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Simples Filosofia – Trechos

abril 7, 2010

Enquanto eu não escrevo a crônica sobre o livro “Simples Filosofia” de Pablo Capistrano, separei aqui alguns trechos da obra para dividir com vocês. Separei por crônicas e publico aqui na ordem em que saíram na obra.

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Mamãe Literatura

“A idéia é que os filósofos seriam então inimigos dos poetas, e que buscavam produzir uma espécie de “matemática com palavras”, um mecanismo de argumentação e investigação da natureza que pudesse oferecer um conhecimento livre de devaneios imaginativos, baseado numa estrutura lógica de argumentação.”

“Friedrich Nietzsche, no século XIX, desconsiderou a interpretação matematizante e cientificista dos positivistas, levando a idéia de que a filosofia era, na verdade, uma forma de literatura, um tipo de escritura, de mitologia branca.”

Tudo passa.

“O que a dialética nos ensina é que nada permanece o mesmo todo o tempo. Que as coisas mudam, tudo é transitório e tudo carrega em si o seu contrário. A vida já é o começo da morte. O frio traz em si as marcas do calor, assim como o calor traz em si as possibilidades de frio. Os pedaços da obra de Heráclito fizeram Hegel pensar que tudo está contido no fluxo do tempo e que, mediante esse fluxo, tudo se transforma no seu oposto.

Um corpo vigoroso e firme, um dia, será seu cadáver. O calor da fogueira será, brevemente, substituído pelo frio de suas cinzas. Tudo passa, tudo flui. Panta re, panta corei.”

 Filósofos e juízes

 “Falar de filosofia na linguagem de gente normal é uma tarefa difícil. Às vezes mais difícil que falar de filosofia na linguagem técnica de um filósofo. É como pedir a um neorocirurgião que explique para a dona de casa e o estudante de nível médio brasileiro, no jornal de meio-dia na TV, a diferença entre aneurisma cerebral e derrame.

No fim das contas é necessário algum poder de síntese, alguma falta de pudor em falar as coisas de modo impreciso, certo descompromisso saudável com o rigor dos conceitos, uma boa dose de humor e uma leve e distante vontade de que as pessoas entendam o que você está dizendo.

Ou seja, tudo aquilo que um filósofo acadêmico despreza. Mas a filosofia é assim mesmo. Ela ama se esconder. Quanto mais você corre atrás dela, mais parece que ela foge de você. Por isso, na origem, o termo “filósofo” ganhou essa conotação: “amante do saber”.”

O que é uma vaca?

“A verdade não está no que a gente vê, mas sim naquilo que a nossa mente pode compreender.”

O rei filósofo

“ – Professor, o senhor é um homem tão inteligente! Vai votar num analfabeto?  – Naquele momento o meu produtor automático de respostas rápidas funcionou. Ele é ótimo quando alguém diz alguma coisa revoltante ou que nós consideramos descabida e que exige uma resposta rápida.

– Minha filha – eu disse –, depois de oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso, desconfio de qualquer um que tenha terminado a 4ª série.”

“Por isso, eu e Platão partilhamos de tipos diferentes de desânimo. Ele, um desânimo com a política real (depois que o filho do rei de Siracusa começou a matar as aulas de metafísica para assistir às corridas de cavalos, tomar vinho e curtir belas mulheres, numa versão clássica do trinômio agroboy: cachaça, vaquejada e mulher). Eu, que acreditei em 1994 que o Brasil poderia ter seu rei filósofo, aprendi a desconfiar dos intelectuais, especialmente quando eles se candidatam a presidente.”

O homem é bom?

“Aristóteles nos mostra que nós apenas somos humanos quando somos justos e que perdemos a nossa humanidade quando não conseguimos saber a medida justa das coisas.

A abstinência completa de álcool é tão equivocada quanto a embriaguez contumaz. A felicidade está em saber o justo meio termo para cada situação.”

A arte de cultivar jardins

“Filho da ausência, o desejo é um tipo de prazer diante daquilo que não se tem. Desejar é sofrer diante da ausência. Quando eu quero aquela moto, aquele apartamento com vista para o mar, ou aquela bolsa chique, ou aquela modelo gostosa da propaganda de cerveja, eu quero o que não tenho e isso me leva a um estado de ansiedade e intranqüilidade que me tira do eixo.

Por isso é importante para o consumo num grande shopping que o desejo das pessoas seja ativado mediante um conjunto de mecanismos artificiais de produção de necessidades. Diante da ansiedade do desejo, seu comportamento se transforma e você usa mais, fala mais, olha mais, bebe mais, corre mais, come mais, gasta mais e pensa menos.”

“Para  Epicuro, feliz é o homem que busca os prazeres naturais e necessários à vida. Aquele que, ao invés de estar escravo das próprias compulsões e do consumo idiota, busca a stisfação naquilo que tem e não a ansiedade por aquilo que não possui.”

“A quem não basta pouco, nada basta.”

A senhora fortuna

“Pensar sobre isso (um acidente de avião, por exemplo) incomoda porque nos lança sobre a evidência de nossa própria fragilidade. Somos muito pequenos diante das circunstâncias e o mundo, com seus ritmos e seu amontoado de acasos, pode, num segundo, nos oferecer muito ou nos tirar tudo.”

Um bicho esquisito

“É possível mesmo admitir que a Idade Média começou definitivamente a declinar quando a filosofia iniciou sutilmente a mudar seu objeto.

Se antes o núcleo do problema era Deus e sua revelação que precisava ser compreendida e explicada, agora o nó da questão era sua criatura mais bizarra: o homem, esse bicho esquisito.”

“Pico, o humanista mais importante do Renascimento, era, segundo fontes históricas, um sujeito rico, belo e sábio. Um “partidon” na linguagem das colunas sociais.”

 A arte de não se odiar

“Nossa neurose é a mesma do século XVI. Precisamos nos sentir adequados, enquadrados, encaixados, embalados para presente. Nosso corpo tem que estar no manequim, nosso quadril encaixar na calça. Nossas nádegas precisam estar rígidas e empinadas, nosso abdômen duro, nossas coxas torneadas, nossa silhueta esguia, ou então estaremos condenados à mais miserável infelicidade.”

“Mesmo no mais elevado trono do mundo, continuamos sentados sobre nossos cus.”

Saudades do amor

 “Somos uma civilização analfabeta na cartilha do amor.”

 “Os sábios gregos falavam de vários amores: o amor sexual do eros, o amor divino do ágape, o amor da intimidade e da afinidade no termo filia e o amor doença do pathos.”

 “Afinal, a paixão não se sustenta. Ela é fogo que arde sem se ver e é infinita só enquanto dura.”

 “Se Schopenhauer fosse vivo hoje, talvez não fosse um conselheiro sentimental muito popular.”

 “Saber transformar a paixão em amor é a chave da arte da convivência. O segredo dessa arte é nunca esquecer (como diz o poeta) que os opostos sempre se distraem, e que apenas os dispostos verdadeiramente se atraem.”

 Assim falava Friedrich Nietzsche

 “Você não vai entender Nietzsche”, foi o que ouvi do meu padrinho, dono da maior biblioteca que conheço, quando tentei ler “Assim falava Zaratustra” aos 16 anos de idade.

Realmente. Eu não entendi nada.

Mas, apesar de não ter entendido nada, senti que aquele era um texto que não poderia deixar de ser lido e relido várias vezes durante a vida.”

“O bezerro de ouro ganhou a disputa com o Deus de Abraão e a civilização da técnica, o mundo brilhante do entretenimento de massas, a sociedade do consumo e da banalidade absoluta matou o espírito do ocidente e arrancou do homem sua vontade de viver. Os mortos-vivos que passam pelas vitrines dos shoppings não têm mais como escutar os profetas, nem os poetas, nem os sábios.”

E o Brasil? Onde é que fica?

“Saber por que o Brasil exporta jogadores de futebol para todo o mundo, mas até hoje não conseguiu emplacar nenhum Prêmio Nobel não é tarefa difícil. Basta pensar em quantos jovens brasileiros dedicam suas tardes a jogar bola em campos de terra batida e quantos se dedicam a a ler Flaubert nas tardes de sábado. Veja as estatísticas e você terá a resposta.”

“O Brasil criou um curioso modelo de integração sexual que gerou criaturas híbridas e uma divisão social bastante evidente. De um lado uma massa etnicamente caótica a quem foi dado o catimbó, o samba, a capoeira e o futebol. De outro, uma elite assustada, esbranquiçada e neurastênica, que manteve em seu condomínio aristocrático o domínio do latim, o controle da religião geral (o catolicismo), do Estado (o bacharelismo jurídico) e da cultura oficial (o acesso a níveis mais altos de educação e letramento).”

Da inutilidade de tudo isso.

“Filosofia é como sexo oral. Não serve pra nada, mas é legal pra caramba.”

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Coluna da Digi # 32 – Admirável Cidade Nova

abril 7, 2010

Hoje, publiquei na Diginet a tão esperada coluna de número 100 (http://colunas.digi.com.br/carlos/coluna-100-da-digi/). Mas a contagem continua até que eu tenha republicado todas aqui no blogue. Nesta postagem, voltamos no tempo a 5 de maio de 2008. Naquela data, publiquei “Admirável Cidade Nova”, uma alegoria que comparava a realidade de Natal à retratada pelo inglês Aldous Huxley no seu livro “Admirável Mundo Novo”. Espero que gostem.

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Admirável Cidade Nova

“Pensar enlouquece!” é o que devem pensar alguns (na verdade, muitos) conterrâneos. Por isso, é bom se adaptar e seguir o fluxo, fazendo sempre o que determina o sistema, a sociedade, a moda, os outros. É essa gente bronzeada e lobotomizada sem mostrar nenhum valor, ingereindo o Soma da mesmice, dia após dia. Por que experimentar o novo? Por que procurar saber? Favor, dirija-se ao outro guichê!

Essa premissa torna a cidade estranhamente assemelhada a certos clássicos literários que retratam um futuro sombrio e ameaçador, dando ares de terra arrasada, de completa devastação e revelando frouxos princípios morais.

O lugar agora se divide em diversas zonas: a Zona Norte, onde se concentra grande parte das castas inferiores; a Zona Sul, onde residem as castas superiores, favorecidas pelo sistema; os subúrbios emergentes como Nova Parnamirim e Cidade Verde; e as curiosas Zonas Aristocráticas com indesejáveis bolsões de pobreza incrustrados, como Areia Preta e Mãe Luíza.

A população de 800 mil seres humanos é formada por castas de características diferentes, manipuladas pela lógica do Capitalismo Tropical. Nos gabinetes e altos escritórios empresariais são definidos os pouco dotados de recursos, destinados aos rigores do trabalho braçal, ao sub-emprego, à pobreza. A eles não é dado acesso à boa educação, assistência social, saúde. Geralmente são pardos, alguns negros, quase sempre fora dos padrões de beleza estabelecidos. A aparência é importante, imprescindível, determinante até. Forma é conteúdo.

Os gabinetes e altos escritórios empresariais também decidem os que crescem para comandar. Ricos, bonitos, de pele clara, bem apessoados e asseados, exibindo sorrisos brancos e brilhantes. As castas inferiores não têm qualquer poder de decisão, mas são levadas a acreditar que escolhem os comandantes. Não passam de massa de manobra.

Não há espaço para a surpresa, para o imprevisto. O diferente não é tolerado. Fugir dos padrões, quebrar paradigmas, romper com o pré-estabelecido constitui crime gravíssimo, inafiançável, passível de punições severas, olhares reprovadores, isolamento forçado.

Estamos no ano 60 depois de Bel. O pensamento é proibido e a mediocridade amplamente estimulada e praticada. O intelecto, a erudição, a alta cultura são sufocados com refrões barulhentos e repetitivos com extrema virulência e incrível eficiência. Aprender coisas novas, acostumar-se com letras desconhecidas, melodias estranhas, livros, filmes minimamente inteligentes, palavras polissilábicas demais podem causar estafa, exigindo tamanho empenho das sinapses neuronais que acabam por provocar aneurisma devido ao pouco uso. Que fiquemos com as músicas cheias de vogais e as familiares canções oitentistas que já conhecemos há quase 30 anos.

A lei do menor esforço mental impera na cidade. A disciplina e a perfeita ordem com que os cidadãos cumprem seus desígnios tornam sua realidade admirável. Somos todos treinados para viver assim, condicionados à satisfação, à felicidade, conduzidos a amar o que somos obrigados a fazer. A cidade agora se chama Nova Utopia e o futuro sombrio, tão temido no passado, encontrou lugar no presente.

“O segredo da felicidade e da virtude é amarmos aquilo que somos obrigados a fazer.”, Aldous Huxley – Admirável Mundo Novo.

Viagem ao RJ – Março de 2010 – Parte 4

abril 7, 2010

 

RJ, Sábado, 27.03.2010

Sábado seria o grande dia. Depois de três noites mal dormidas e de muita cerva nas idéias, além de compromissos diurnos que impediram algum descanso, eu teria que reunir as forças restantes e partir para um desfecho digno da maratona carioca. Acordei cansado, mas imbuído em completar a jornada com dignidade e um certo brilho. Afinal, tenho muitos amigos no RJ por ter morado um ano lá e a maioria desse pessoal, eu ainda não havia encontrado. Eles iriam ao lançamento do “Como se não houvesse amanhã” na Cinemathéque. Ainda pela manhã, Nina e eu fomos à praia. Pegar um solzinho e mergulhar no mar. Atividades providenciais quando se vai àquela cidade.

Depois, um almoço bem família com as tias Carminha, Graça, Elisabeth, o tio Muriel, o último intelectual e bem humorado do Brasil, a prima Bia com seu marido, Flávio, e o casal de amigos Evie e Diogo Salim. Almoço carioca é assim: foi até as 17h30. Depois disso, tomei um café com o amigo João Paulo Cuenca e, agora era oficial: estava atrasado para o evento de lançamento do livro.

Cheguei umas 19h30 e já tinham alguns amigos esperando por mim. Bati um papo esperto com os caras da ESPM (Rodrigo Lopes, Rafael Ramos, Ricardo Brasil e o onipresente Marcelo Dunlop), os amigos da Barra (Eduardo Pizzolato e Ronnie Markus), os natalenses foragidos (Arbel e Carlito), os familiares com quem já havia almoçado e os artistas (Flock, Panço, Arthur, Fantini e Adílson).

Ricardo, Rafael, Rodrigo e Zé Guilherme, jovens da Escola de Criação da ESPM de 2001.

Acabei que conversei pouco com os demais escritores da antologia. O pouco que falei com o Carlos Henrique Shroeder, o Maurício, a Renata Belmonte, o Alexandre Plosk e todos os demais foi bem legal, mas a bateria acabou lá pela 1h da manhã. Era hora de voltar pra casa, dormir e me preparar pra voltar a Natal.

A foto é emblemática. Um autor potiguar buscando espaço no cenário literário nacional. Tem que ser pelas beiradas mesmo. 🙂

Antes de partir, porém, deixei um material na mão da equipe da Editora Record e, na manhã de domingo, claro, foi dia de ir de novo à praia com Nina que, depois de dois dias de exposição ao sol, estava mais morena que as mulatas do Ilan.

Missão cumprida. Volta tranqüila. Segunda voltei ao trabalho cheio de serviços acumulados. Mas valeu muito a pena. Tomara que eu volte logo e por mais tempo.

SERVIÇO: Muita gente tem comentado a respeito do livro e perguntado onde podem adquiri-lo. Por isso já informo todo mundo que ele pode ser comprado em qualquer livraria. Se não tiver, basta encomendar aos vendedores que ele chega rapidinho, uma vez que se trata de um produto da Editora Record. Espero que gostem da leitura. Sobre o conteúdo, quem publicou uma postagem bem legal em seu blogue foi o Zeca Camargo. O atalho para que vocês leiam é o seguinte: http://colunas.g1.com.br/zecacamargo/2010/03/29/as-palavras-que-nunca-sao-ditas/

O livro já está disponível nas livrarias do Brasil. Em breve, será lançado em Natal. Quando a data estiver decidida, divulgarei a todos.

Viagem ao RJ – Março de 2010 – Parte 3

abril 1, 2010

RJ, Sexta-feira, 26.03.2010.

Sexta-feira foi dia de acordar com muita ressaca e cansaço acumulado da viagem e da bebedeira de quinta. O primeiro compromisso oficial do dia foi um almoço com o ídolo e mestre maior das letras rubro-negras Arthur Muhlemberg, blogueiro do Flamengo no sítio do Globo Esporte, que levaria o meu material editorial em mãos ao Jorge, editor da 7 Letras. Para nos acompanhar na refeição, mais dois amigos rubro-negros: Flávio Flock e Marcelo Dunlop, editor chefe da Revista Gracie. Material entregue, conversa repleta de humor e flamenguismo, parti pra encontrar Nina, fomos dar uma volta na praia, tomar uns sucos e descansar.

À noite saímos para uma casa de samba chamada Trapiche Gamboa, na zona portuária, levados pelo Marcelo Dunlop, o mesmo que almoçou comigo, que edita a revista de luta e que é um dos caras mais figuras desse mundo. Típico carioca, daqueles que vira melhor amigo dos garçons, dos taxistas e pra quem tudo vira piada (e o mais incrível: piada boa). Quando morei no Rio, em 2001, o Dunlop me fez testemunhar o maior número de crises de riso como nunca mais vou testemunhar. De garotas a flanelinhas, balconistas a professores, ninguém escapava de sua habilidade natural em provocar gargalhadas lacrimejantes.

Marcelo Dunlop

Outra característica do amigo é seu bom gosto. Além de rubro-negro, é fã do Ramones e de muitas bandas de Rock, além de grande conhecedor de samba. E o Trapiche Gamboa é um desses lugares pra quem gosta de ouvir, dançar e beber um bom sambão. Uma roda de feras mandavam ver no som e na voz. E a gente ouvia, bebia, batia papo, cantava e nem via o tempo passar.

Não preciso nem ir muito longe para dizer que Nina e eu passamos bem a noite, rindo, nos divertindo, ouvindo boa música e virando vários copos de cerva. Aqui cabe um recado importante. No Rio, não dirigimos, nem nossos amigos. A Lei Seca lá funciona de verdade e a gente só se deslocava de Taxi, Metrô ou Busão.

Aí terminou a sexta. No sábado ia dar praia. Mas aí eu conto na segunda, porque agora que já chegamos ao outro

CONTINUA