Esqueçam a cultura! por Paulo Celestino

Recebi um e-mail do jornalista potiguar Paulo Celestino que há 11 anos mora em São Paulo. Ele escreveu o texto que segue inspirado no recente episódio do rapaz que retirou um terço do corpo. Propõe uma reflexão muito boa sobre o tema e aproveito para dividir aqui com vocês.

Paulo Celestino. É o de óculos.

***

Esqueçam a cultura!

Olha, não é de hoje que vejo e ouço reclamações sobre a cultura potiguar, para não ser mais específico a natalense. São sim muitos os motivos, não é simples histeria, nem um simples fantasma, criação louca ou artística nossa. Sim, há necessidade urgente de se incentivar mais a cultura, a sua produção, manutenção e principalmente dar os devidos subsídios para se manter a memória artístico-cultural da capital e do estado.

Mas que tal esquecer a cultura? Faz tempo fala-se na decadência artístico-cultural da cidade. Já vi grandes nomes, verdadeiros artistas, ou outros que, apesar da indicação política, tinham muito boa vontade nestes cargos responsáveis pelo  incentivo e manutenção da tal cultura potiguar. Só um relatório mais preciso vai nos dar a exata dimensão do que avançamos ou regredimos ao longo desses anos. Careço dele, nem sei se existe. Mas essa não é a questão.

Claro, há muita gente medíocre, simples capachos nestas funções em troca de míseros níqueis. Mas a impressão é de que também há uma enorme perda de tempo numa espera pelo tal do “milagre”. Por que se é de milagre que se precisa, que ele se opere pelas mãos dos próprios artistas. De outra forma, já sabemos o resultado. Já esperamos o suficiente. Não vai vir! Não há esse salvador ou coisa salvadora da cultura natalense. A não ser a vontade, inspiração, força e união dos próprios artistas. Ou seja, pela sua própria arte.

Ao longo deste tempo (vamos lá, coisa de uns 10-12 anos) vi grandes e geniais artistas minguarem pela espera do tal apoio, patrocínio, movimento, milagre etc. Mas também vi movimentos muito interessantes, pessoas se articulando, trabalhando de forma autônoma, ganhando seus prêmios, projetando-se até mesmo para o tão desejado “além muros” da província, indo além. São enormes as possibilidades de bolsas, incentivos e patrocínios culturais governamentais e empresariais, concursos nacionais e mundiais (agora que Natal é tão globalizada!), mostras e por aí vai. Vejo pessoas se “dando bem” nisso. E muito honestamente para dirimir qualquer dúvida.

Por isso, quero contribuir com este saudável debate com a mensagem de que esqueçam a cultura, mas não esqueçam de fazer arte. Dessa que nos liberta, que nos dá tesão, que nos expressa, que nos rasga, que nos faz sinceros, que nos livra da “boa vontade” dos senhores da casa-grande, ops…dos prefeitos e governadores tão bonzinhos que nós temos.

Sim, há um ebó, um nó, e é preciso desfazê-lo. Mas, ainda bem, ebó também é conhecido como trabalho. E só com muito trabalho é que vamos desfazê-lo.

Portanto, mais uma vez, esqueçamos a tal da “cultura”. Mas não esqueçamos de fazer arte!  

Paulo Celestino

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