Coluna da Digi # 28 – A maldição do sol.

No dia 31 de março de 2008, a crônica “A Maldição do sol” propôs uma reflexão inusitada a respeito da cultura natalense baseada num questionamento do mestre Pablo Capistrano. Ficou marromeno, mas tá valendo a republicação.

***

A Maldição do Sol.

O escritor Pablo Capistrano tem uma teoria interessantíssima sobre nossa cidade. Ele acredita que o sol inclemente que brilha, encanta e derrete o nosso juízo na peleja diária de viver nesta Natal é o grande responsável por uma certa infertilidade cultural, um inibidor da prosperidade.

Segundo Pablo, o sol, o mar, as praias e todas as belezas naturais que nos rodeiam, mantém-nos reféns de uma estética antiproducente, cultivando em nós uma certa indolência potiguar. Tal sentimento faz com que nos voltemos para o mar, como hipnotizados, atordoados e percamos a concentração necessária para a produção.

Certa vez, em sua brilhante e sepultada coluna na Revista Foco, o jornalista Marcus Vinícius escreveu: “Existe uma caveira de burro enterrada sob a cultura de Natal. Eu vou encontrá-la!” Talvez possamos concluir através da teoria capistraneana que a caveira de burro não esteja sob nossos pés, mas acima de nossos cocurutos, sob forma de radiação, gás e luminosidade.

O fato é que tudo o que se faz por essas bandas é mais difícil, demanda enorme sacrifício, é fruto de um esforço hercúleo que faz a Odisséia de Ulisses parecer um passeio pelo Bosques dos Namorados.

Outro dia estive pensando sobre uma alardeada frase de Luís da Câmara Cascudo que diz: “Natal nem consagra nem desconsagra ninguém”. Perguntei a dois dos maiores entendidos em Cascudo, durante o Encontro Potiguar de Escritores, o que ele queria dizer. Ana Maria Cascudo, autora, pesquisadora e filha do homem, contou o contexto em que a frase foi dita, quando seu pai se recusou a responder críticas ácidas e ataques de um jornalista da província. Diógenes da Cunha Lima, presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras, biógrafo do autor e para quem Cascudo é um rio e “Todos os outros intelectuais de Natal são riacho.” revelou que Cascudo só veio a ser reconhecido em Natal após ser editado e publicado nacionalmente por Monteiro Lobato e ter tido a obra lançada no exterior. “No caso dele, a frase é verdadeira. Só foi reconhecido aqui depois de ganhar destaque fora.”

Este é um fenômeno comum em Natal. Quem sabe também decorrente da maldição do sol. Nossa natureza privilegiada, clima favorável e evidente vocação turística fez de nós o povo mais acolhedor do Brasil. Por isso recebemos tão bem quem vem de fora. Mesmo que esse forasteiro seja um de nós.

Volto ao início do texto, à citação que fiz a Pablo Capistrano e sua original teoria. O mesmo Capistrano afirmou certa vez que o escritor deve trabalhar para divulgar sua obra na sua cidade de origem, pois só quando valorizado por seus conterrâneos, ele pode se dar ao luxo de mostrar seus textos fora com o mínimo alicerce para isto. Certamente uma postura destemida deste que é um dos melhores escritores potiguares e sabe-se condenado a enfrentar os efeitos nefastos de uma terrível maldição solar.

Em Natal, o sol brilha para todos.

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Uma resposta to “Coluna da Digi # 28 – A maldição do sol.”

  1. Daliana Cascudo Says:

    Prezado Carlos Fialho:
    Belíssima crônica e análise afiada da realidade cultural potiguar…
    A “maldição do sol” existe e atinge a todos nós, que precisamos mostrar, demonstrar e reafirmar que temos valor na área intelectual…
    Não somos apenas “sol e mar”… Somos Cascudo, Nisia Floresta, Auta de Souza, Ferreira Itajubá e também (porque não???) Carlos Fialho, Pablo Capistrano e vários escritores contemporâneos e talentosos.
    Um grande abraço
    Daliana Cascudo

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