Orelha de “O Dia das Moscas”

Esta postagem é uma continuação da anterior. Dessa vez, divido com vocês o texto que estampa a orelha da segunda edição de “O Dia das Moscas”. Meses depois de ter escrito a crônica “E o Ojuara, hein?”, quando já estávamos pré-produzindo a nova edição do livro de Nei Leandro, recebi um convite que me deixou muito feliz. Nei queria que eu próprio escrevesse a orelha da obra. Uma honra da qual inicialmente declinei, mas ele insistiu e acabei cedendo. (Na verdade, nem precisou insistir tanto não.).

O resultado é o texto “Uma Grande Família” que publico logo abaixo.

***

Uma Grande Família 

Senhoras e senhores, meninos e donzelas (todas as 6), sejam todos muito bem vindos à nação dos Potiguares, que começa “aquém, muito aquém daquela serra que não dá pra ver daqui”. Foi lá que o caçador de socós Cançado avistou a índia Hosana. Tesão à primeira vista e sem muito enfado. Naquele dia mesmo começaram a produção em série de uma enorme prole. “…corpo fértil que só a carta de Caminha, nunca se viu igual.”, conforme conta Nei Leandro de Castro, com seu jeito único de envolver o leitor, nos fazendo sentir como membros daquela família, personagens da saga, testemunhas oculares de todos os causos criados.

E do generoso ventre de Hosana, veio ao mundo Anunciada, que cresceu e se engraçou pelo tabelião Honório, homem metódico de fala difícil que fez com ela tantos filhos quanto as letras do alfabeto. Aquela turba de mestiços, de sangue indígena e luso, encheu a casa da família de alegria e confusão, cada um a sua maneira, cada um com suas doidices e mungangas, cada um com suas angústias, todos encenando a mesma história.

Em “O Dia das Moscas”, o autor narra magistralmente a divertida trajetória da formação do povo brasileiro, a história do surgimento de uma nação, um romance de maus costumes. Uma narrativa já contada e recontada, mas nunca dessa forma, não com essa inventividade. Aqui, Iracema não exibe seus cabelos negros como as asas da graúna, nem sacia nossos anseios voyerísticos com seus lábios de mel. Mas temos uma índia gorda e parideira de peitos caídos que de virgem não tem nada. Em “O Dia das Moscas”, Peri não beija Ceci, mas Hosana é champrada por Cançado ali mesmo, às margens do rio.

E assim, como quem não quer nada, divertindo mais e mais a cada página, Nei Leandro expõe os galhos de nossa árvore genealógica. Apresenta-nos uma infinidade de parentes, neo-macunaímas aos montes, heróis sem nenhum caráter, figuras ímpares e aos pares, sempre pensando numa nova artimanha, tentando ser mais espertos, cheios de malícia e safadeza, libidinosos e presepeiros.

Por isso, deixo aqui um aviso. Não estranhem se os personagens lhe parecerem familiares demais. Nei Leandro não nos fez sentir membros da família a toa. Na verdade, somos nós mesmos os personagens deste livro. E agora, vamos ao que interessa! Tenham todos uma ótima leitura e divirtam-se!

Carlos Fialho

Natal, julho de 2008.

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