Simples Filosofia – Trechos

Enquanto eu não escrevo a crônica sobre o livro “Simples Filosofia” de Pablo Capistrano, separei aqui alguns trechos da obra para dividir com vocês. Separei por crônicas e publico aqui na ordem em que saíram na obra.

***

Mamãe Literatura

“A idéia é que os filósofos seriam então inimigos dos poetas, e que buscavam produzir uma espécie de “matemática com palavras”, um mecanismo de argumentação e investigação da natureza que pudesse oferecer um conhecimento livre de devaneios imaginativos, baseado numa estrutura lógica de argumentação.”

“Friedrich Nietzsche, no século XIX, desconsiderou a interpretação matematizante e cientificista dos positivistas, levando a idéia de que a filosofia era, na verdade, uma forma de literatura, um tipo de escritura, de mitologia branca.”

Tudo passa.

“O que a dialética nos ensina é que nada permanece o mesmo todo o tempo. Que as coisas mudam, tudo é transitório e tudo carrega em si o seu contrário. A vida já é o começo da morte. O frio traz em si as marcas do calor, assim como o calor traz em si as possibilidades de frio. Os pedaços da obra de Heráclito fizeram Hegel pensar que tudo está contido no fluxo do tempo e que, mediante esse fluxo, tudo se transforma no seu oposto.

Um corpo vigoroso e firme, um dia, será seu cadáver. O calor da fogueira será, brevemente, substituído pelo frio de suas cinzas. Tudo passa, tudo flui. Panta re, panta corei.”

 Filósofos e juízes

 “Falar de filosofia na linguagem de gente normal é uma tarefa difícil. Às vezes mais difícil que falar de filosofia na linguagem técnica de um filósofo. É como pedir a um neorocirurgião que explique para a dona de casa e o estudante de nível médio brasileiro, no jornal de meio-dia na TV, a diferença entre aneurisma cerebral e derrame.

No fim das contas é necessário algum poder de síntese, alguma falta de pudor em falar as coisas de modo impreciso, certo descompromisso saudável com o rigor dos conceitos, uma boa dose de humor e uma leve e distante vontade de que as pessoas entendam o que você está dizendo.

Ou seja, tudo aquilo que um filósofo acadêmico despreza. Mas a filosofia é assim mesmo. Ela ama se esconder. Quanto mais você corre atrás dela, mais parece que ela foge de você. Por isso, na origem, o termo “filósofo” ganhou essa conotação: “amante do saber”.”

O que é uma vaca?

“A verdade não está no que a gente vê, mas sim naquilo que a nossa mente pode compreender.”

O rei filósofo

“ – Professor, o senhor é um homem tão inteligente! Vai votar num analfabeto?  – Naquele momento o meu produtor automático de respostas rápidas funcionou. Ele é ótimo quando alguém diz alguma coisa revoltante ou que nós consideramos descabida e que exige uma resposta rápida.

– Minha filha – eu disse –, depois de oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso, desconfio de qualquer um que tenha terminado a 4ª série.”

“Por isso, eu e Platão partilhamos de tipos diferentes de desânimo. Ele, um desânimo com a política real (depois que o filho do rei de Siracusa começou a matar as aulas de metafísica para assistir às corridas de cavalos, tomar vinho e curtir belas mulheres, numa versão clássica do trinômio agroboy: cachaça, vaquejada e mulher). Eu, que acreditei em 1994 que o Brasil poderia ter seu rei filósofo, aprendi a desconfiar dos intelectuais, especialmente quando eles se candidatam a presidente.”

O homem é bom?

“Aristóteles nos mostra que nós apenas somos humanos quando somos justos e que perdemos a nossa humanidade quando não conseguimos saber a medida justa das coisas.

A abstinência completa de álcool é tão equivocada quanto a embriaguez contumaz. A felicidade está em saber o justo meio termo para cada situação.”

A arte de cultivar jardins

“Filho da ausência, o desejo é um tipo de prazer diante daquilo que não se tem. Desejar é sofrer diante da ausência. Quando eu quero aquela moto, aquele apartamento com vista para o mar, ou aquela bolsa chique, ou aquela modelo gostosa da propaganda de cerveja, eu quero o que não tenho e isso me leva a um estado de ansiedade e intranqüilidade que me tira do eixo.

Por isso é importante para o consumo num grande shopping que o desejo das pessoas seja ativado mediante um conjunto de mecanismos artificiais de produção de necessidades. Diante da ansiedade do desejo, seu comportamento se transforma e você usa mais, fala mais, olha mais, bebe mais, corre mais, come mais, gasta mais e pensa menos.”

“Para  Epicuro, feliz é o homem que busca os prazeres naturais e necessários à vida. Aquele que, ao invés de estar escravo das próprias compulsões e do consumo idiota, busca a stisfação naquilo que tem e não a ansiedade por aquilo que não possui.”

“A quem não basta pouco, nada basta.”

A senhora fortuna

“Pensar sobre isso (um acidente de avião, por exemplo) incomoda porque nos lança sobre a evidência de nossa própria fragilidade. Somos muito pequenos diante das circunstâncias e o mundo, com seus ritmos e seu amontoado de acasos, pode, num segundo, nos oferecer muito ou nos tirar tudo.”

Um bicho esquisito

“É possível mesmo admitir que a Idade Média começou definitivamente a declinar quando a filosofia iniciou sutilmente a mudar seu objeto.

Se antes o núcleo do problema era Deus e sua revelação que precisava ser compreendida e explicada, agora o nó da questão era sua criatura mais bizarra: o homem, esse bicho esquisito.”

“Pico, o humanista mais importante do Renascimento, era, segundo fontes históricas, um sujeito rico, belo e sábio. Um “partidon” na linguagem das colunas sociais.”

 A arte de não se odiar

“Nossa neurose é a mesma do século XVI. Precisamos nos sentir adequados, enquadrados, encaixados, embalados para presente. Nosso corpo tem que estar no manequim, nosso quadril encaixar na calça. Nossas nádegas precisam estar rígidas e empinadas, nosso abdômen duro, nossas coxas torneadas, nossa silhueta esguia, ou então estaremos condenados à mais miserável infelicidade.”

“Mesmo no mais elevado trono do mundo, continuamos sentados sobre nossos cus.”

Saudades do amor

 “Somos uma civilização analfabeta na cartilha do amor.”

 “Os sábios gregos falavam de vários amores: o amor sexual do eros, o amor divino do ágape, o amor da intimidade e da afinidade no termo filia e o amor doença do pathos.”

 “Afinal, a paixão não se sustenta. Ela é fogo que arde sem se ver e é infinita só enquanto dura.”

 “Se Schopenhauer fosse vivo hoje, talvez não fosse um conselheiro sentimental muito popular.”

 “Saber transformar a paixão em amor é a chave da arte da convivência. O segredo dessa arte é nunca esquecer (como diz o poeta) que os opostos sempre se distraem, e que apenas os dispostos verdadeiramente se atraem.”

 Assim falava Friedrich Nietzsche

 “Você não vai entender Nietzsche”, foi o que ouvi do meu padrinho, dono da maior biblioteca que conheço, quando tentei ler “Assim falava Zaratustra” aos 16 anos de idade.

Realmente. Eu não entendi nada.

Mas, apesar de não ter entendido nada, senti que aquele era um texto que não poderia deixar de ser lido e relido várias vezes durante a vida.”

“O bezerro de ouro ganhou a disputa com o Deus de Abraão e a civilização da técnica, o mundo brilhante do entretenimento de massas, a sociedade do consumo e da banalidade absoluta matou o espírito do ocidente e arrancou do homem sua vontade de viver. Os mortos-vivos que passam pelas vitrines dos shoppings não têm mais como escutar os profetas, nem os poetas, nem os sábios.”

E o Brasil? Onde é que fica?

“Saber por que o Brasil exporta jogadores de futebol para todo o mundo, mas até hoje não conseguiu emplacar nenhum Prêmio Nobel não é tarefa difícil. Basta pensar em quantos jovens brasileiros dedicam suas tardes a jogar bola em campos de terra batida e quantos se dedicam a a ler Flaubert nas tardes de sábado. Veja as estatísticas e você terá a resposta.”

“O Brasil criou um curioso modelo de integração sexual que gerou criaturas híbridas e uma divisão social bastante evidente. De um lado uma massa etnicamente caótica a quem foi dado o catimbó, o samba, a capoeira e o futebol. De outro, uma elite assustada, esbranquiçada e neurastênica, que manteve em seu condomínio aristocrático o domínio do latim, o controle da religião geral (o catolicismo), do Estado (o bacharelismo jurídico) e da cultura oficial (o acesso a níveis mais altos de educação e letramento).”

Da inutilidade de tudo isso.

“Filosofia é como sexo oral. Não serve pra nada, mas é legal pra caramba.”

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