Coluna da Digi # 32 – Admirável Cidade Nova

Hoje, publiquei na Diginet a tão esperada coluna de número 100 (http://colunas.digi.com.br/carlos/coluna-100-da-digi/). Mas a contagem continua até que eu tenha republicado todas aqui no blogue. Nesta postagem, voltamos no tempo a 5 de maio de 2008. Naquela data, publiquei “Admirável Cidade Nova”, uma alegoria que comparava a realidade de Natal à retratada pelo inglês Aldous Huxley no seu livro “Admirável Mundo Novo”. Espero que gostem.

***

Admirável Cidade Nova

“Pensar enlouquece!” é o que devem pensar alguns (na verdade, muitos) conterrâneos. Por isso, é bom se adaptar e seguir o fluxo, fazendo sempre o que determina o sistema, a sociedade, a moda, os outros. É essa gente bronzeada e lobotomizada sem mostrar nenhum valor, ingereindo o Soma da mesmice, dia após dia. Por que experimentar o novo? Por que procurar saber? Favor, dirija-se ao outro guichê!

Essa premissa torna a cidade estranhamente assemelhada a certos clássicos literários que retratam um futuro sombrio e ameaçador, dando ares de terra arrasada, de completa devastação e revelando frouxos princípios morais.

O lugar agora se divide em diversas zonas: a Zona Norte, onde se concentra grande parte das castas inferiores; a Zona Sul, onde residem as castas superiores, favorecidas pelo sistema; os subúrbios emergentes como Nova Parnamirim e Cidade Verde; e as curiosas Zonas Aristocráticas com indesejáveis bolsões de pobreza incrustrados, como Areia Preta e Mãe Luíza.

A população de 800 mil seres humanos é formada por castas de características diferentes, manipuladas pela lógica do Capitalismo Tropical. Nos gabinetes e altos escritórios empresariais são definidos os pouco dotados de recursos, destinados aos rigores do trabalho braçal, ao sub-emprego, à pobreza. A eles não é dado acesso à boa educação, assistência social, saúde. Geralmente são pardos, alguns negros, quase sempre fora dos padrões de beleza estabelecidos. A aparência é importante, imprescindível, determinante até. Forma é conteúdo.

Os gabinetes e altos escritórios empresariais também decidem os que crescem para comandar. Ricos, bonitos, de pele clara, bem apessoados e asseados, exibindo sorrisos brancos e brilhantes. As castas inferiores não têm qualquer poder de decisão, mas são levadas a acreditar que escolhem os comandantes. Não passam de massa de manobra.

Não há espaço para a surpresa, para o imprevisto. O diferente não é tolerado. Fugir dos padrões, quebrar paradigmas, romper com o pré-estabelecido constitui crime gravíssimo, inafiançável, passível de punições severas, olhares reprovadores, isolamento forçado.

Estamos no ano 60 depois de Bel. O pensamento é proibido e a mediocridade amplamente estimulada e praticada. O intelecto, a erudição, a alta cultura são sufocados com refrões barulhentos e repetitivos com extrema virulência e incrível eficiência. Aprender coisas novas, acostumar-se com letras desconhecidas, melodias estranhas, livros, filmes minimamente inteligentes, palavras polissilábicas demais podem causar estafa, exigindo tamanho empenho das sinapses neuronais que acabam por provocar aneurisma devido ao pouco uso. Que fiquemos com as músicas cheias de vogais e as familiares canções oitentistas que já conhecemos há quase 30 anos.

A lei do menor esforço mental impera na cidade. A disciplina e a perfeita ordem com que os cidadãos cumprem seus desígnios tornam sua realidade admirável. Somos todos treinados para viver assim, condicionados à satisfação, à felicidade, conduzidos a amar o que somos obrigados a fazer. A cidade agora se chama Nova Utopia e o futuro sombrio, tão temido no passado, encontrou lugar no presente.

“O segredo da felicidade e da virtude é amarmos aquilo que somos obrigados a fazer.”, Aldous Huxley – Admirável Mundo Novo.

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