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Viagem ao RJ – Março de 2010 – Parte 2

março 31, 2010

RJ, 25.03.2010

Nina e eu (Nina é a minha noiva, Maria Beatriz) viajamos na madrugada da quinta-feira para a Cidade Maravilhosa.  Chegaríamos às 6h da manhã. A ordem era pegar um transporte do aeroporto até Copacabana, onde mora uma de minhas tias, deixar as coisas, tomar um banho e encontrar com a Gabriela da Editora Agir/Desiderata, para quem eu deixaria os originais do meu novo livro. Contato costurado pelo amigo ilustre, escritor carioca, cronista maior, ídolo supremo e descaradamente imitado pelo inglês Nick Hornby, Arthur Dapieve. 

Dapieve e Cuenca, muitas cervas e ótimo papo. Dois que me deram uma força danada.

Aqui cabe um adendo. Quando ficou decidida a data do lançamento do livro no RJ, eu corri para tentar marcar encontros com pessoas bacanas de grandes editoras, dessas que têm distribuição nacional, pois me interessava demais deixar nas mãos delas os originais do livro “Cantos das Cidades”, que estou escrevendo e cujos passos costumo relatar aqui mesmo no blogue. Vocês, inclusive, podem ler a evolução do livro clicando na tag “Cantos das Cidades” ali do lado.

 Alguns amigos escritores me desencorajaram a ter com as pessoas das editoras, dizendo coisas como: “esse pessoal é difícil. não vão te receber. Eles são muito ocupados.” Mas como diz o meu tio Jaziel, “covarde é quem não tenta!” Daí, quero agradecer aqui a 4 caras: Arthur Dapieve, João Paulo Cuenca, Arthur Muhlemberg e Pablo Capistrano. Esses 4 amigos conseguiram contatos com a Agir, a Record, a Rocco e a 7 Letras. Feito o adendo, continuemos o relato.

Tomei café com a Gabriela da Agir/Desiderata e foi muito legal o papo. Ela adorou conhecer a história dos Jovens Escribas, de nossos lançamentos bem sucedidos em Natal e muitos outros papos que rolaram, inclusive a de um improvável amigo em comum em Recife(!) que descobrimos meio por acaso. Almocei com Nina e minha família que mora no RJ, descansei um pouco e fui encontrar a Natalie da Rocco, indicação do filósofo Pablo Capistrano. Nova conversa muito boa, proveitosa e animada. Novo êxito de RH. Mãos apertadas, assuntos assuntados e vamos pra casa. Mesmo havendo virado a noite e descansado muito pouco durante o dia, teria um encontro com os jovens roqueiros/jornalistas/escritores Leonardo Panço, Adílson Pereira, Flávio Flock e Francisco Slade.

Leonardo Panço. ABL nele!

O Panço e o Flock são integrantes originais da banda Jason (que já fez mais de 200 shows na Europa). O Panço também é escritor dos bons e ano passado lançou um dos melhores livros que li ultimamente, uma reunião de crônicas chamado “Caras dessa idade já não lêem manuais”. Flock é um designer conceituado, especialista em discos e livros. Além dos livros do Panço, tem em seu currículo os encartes de Massacration, Detonautas, Vítor&Leo, Padre Marcelo e muitos outros. Na conversa que tivemos, depois de algumas cervejas, ele topou ser o designer de um dos próximos livros dos Jovens Escribas. Uma excelente aquisição pra nosso pequeno selo megalomaníaco-literário.

O Adílson é um jornalista de rock que veio a Natal cobrir os festivais MADA e o Dosol, tornando-se amigo de Ânderson Foca, Caio Vitoriano e meu. Levamos o cara ao Camarões, à Sorveteria Tropical e aí, fudeu! Tinha que virar amigo mesmo. Hoje ele é o diretor de programação do lendário “Circo Voador” e até já encaixou um show da “Camarones Orquestra Guitarrística” para breve. Muito massa. Já o Francisco Slade, eu não conhecia, mas é escritor, muito gente boa, amigo dos caras e me explicou várias coisas sobre adequação de projetos literários à Lei Rouanet que eu espero usar um dia.

Adílson Pereira, numa viagem que fiz ao RJ em 2007.

A conversa começo animada, com os comensais trocando presentes. Na minha sacola levei exemplares de “Mano Celo”, “É Tudo Mentira!”, “Simples Filosofia” e “O Dia das Moscas”. Além de vários livros lançados pelos Jovens Escribas pra Flock sacar o naipe dos leiautes. Todos da mesa me presentearam com seus livros e, no caso do Flock, com um quadro pitado por ele e dedicado.

Depois disso, virou bagunça. Futebol, rock, Rio de Janeiro, trabalho, Circo Voador. Os caras contando histórias e soltando frases imortais como só as mesas de bares são capazes de nos incentivar a produzir. A certa altura, a respeito da cabeçada que o Chorão deu no Marcelo Camelo em 2005, Flock declarou: “Aê, eu conheço o Marcelo. O cara é uma moça. Na boa, malandro que bate em otário é mole! Queria ver o Chorão fazer aquilo com o MV Bill.”

Comentei com os caras sobre a manchete do jornal Extra daquele dia, “Adriano e Love brilham na noite. Mas dessa vez foi em campo”. E os caras me relataram várias manchetes antológicas dos jornais populares do Rio nos últimos 2 anos: “Luana não tem mais Dado em casa”, “Fábio Assunção dá um tempo na carreira”, “Ronaldo volta a treinar com bola” e algumas outras que a minha placidez etílica não me permitiram recordar. Um pouco de discussão sociológica sobre as atitudes dos jogadores de futebol, o patrulhamento da mídia sobre suas vidas e a relação dos craques com as drogas. Muitas piadas, histórias e crises de risos.

Estava no Rio. Estava na Lapa. Estava entre amigos. Estava em casa.

E era só o primeiro dia de viagem.

CONTINUA

Viagem ao RJ – Março de 2010 – Parte 1

março 30, 2010

Tudo começou em 2006. Devido à boa projeção dos livros dos Jovens Escribas, os escritores Xico Sá e Marcelino Freire nos convidaram a lançar todos em São Paulo. Marcelino também estendeu o convite para a sua nascente “Balada Literária”. Neste evento, fomos apresentados ao Claudiney Ferreira, responsável pela área de literatura da fundação Itaú Cultural.

Passou o tempo e, um ano depois, recebo um telefonema do escritor Marcelino, revelando que eu seria convidado para participar do evento “Encontros de Interrogações”, quando escritores de todo o país se reúnem para se conhecerem e discutirem caminhos que promovam a literatura Brasil afora, além de armarem interações e eventos conjuntos entre agentes literários de diferentes regiões do Brasil. Nesta edição de 2007, estavam presentes 72 autores do país.

Graças a minha presença lá, pude conhecer muitos colegas, como o mineiro Sérgio Fantini, o paraibano Lau Siqueira e o carioca Henrique Rodrigues. Ainda naquele ano lancei meu segundo livro, “É Tudo Mentira!” em Belo Horizonte, graças à boa vontade e o empenho do Fantini e de outros amigos mineiros que me receberam, agendaram o lançamento pra uma livraria bem legal, fizeram uma assessoria de imprensa profissional, me botaram pra dar palestra na UFMG e entrevista pras TVs e jornais. Enfim, um grande êxito.

Em 2009, numa tarde de trabalho, o Henrique Rodrigues me fez uma pergunta no MSN: “Você gostava da Legião Urbana?” Diante da minha resposta positiva, ele me disse: “Então você pode participar de um projeto que estou desenvolvendo.”

O projeto era a publicação de um livro de contos baseados nas letras das canções da Legião. A intenção de Henrique era incluir escritores de todo o Brasil e não apenas de Rio, Sampa e Porto Alegre, como costuma acontecer nas coletâneas literárias das grandes editoras. Daí, seu interesse em convidar este escriba natalense que vive tão longe das capitais.

Eu topei. Escrevi o conto baseado na música “Faroeste Caboclo”, prestei uma homenagem a Nícolas Behr através de várias citações e, meses depois, após ter minha história aprovada pelo organizador e pelos editores da Record, eu estava assinando meu primeiro contrato. O nome do livro seria “Como se não houvesse amanhã”, reuniria autores de Natal, Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Jaraguá do Sul, Salvador, Belo Horizonte, Goiânia, Porto Alegre e Curitiba. O lançamento nacional seria no dia 27 de março de 2010 no Rio de Janeiro, data em que o Renato Russo completaria 50 anos.

Henrique Rodrigues, o organizador do livro.

Comprei passagem, arrumei as malas e rumei para o Rio. Aproveitei para passar 4 dias na cidade, rever um monte de amigos e ainda resolver umas coisas importantes. Que amigos foram esses e que coisas importantes eu fiz, conto na sequência.

CONTINUA

Coluna da Digi # 31 – A Decadência é azul.

março 30, 2010

No dia 28 de abril de 2008, publiquei mais uma crônica sensível e intimista que agradou alguns leitores do portal da Diginet. Falava de solidão, melancolia, refúgios entorpecentes. Nesta retrospectiva que publico aqui, chegou a vez dela, justamente poucos dias antes de eu publicar a coluna da Digi número 100.

Boa leitura:

***

A decadência é azul.

A vida se esvaindo entre os dedos, o tempo passando lentamente, os goles ávidos e vigorosos, pretensos catalisadores do tempo, supostos aceleradores do relógio, inúteis analgésicos da alma. Paliativos insignificantes para sintomas odiosos.

Todo dia é dia, quanto mais cedo, melhor. Antes das 9 da manhã, o uísque já desce macio, goela abaixo, corpo adentro. Empreendem uma fuga alucinada em direção a lugar nenhum. Os olhos vagueiam e já não enxergam horizontes, de expressão vazia, contemplam o nada que toma conta de seus dias.

A existência embebida em álcool recebe um componente extra de melancolia, corrosivo e explosivo ao mesmo tempo, que comprime as mentes ociosas, começando por eliminar qualquer indício de projetos futuros e terminando por fulminar os derradeiros resquícios de perspectivas. Os homens criam uma película isoladora cada vez mais espessa e se afastam de tudo aquilo que os define, que determina o que e quem eles são: família, amigos, hábitos e costumes. Tornam-se arremedos de si mesmos, atormentados por fantasmas de um futuro que nunca vem, jamais chega e, se vier, não traz nada de animador.

Passando pelas calçadas do bar, vejo aqueles distintos senhores mergulharem voluntariamente num poço sem fundo, vitimando a dignidade, desistindo de viver. Suicídio em conta-gotas e em goles sem conta, alegoria do fim que se aproxima, implacável, avassalador.

As paredes azuis são da cor da tristeza, dando o tom dos sentimentos liquefeitos, adornando o ambiente, esta mórbida sala de espera. E os senhores, consumidos pelos dias, desgastados, acabados, aguardam. Esperam a morte chegar, sem perceber que ela já os alcançou. Azul é a cor da vida que não é vida. Azul é a cor dos espectros de homens que já não são. Azul é a cor daqueles que já não existem mais.

“Como se não houvesse amanhã”. Lançamento RJ.

março 23, 2010

No próximo dia 27 de março, sábado, o líder da banda Legião Urbana completaria 50 anos se vivo fosse. Para relembrar o ídolo do Rock nacional falecido prematuramente em 96, a editora Record organizou uma coletânea de contos de autores de todo o Brasil baseados nas canções do grupo. Entre os 20 convidados, que incluem o mineiro Sérgio Fantini, o carioca Marcelo Moutinho e vários outros, estou eu, representando o RN.

Por isso, divulgo aqui no blogue a capa do livro e o convite para o lançamento, caso vocês possam indicar para algum amigo ou parente que esteja em terras cariocas próximo sábado. Será a partir das 19h na Cinemathéque, em Botafogo.

Fiquei muito feliz com a participação e já adianto que haverá um lançamento também em Natal. Quando eu marcar a data, eu aviso a todos.

Coluna da Digi # 30 – O Candidato que diz a verdade.

março 22, 2010

A coluna que republico hoje foi postada originalmente no dia 22 de abril de 2008. É  de número 30 na Digi. Eu pulei a 29 porque tratava do filme “Cheiro do ralo”, baseado na obra do Lourenço Mutarelli e achei que estivesse por demais datada. Acredito, inclusive que a atual se encaixe mais ao espírito de sátira que paira sobre meus espaços virtuais desde a semana passada com mais um caso de texto viral que produzi com “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ!” Boa leitura e ótimas risadas.

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O Candidato que diz a Verdade.

Leitores da Digi e povo potiguar, eu gostaria de lançar oficialmente minha candidatura para Deputado Federal. Meu objetivo como parlamentar, ou minha plataforma de campanha, como dizem os políticos, será pegar o máximo de atrizes globais gatíssimas e celebridades gostosas que eu puder. E para conseguir tal feito, conto com a sua ajuda e, claro, o seu voto. Não pretendo legislar, apresentar projetos de lei, correr atrás de verbas que não sejam para mim mesmo nem participar de nenhuma CPI. Na verdade, vou passar mais tempo no Rio de Janeiro, gastando o dinheiro de vocês do que em Brasília trabalhando.
Serei visto toda semana com uma beldade diferente: na praia com a Piovanni, no restaurante com a Aline Morais, na quadra da escola de samba com a Juliana Paes, no rodízio de massas com a Preta Gil. Quando chegar a época do Carnatal, eu vou pegar todas as modelos de fora que aportem por aqui, mandar buscá-las no hotel com direito a escolta de batedores da PM e trazê-las direto para o meu camarote.

Ora, pelo menos seria uma campanha sincera e um mandato transparente. Meus eleitores vão poder acompanhar cada passo que eu der. Não pela Hora do Brasil ou Diário Oficial, mas pela Caras, pelos sites de fofoca, pela Contigo. Eu não vou ficar dando bobeira no plenário. Vou estar sempre numa balada, numa festa VIP, num camarote de cervejaria.
Também exibirei toda a minha paquidérmica burrice, descomunal futilidade e abjeta ignorância em entrevistas constrangedoras para veículos sérios, que o bom senso me recomendaria recusar, mas minha vaidade desmedida e deslumbre de novo-político não permitirá.

Não vou dar a mínima pelota pra secas, enchentes, fome ou miséria! Do povo, eu só quero duas coisas: voto e distância. É que a minha alma mesquinha, individualista, dominada por interesses vis e torpes, faz com que eu seja incapaz de fazer qualquer coisa que seja pelo bem de outras pessoas. A cada dia que passa, me preocupo menos com os outros, sobretudo nos que precisam de assistência. Não gosto de pessoas humildes, mas adoro mulheres bonitas, gostosas e famosas. Adoraria ser eleito Deputado Federal.

A verdade é que eu sou um nome mais que adequado para ocupar um cargo público de tal magnitude, preencho todos os requisitos necessários para ser um bom parlamentar do novo milênio e, chego a dizer, sou um protótipo perfeito de um político potiguar. Avaliem por si mesmos: sou egoísta, insensível, ganancioso e mulherengo. Quem, em sã consciência, não votaria em mim?

Encerro este texto, fazendo o último apelo. Na hora de escolher seu candidato a Deputado, vote naquele que não vai fazer porra nenhuma por você. Sendo mais específico, vote em mim. Pelo menos, você terá a certeza de que eu estou dizendo a verdade.

Esqueçam a cultura! por Paulo Celestino

março 19, 2010

Recebi um e-mail do jornalista potiguar Paulo Celestino que há 11 anos mora em São Paulo. Ele escreveu o texto que segue inspirado no recente episódio do rapaz que retirou um terço do corpo. Propõe uma reflexão muito boa sobre o tema e aproveito para dividir aqui com vocês.

Paulo Celestino. É o de óculos.

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Esqueçam a cultura!

Olha, não é de hoje que vejo e ouço reclamações sobre a cultura potiguar, para não ser mais específico a natalense. São sim muitos os motivos, não é simples histeria, nem um simples fantasma, criação louca ou artística nossa. Sim, há necessidade urgente de se incentivar mais a cultura, a sua produção, manutenção e principalmente dar os devidos subsídios para se manter a memória artístico-cultural da capital e do estado.

Mas que tal esquecer a cultura? Faz tempo fala-se na decadência artístico-cultural da cidade. Já vi grandes nomes, verdadeiros artistas, ou outros que, apesar da indicação política, tinham muito boa vontade nestes cargos responsáveis pelo  incentivo e manutenção da tal cultura potiguar. Só um relatório mais preciso vai nos dar a exata dimensão do que avançamos ou regredimos ao longo desses anos. Careço dele, nem sei se existe. Mas essa não é a questão.

Claro, há muita gente medíocre, simples capachos nestas funções em troca de míseros níqueis. Mas a impressão é de que também há uma enorme perda de tempo numa espera pelo tal do “milagre”. Por que se é de milagre que se precisa, que ele se opere pelas mãos dos próprios artistas. De outra forma, já sabemos o resultado. Já esperamos o suficiente. Não vai vir! Não há esse salvador ou coisa salvadora da cultura natalense. A não ser a vontade, inspiração, força e união dos próprios artistas. Ou seja, pela sua própria arte.

Ao longo deste tempo (vamos lá, coisa de uns 10-12 anos) vi grandes e geniais artistas minguarem pela espera do tal apoio, patrocínio, movimento, milagre etc. Mas também vi movimentos muito interessantes, pessoas se articulando, trabalhando de forma autônoma, ganhando seus prêmios, projetando-se até mesmo para o tão desejado “além muros” da província, indo além. São enormes as possibilidades de bolsas, incentivos e patrocínios culturais governamentais e empresariais, concursos nacionais e mundiais (agora que Natal é tão globalizada!), mostras e por aí vai. Vejo pessoas se “dando bem” nisso. E muito honestamente para dirimir qualquer dúvida.

Por isso, quero contribuir com este saudável debate com a mensagem de que esqueçam a cultura, mas não esqueçam de fazer arte. Dessa que nos liberta, que nos dá tesão, que nos expressa, que nos rasga, que nos faz sinceros, que nos livra da “boa vontade” dos senhores da casa-grande, ops…dos prefeitos e governadores tão bonzinhos que nós temos.

Sim, há um ebó, um nó, e é preciso desfazê-lo. Mas, ainda bem, ebó também é conhecido como trabalho. E só com muito trabalho é que vamos desfazê-lo.

Portanto, mais uma vez, esqueçamos a tal da “cultura”. Mas não esqueçamos de fazer arte!  

Paulo Celestino

Coluna da Digi # 28 – A maldição do sol.

março 18, 2010

No dia 31 de março de 2008, a crônica “A Maldição do sol” propôs uma reflexão inusitada a respeito da cultura natalense baseada num questionamento do mestre Pablo Capistrano. Ficou marromeno, mas tá valendo a republicação.

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A Maldição do Sol.

O escritor Pablo Capistrano tem uma teoria interessantíssima sobre nossa cidade. Ele acredita que o sol inclemente que brilha, encanta e derrete o nosso juízo na peleja diária de viver nesta Natal é o grande responsável por uma certa infertilidade cultural, um inibidor da prosperidade.

Segundo Pablo, o sol, o mar, as praias e todas as belezas naturais que nos rodeiam, mantém-nos reféns de uma estética antiproducente, cultivando em nós uma certa indolência potiguar. Tal sentimento faz com que nos voltemos para o mar, como hipnotizados, atordoados e percamos a concentração necessária para a produção.

Certa vez, em sua brilhante e sepultada coluna na Revista Foco, o jornalista Marcus Vinícius escreveu: “Existe uma caveira de burro enterrada sob a cultura de Natal. Eu vou encontrá-la!” Talvez possamos concluir através da teoria capistraneana que a caveira de burro não esteja sob nossos pés, mas acima de nossos cocurutos, sob forma de radiação, gás e luminosidade.

O fato é que tudo o que se faz por essas bandas é mais difícil, demanda enorme sacrifício, é fruto de um esforço hercúleo que faz a Odisséia de Ulisses parecer um passeio pelo Bosques dos Namorados.

Outro dia estive pensando sobre uma alardeada frase de Luís da Câmara Cascudo que diz: “Natal nem consagra nem desconsagra ninguém”. Perguntei a dois dos maiores entendidos em Cascudo, durante o Encontro Potiguar de Escritores, o que ele queria dizer. Ana Maria Cascudo, autora, pesquisadora e filha do homem, contou o contexto em que a frase foi dita, quando seu pai se recusou a responder críticas ácidas e ataques de um jornalista da província. Diógenes da Cunha Lima, presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras, biógrafo do autor e para quem Cascudo é um rio e “Todos os outros intelectuais de Natal são riacho.” revelou que Cascudo só veio a ser reconhecido em Natal após ser editado e publicado nacionalmente por Monteiro Lobato e ter tido a obra lançada no exterior. “No caso dele, a frase é verdadeira. Só foi reconhecido aqui depois de ganhar destaque fora.”

Este é um fenômeno comum em Natal. Quem sabe também decorrente da maldição do sol. Nossa natureza privilegiada, clima favorável e evidente vocação turística fez de nós o povo mais acolhedor do Brasil. Por isso recebemos tão bem quem vem de fora. Mesmo que esse forasteiro seja um de nós.

Volto ao início do texto, à citação que fiz a Pablo Capistrano e sua original teoria. O mesmo Capistrano afirmou certa vez que o escritor deve trabalhar para divulgar sua obra na sua cidade de origem, pois só quando valorizado por seus conterrâneos, ele pode se dar ao luxo de mostrar seus textos fora com o mínimo alicerce para isto. Certamente uma postura destemida deste que é um dos melhores escritores potiguares e sabe-se condenado a enfrentar os efeitos nefastos de uma terrível maldição solar.

Em Natal, o sol brilha para todos.

Coluna da Digi # 27 – Texto Lento

março 17, 2010

Esse texto foi escrito no meio de uma correria danada, no meu bloquinho de anotações de ideia, em meio a uma fila dessas que nos fazem perder tempo precioso de nossas vidas. Publicada no dia 19 de março de 2008, ele acabou, involuntariamente gerando uma trilogia de crônicas (completada depois com “Texto Silencioso” e “Texto Rápido”) todas publicadas na Digi e que postarei aqui mais adiante. É mais um de temática sensível e, bem, espero que gostem.

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Texto Lento

Eu queria escrever uma crônica lenta, cadenciada, suave, sem pressa, gritaria, histeria e dia-a-dia. Uma crônica marcada, compassada, como uma valsa, um pra lá, dois pra cá, um pra lá, dois pra cá. Não seria triste, nem melancólica, apenas teria um ritmo diferente do que tenho visto por aí. Seria feliz, mas de uma alegria contida, autêntica, bela. Algo bucólico, com cheiro de chuva, de grama molhada, suja de areia, queimada de sol, impregnada de sal.

Eu queria escrever um texto gostoso como um abraço demorado, agradável como um fim de tarde entre amigos, necessário como um poema, revigorante como uma sesta. Um texto que provocasse bem-estar com o efeito multiplicador de um sorriso, a espontaneidade de um elogio sincero e desinteressado, o impacto de uma surpresa boa.

Eu queria escrever algo que fosse um elogio ao ócio, um tratado do descanso, um manifesto do direito sagrado da preguiça dominical ou do sono fora de hora. Um documento sobre o pôr-do-sol no Potengi ou o nascer da lua em Ponta Negra, que transmitisse em poucas linhas o silêncio reconfortante, a leveza de um carinho, a sensação de liberdade que só uma rede na sombra pode dar.

Uma crônica para ser lida em câmera lenta. Que despertasse reações serenas, mas duradouras. Queria ordenar palavras de tal maneira, com tal maestria que elas ganhassem o sabor daquele beijo que você tanto batalhou, muito ansiou e finalmente conquistou.

Eu queria escrever um texto bonito. Um lava-jato da alma como uma boa ação, um gol no finalzinho, um telefonema inesperado no meio da noite. Eu queria escrever uma crônica que pudesse dar sua modestíssima contribuição para que, por uma minúscula fração de tempo, um instante que seja, provoque a ligeira sensação de tornar o seu dia um pouquinho melhor.

Eu queria.

Juro que queria.

Mas como não consegui, acho bom você se contentar com esse mesmo.

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Para todos aqueles que estão na correria, que foram dominados pelo estresse, que ficaram presos no trânsito a caminho do trabalho, que são publicitários e que vêem essa cidade crescer em ritmo incômodo e acelerado.

E agora, Brasil?

março 16, 2010

E essa história de que agora o Brasil é uma potência, hein? A verdade é que nos custa a adaptar. Nossos, agora colegas, os países ricos convidam para as festas mais exclusivas. No encontro do G8, lá estamos nós. Na cúpula do clima de Copenhagen, nossa participação é fudamental. A Copa e as Olimpíadas? Levamos, sob o olhar resignado e de reconhecida admiração dos outros concorrentes que, no fundo, sabiam que não seriam páreos para nós. Eles apaludiam o nosso sucesso e pensavam por trás de seus sorrisos: “Ah, como nós queríamos ser como eles…” No meio de um encontro, a Alemanha nos chama a um canto e nos conta um segredo e até (por Deus!) pede uma opinião. Quando confraternizamos com os nossos iguais no meio do salão, aparece os Estados Unidos, apontam para nós e dizem para todos ouvirem: “Vocês são os caras!”

O Brasil aceita os convites com alegria e transborda toda a sua simpatia característica, quebrando seguidamente cisudos e cerimoniosos protocolos. De vez em quando, faz uma metáfora espirituosa e arrisca até uma sambadinha. Os outros riem e, mais uma vez, nos admiram pela espontaneidade. Todos parecem muito felizes com a nossa chegada ao clube. Na verdade, os únicos que parecem um pouco incomodados com isso somos nós, os próprios brasileiros.

E não é por mal, nem uma demonstração tardia e pós-rodrigueana de síndrome de viralatas, mas é que nós, os filhos do Brasil (assim como Ele), não estamos lá muito bem resolvidos com essa situação. Desde que éramos pequenos (em vários sentidos) nos diziam que éramos pobres, subdesenvolvidos, que nossa economia era fraquinha, que a hiperinflação não tinha jeito, que até tínhamos potencial, mas infelizmente não daria para desenvolvê-lo nesta encarnação. Éramos o país do futuro. E o futuro, como se sabe, não acontece hoje. Essa era a nossa realidade: a de povo pobre, mas limpinho que usava nossa supremacia futebolística para brincar um pouco de soberba. O refrão de “Inútil”, do Ultraje era o nosso hino nacional extraoficial.

Aí, de repente a gente cresceu. Nossa voz mudou e passou a ser ouvida, ganhamos corpo frente às outras nações e, apesar de desajeitados com nossas novas dimensões, tentamos nos adaptar. Os países ricos nos olharam e disseram orgulhosos: “Gente, olha só o Brasil. Eu conheço desde que o PIB era deste tamanhinho.” A partir daí começa o nosso conflito adolescente em busca da sua identidade. Estamos crescendo mais rápido que esperávamos e ainda não decidimos se vamos ser Bélgica ou Índia.

Diante de tanta pressão o Brasil senta à mesa de um boteco (ou no balcão de um pub irlandês) e resolve desabafar com um dos novos amigos europeus. A Espanha, digamos. Começam falando amenidades, contam uma que outra piada e, a certa altura da conversa, o Brasil solta a frase que já lhe sai tão automática por força do hábito: “é que eu, como sou um país pobre…” A Espanha dispara um olhar severo, chama a atenção do gigante verde e amarelo (“você é pobre? Você?!”) e começa a enumerar suas desgraças recentes, aparentemente mais graves que as nossas. Para serenar os ânimos e desfazer a tensão, o Brasil resolve mudar de assunto. “Falemos agora de futebol. Esse ano tem Copa, nossa seleção é uma das favoritas…” Mais uma vez ele é fuzilados pelo olhar inquisidor espanhol. “Vocês favoritos? Esse ano não tem pra ninguém! A Espanha é favorita e nenhuma seleção do mundo está no nosso nível de excelência individual, coletivo e ainda com tantos craques jovens despontando.”

E aí a coisa se torna ainda pior. Se antes a possibilidade de o mundo estar de cabeça para baixo não passava apenas de uma hipótese possível, agora se converte em certeza irrefutável. O Brasil está entre as melhores, mais estáveis e sólidas economias do mundo, porém não é mais o país do futebol. Como se vê, a coisa é mais grave do que parece. Nos custa a entender esse mundo. Precisamos de uma explicação lógica e plausível. Alguma coisa está muitíssimo fora da ordem. Mas agora que somos ricos, pelo menos já podemos pagar a terapia.

Coluna da Digi #26 – Nós amamos as mulheres.

março 15, 2010

No dia 03 de março de 2008, para homenagear as mulheres, publiquei esta crônica que agradou bastante o público feminino. Ela segue uma linha mais sensível e intimista de outros textos como “Eu vi o amor”. Volto das férias (infelizmente prolongadas) que tive e passo a publicar novamente as colunas da Digi aqui no blogue, nessa retrospectiva bacana, agora que me aproximo da coluna de número 100 por lá.

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Nós amamos as mulheres.

Nós, homens, amamos as mulheres. Sim, isso mesmo. Por mais estranho que essa frase possa parecer nesses tempos modernos, essa é a verdade. Amamos sim. Brokeback Mountain fica muito distante daqui. Eu, hein? Nós gostamos mesmo é de mulher. Com todas as suas complicações, jeitos e manias, elas se tornam irresistíveis para nós. E isso vem de muito tempo. É só lembrar daquela professora de colégio que alimentava nossas mentes mais do que poderia supor e, claro, também nossos corações. Dizem que elas complicam as coisas simples da vida, mas temos que admitir: que graça teria a vida se tudo fosse fácil demais?

E olhe que nosso amor é incondicional. Pois não entendemos nada sobre elas e mesmo assim gostamos. Adoramos mesmo sem entender. É quase uma devoção, um dogma de fé inquestionável. Fé nas coxas, no brilho dos olhos, no canto da sereia de suas belas vozes, no piercing no umbigo. Minha nossa! O PIERCING NO UMBIGO! Esse negócio de querer entender as mulheres é coisa de acadêmico, intelectual, estudioso. Homem que é homem já se resignou e desistiu. De mulher a gente gosta. E ponto!

Porque legal mesmo é compartilhar as boas coisas com elas. As melhores músicas, sorvete no peso, beijos, carícias, sexo com amor e, claro, sexo casual. Falem sério! É bom pra vocês também.

Devo confessar, por exemplo, que é um charme vê-las demorando horas para ficar prontas, se arrumando para nós. Cada minuto de espera se converte num suplício eterno, uma espera interminável, suspense hitchcockiano, mas brindado pelo instante redentor, quando ela se revela linda e diz palavras mais mágicas que mil “abracadabras”: “Estou pronta!”

E os ciúmes, hein? Quando vão perceber que elas é que são as jóias? Diamantes lapidados de brilho que cega e hipnotiza. Então por que ter ciúmes de nós? Ouro de tolo, prataria barata supervalorizada. Só pode ser charme, tenho certeza. Ninguém se daria ao trabalho de ter ciúmes de nós. Pura especulação de mercadoria para nos dar uma falsa sensação de valorização.

Insanidade. Esse é o efeito mais claro que elas nos causam. Suas técnicas para nos tirar qualquer indício de autocontrole são apuradíssimas. Desenvolvidas desde muito tempo. Basta lembrar a matriarca de todas elas. Eva disse: “E aí, Adão? Vai morder a maçã ou vai ficar só de conversinha?” “Sei não, meu amor. Lembre do que Ele falou…” “Se você der só uma mordidinha, prometo que você não vai se arrepender.” Adão cedeu e vocês já sabem no que deu. Mas nem assim aprendemos a lição. E ainda hoje, mordemos mil maçãs sem perguntar nada.

Enfim, elas nos deixam loucos. Como conviver com todos os “sims” que querem dizer “nãos”? “Claro, meu amor. Pode ir jogar bola com seus amigos. A gente se vê mais tarde sem problema.” E aí, você volta mais tarde e encontra, não a sua amada, mas o mau humor personificado e assiste de camarote o espetáculo do incrível ciúme da bola e dos amigos.

Mas é exatamente por tudo isso que nós somos loucos por elas. Porque depois de cada cena de ciúme, de cada torturante momento de espera que passamos, de cada confusão mental a que elas nos submetem, existe sempre um sorriso que vai fazer tudo ter valido à pena, um sinalzinho naquele lugar que a gente demarcou como nosso, uma palavra de carinho e afeto, um jeito de ser que nos cativa e encanta, coxas, seios, recônditos e reentrâncias que nos derrubam. Nocaute do coração, olho roxo de paixão. E, se a gente tiver se comportado bem nas últimas gerações, e a vida for generosa e misericordiosa conosco, uma tatuagem nas costas e um piercing no umbigo! Ah, um piercing no umbigo!

A todas as mulheres que amamos.