Coluna da Digi # 27 – Texto Lento

Esse texto foi escrito no meio de uma correria danada, no meu bloquinho de anotações de ideia, em meio a uma fila dessas que nos fazem perder tempo precioso de nossas vidas. Publicada no dia 19 de março de 2008, ele acabou, involuntariamente gerando uma trilogia de crônicas (completada depois com “Texto Silencioso” e “Texto Rápido”) todas publicadas na Digi e que postarei aqui mais adiante. É mais um de temática sensível e, bem, espero que gostem.

***

Texto Lento

Eu queria escrever uma crônica lenta, cadenciada, suave, sem pressa, gritaria, histeria e dia-a-dia. Uma crônica marcada, compassada, como uma valsa, um pra lá, dois pra cá, um pra lá, dois pra cá. Não seria triste, nem melancólica, apenas teria um ritmo diferente do que tenho visto por aí. Seria feliz, mas de uma alegria contida, autêntica, bela. Algo bucólico, com cheiro de chuva, de grama molhada, suja de areia, queimada de sol, impregnada de sal.

Eu queria escrever um texto gostoso como um abraço demorado, agradável como um fim de tarde entre amigos, necessário como um poema, revigorante como uma sesta. Um texto que provocasse bem-estar com o efeito multiplicador de um sorriso, a espontaneidade de um elogio sincero e desinteressado, o impacto de uma surpresa boa.

Eu queria escrever algo que fosse um elogio ao ócio, um tratado do descanso, um manifesto do direito sagrado da preguiça dominical ou do sono fora de hora. Um documento sobre o pôr-do-sol no Potengi ou o nascer da lua em Ponta Negra, que transmitisse em poucas linhas o silêncio reconfortante, a leveza de um carinho, a sensação de liberdade que só uma rede na sombra pode dar.

Uma crônica para ser lida em câmera lenta. Que despertasse reações serenas, mas duradouras. Queria ordenar palavras de tal maneira, com tal maestria que elas ganhassem o sabor daquele beijo que você tanto batalhou, muito ansiou e finalmente conquistou.

Eu queria escrever um texto bonito. Um lava-jato da alma como uma boa ação, um gol no finalzinho, um telefonema inesperado no meio da noite. Eu queria escrever uma crônica que pudesse dar sua modestíssima contribuição para que, por uma minúscula fração de tempo, um instante que seja, provoque a ligeira sensação de tornar o seu dia um pouquinho melhor.

Eu queria.

Juro que queria.

Mas como não consegui, acho bom você se contentar com esse mesmo.

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Para todos aqueles que estão na correria, que foram dominados pelo estresse, que ficaram presos no trânsito a caminho do trabalho, que são publicitários e que vêem essa cidade crescer em ritmo incômodo e acelerado.

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Uma resposta to “Coluna da Digi # 27 – Texto Lento”

  1. Gustavo Says:

    Excelente. A estética é bastante parecida com a “A última crônica”, de Fernando Sabino, outro excelente trecho.

    Fialho, há espaço no seu blog pra eventuais, despretensiosas e descompromissadas colaborações de seus assíduos leitores?

    Abraço

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