de nós a capital brasileira que melhor acolhe os visitantes é justamente a que também nos permite deitar eternamente no berço esplêndido do axioma inesgotável, repetido de geração em geração como um mantra: “é a melhor cidade do mundo… é a melhor cidade do mundo…”. Uma lavagem cerebral que nos subtrai qualquer traço de combatividade e, certos de que nunca deixaremos de ser os melhores, permitimos que os nossos gestores arranquem, serrem e derrubem quase todas as árvores da cidade e desenvolvam projetos de emissários submarinos para torpedear nossas praias com bombas de coliformes fecais.

Aqui em Madri, onde passo uma temporada de estudos e trabalho literário, percebo uma capital que, mesmo que quisesse, jamais conseguiria ser como a nossa. A eles não foi dado o clima, a natureza e o litoral. Mas verdade seja dita, compensam essas ausências com um esforço coletivo e institucional em criar um ambiente melhor para os seus moradores. Isso resulta em uma cidade extremamente arborizada, que recicla quase a totalidade do lixo que produz, que se gaba de ter um dos melhores transportes públicos do mundo e onde os serviços essenciais como educação, saúde e segurança pública são motivos de grande orgulho.

O que eu me perguntei quando cheguei foi: “Por que a minha cidade não pode ser assim?” Será que a defasagem no nível de desenvolvimento, a falta de educação do povo e a desumana distribuição de renda explicam tudo? Com o tempo, descobri que não. Há um fator muito mais decisivo para tudo isso. E ele não está no que somos, mas no que fazemos.

Aqui na Espanha não há ato de corrupção sem manifestação de repúdio e, em cada uma delas, acorrem milhares de cidadãos. Não há lei polêmica a ser votada sem que multidões deixem claro se são contra ou a favor. Nem mesmo um circo que aporte por aqui está livre de protestos contra a presença de animais selvagens. Diante de uma postura como essa fica fácil entender porque certas coisas que aqui vão muito bem e que poderiam também estar bem em Natal, simplesmente não funcionam.

De vez em quando surge uma pequena centelha, um fio de esperança que nos anima diante da possibilidade de fazermos uma cidade melhor. Um desses episódios ocorreu certa vez, quando um amigo meu passava pelas proximidades de um circo instalado vizinho ao Machadão. Havia um grupo de adolescentes ativistas dos direitos dos animais que protestava no local. Curioso com o fato inusitado numa terra tão letárgica, aproximou-se e uniu-se aos garotos na defesa de seus argumentos. Os funcionários do circo, fulos da vida, chamaram a polícia e o PM que atendeu à chamada foi bastante correto. “Eles não estão fazendo nada de errado. Estão protestando pacificamente e o circo está em local público.” Indignado e impotente, um dos tratadores de elefantes gritou para o meu amigo: “Vá embora seu maconheiro vagabundo!”, ao que ele respondeu: “Opa! Olha o respeito! Vagabundo não que eu trabalho!”

Infelizmente, poucas vezes nós temos a atitude que aqueles garotos tiveram diante do circo ou a iniciativa do meu amigo em juntar-se a eles. Sendo assim, seguimos com nossa docilidade, tão amena, agradável e autodestrutiva, nessa sociedade carnatalesca que, em sua absoluta imobilidade, trabalha para transformar a suposta “melhor cidade do mundo para morar” num medíocre lugar comum.

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Uma resposta to “Palumbo 1 – Nossa amarga docilidade.”

  1. Sabrina Says:

    Os problemas relatados nesse post pertencem ao Brasil. Natal é apenas a “pontinha do iceberg”. Quase todos os brasileiros acreditam que se não fizerem sua parte vai ter alguém que o faça. O problema é que esse “alguém” pensa da mesma forma… Nesse caso, ninguém faz absolutamente nada.

    No mais a docilidade é relativa. Uma coisa é chegar em Natal já tendo amigos ou conhecidos aqui. Outra é chegar sem conhecer ninguém. No segundo caso, a recepção não é das melhores e, em ambos os casos, o atendimento em bares e lojas é horrível. Os vendedores acham que estão lá para fazer um favor. E mesmo que assim fosse, quanta má vontade, não?

    Certa vez um amigo disse que Natal tem as desvantagens de uma cidade grande e, infelizmente, não tem as vantagens. Acho que essa é a a melhor, se não a única, forma de definir essa cidade.

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