Coluna da Digi # 25 – Meu pai e Cláudia Leitte

Esta crônica foi publicada na Digi no dia 25 de fevereiro de 2008 e também na Revista Papangu, uma das melhores publicações culturais do Rio Grande do Norte. Foi uma alfinetada na câmara municipal de Natal que, na falta de uma lavagem de roupa gosta de propor essas maravilhas de alterar nomes de ruas tradicionais ou distribuir títulode cidadão natalense aos puxadores de blocos carnatalescos.

Relembrem e divirtam-se!

***

Meu pai e Cláudia Leitte

“Vendo título de cidadão natalense em bom estado, com uns 8 anos de uso e único dono, preço a combinar.” Esse é o texto do anúncio que devo botar nos classificados nos próximos dias. Na verdade, o título não é meu. Eu realmente nasci em Natal. Quem foi agraciado com ele foi o meu pai, numa bonita e pomposa cerimônia em outubro de 2000. Na época, eu me lembro, ele ficou muito feliz. Vestiu-se elegantemente e foi à Câmara dos Vereadores receber o título com muito orgulho e uma boa dose de emoção. Fui junto, prestigiá-lo nesse momento tão importante cheio de significado, já que receberia uma bonita homenagem da cidade onde passou a maior parte de sua vida, onde trabalhou duro, cresceu profissionalmente e construiu boas relações e sólidas amizades.

Então, você deve estar se perguntando, por que o meu pai quer se desfazer do título de cidadão natalense se ele foi motivo de tanta alegria? É que, nos últimos anos, os ocupantes da câmara, aos quais me refiro carinhosamente como neo-concretistas (corta para os ícones da poesia concreta se revirando convulsivamente nos túmulos), têm desvalorizado de tal maneira a honraria que qualquer mariola de ontem ou pataca furada valem mais que o título.

A condecoração é oferecida pela Câmara Municipal a pessoas que prestaram relevantes serviços à cidade independente da área de atuação. Segundo o regimento interno da casa, basta haver uma maioria simples de votos dos vereadores para que o postulante seja agraciado como neo-natalense. E é esse o ponto de mutação da importância da comenda. De uns anos pra cá, porém, qualquer nãoseiquemzinho que aparece na mídia, qualquer puxador de trio elétrico, ex-big bróder, nutricionista da Fat Family ou dançarina do Caldeirão do Huck pode ser considerado apto a virar conterrâneo. Daqui a pouco vão apelidar o danado de resfriado, pois todo mundo pode ter a qualquer momento.

Se o título de cidadão natalense tivesse capital na bolsa, estaria valendo menos que a palavra dos senadores brasileiros e caindo de cotação. E a coisa piorou ainda mais depois que os vereadores concretistas começaram a agraciar todos os puxadores de blocos carnatalescos. A fórmula é simples: o político escolhe um artista ou personalidade com carisma junto ao público da cidade (e numa cidade em que o axé é adorado por boa parcela da população, qual seria a escolha mais óbvia? Ganha um título de cidadão natalense quem adivinhar.), propõe que o cara receba o título e fica bonito no retrato ao lado dele, se utilizando do carisma alheio, tentando transferir a simpatia do artista para si, associar sua imagem à dele.

Nessa leva de puxadores de bloco posso citar dois: Ricardo Chaves e Cláudia Leitte. O primeiro, pobrezinho, deve ter recebido o título como um asilo musical, uma acolhida calorosa, porque lá em Salvador, meu rei, ninguém quer mais saber do homem não. Inclusive, fontes confiáveis de águas termais me garantiram que ele se encontra morando em Natal, nos fundos do antigo bar do buraco ou no sub-solo do terreno onde ficava o Recanto do Garcia, que funcionam como um retiros de artistas decadentes, acolhendo, além do próprio cantor, o lambadeiro Beto Barbosa e algumas bandas de Rock como o Biquíni Cavadão e Capital Inicial.

Já a vocalista da banda Babado Novo, que eu saiba, nunca prestou nenhum serviço de relevância para nossa cidade. Além de vir a trabalho todos os anos, cantando no corredor da folia, não sei o que ela faz pela terrinha. O fato é que sua recente premiação foi comercialmente ruim para as pretensões do meu pai. Acredito que ninguém vai querer comprar o título dele. Mas do jeito que a coisa vai, é capaz de ele aceitar uma permuta. Eu, por exemplo, estou quase recebendo um título de persona non grata por causa de alguns textos que tenho publicado na Digi. Vou oferecer a ele para poder ficar com o título. Será que ele topa essa troca?

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2 Respostas to “Coluna da Digi # 25 – Meu pai e Cláudia Leitte”

  1. Moura Júnior Says:

    adorei o texto …. hehehe vc só esqueceu de sitar algumas “personalidades” como Durvalino, Veveta entre muitos outros sem contar em nas entegrantes de progamas humoristicos, e namoradas famosas de politicos …. kkkkkkkkkkkkk

  2. Carlos Says:

    Esse “pessoalzinho” vem a Natal, solta uma bufa e ganha o título de cidadão.
    É pra lascar mesmo!

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