Archive for maio \31\+00:00 2010

Comerciais da Copa

maio 31, 2010

A Copa está chegando e, com ela, toda uma série de propagandas temáticas, utilizando-se da paixão pelo futebol para vender seus produtos. A Nike lançou sua superprodução, utilizando seus astros milionários e matou a pau com seu “Write the future”.

Mas uma empresa que sabe emocionar quando fala de futebol é a Quilmes, cerveja argentina que hoje pertence à InBev. O comercial de 2010 ficou lindo, mas nada se compara ao “Bendito sea” de 2006. Maravilhoso! Assistam e tentem não se emocionar.

Quilmes – 2010 – “Dios”

Quilmes – 2006 – “Bendito sea”

Coluna da Digi # 40 – Cultura. Qual é a de Natal?

maio 31, 2010

Crônica singela, propondo reflexão a respeito da condição de Natal enquanto cenário cultural. Publicada no dia 17 de setembro de 2008 na Diginet.

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Uma adolescente de 409 anos. É isso que Natal é. No momento ela passa por aquela fase que envolve o surgimento de espinhas, pelos em diversas partes do corpo e um certo volume sob a blusa. Uma fase que se caracteriza pela completa confusão, em que ninguém, principalmente o adolescente, não entende nada. “Para onde irei? Que caminho seguir? Qual o meu papel no mundo? Quem sou eu?” são algumas das perguntas sem resposta feitas por ela ao deitar-se no divã de um bom psicanalista.

Natal está naquele momento de busca de sua identidade, de descobrir o corpo, de ter vergonha dos carinhos maternos em público, de escolher entre as últimas brincadeiras de boneca ou a sua primeira festa com a turma da escola. E nessa fase de descobertas, quando tudo é novidade, ela quer saber qual identidade cultural deve assumir. Imaginem vocês a angústia desta adolescente, desabafando que cresceu muito de uma hora pra outra. Que estava lá, às voltas com suas inocentes brincadeiras e os seus 100 mil habitantes e, quando viu, já eram 800 mil e ela sem saber o que ia fazer agora.

A verdade é que uma cidade que salta de 100 mil para 800 mil habitantes em pouco mais de meio século, recebeu marchas migratórias contínuas e consistentes, tornando-se alvo de influências das mais diversas, desde os fortíssimos costumes sertanejos e sua literatura oral, passando pelos migrantes dos outros tantos estados brasileiros e suas peculiaridades (pra se ter idéia, só gaúchos, são 15 mil) e chegando ao atual estágio de segunda residência européia e especulação imobiliária. No meio dessa geléia geral, a cultura se sente confusa, como filha de pais separados em meio ao fogo cruzado, sem saber a quem obedecer.

É claro que essa falta de raízes mais profundas tem seus desdobramentos positivos e negativos, confirmando a antiga crença de que não há mal que não traga um bem ou que todo bem traz consigo algum efeito colateral. Natal é mais cosmopolita que outras capitais nordestinas, apesar de mantermos um quê de brejeirice e um certo comportamento provinciano, muito provavelmente herança de nossos genes seridoenses. Outro diferencial advindo dessa tradição de receber quem chega de outros lugares, moldou nosso comportamento e nos transformou no povo mais acolhedor do universo, elevando nossa vocação turística à milésima potência, mas provocando uma tendência a achar que tudo o que é bom vem de fora.

Outro dia o jornalista Tácito Costa chamou a atenção dos participantes de um Fórum de discussão online. Ele perguntou: “alguém sabe as propostas dos candidatos a prefeito para a cultura?” Ninguém sabia. Até que a Tribuna de Norte de sexta passada, em reportagem da jornalista Michele Ferret, expôs o que cada um pretende fazer. Entre continuar o que vem sendo feito e divagações gerais sobre nada com coisa alguma, os candidatos e candidatas mostraram estar afinados com a identidade (ou falta de) cultural natalense. Não sabem nem pra onde vão. Não os culpo. É difícil lidar com uma adolescente problemática.

O Henrique Fontes, ator e administrador da Casa da Ribeira, uma das iniciativas vencedoras em Natal, participou de um seminário chamado “Cultura. Qual é a de Natal?” Uma espécie de terapia em grupo para tentar encontrar dar um prumo pra essa cidade mal resolvida. Aliás, acabo de viajar numa comparação meio absurda. Vendo o trabalho do pessoal da Casa da Ribeira e do Clowns de Shakespeare, acho que fazer cultura em Natal é como competir nas para-olimpíadas: as limitações são tantas que quem participa já é vencedor. Fecha parênteses.

A verdade é que nossa cidade não tem ainda uma identidade cultural consistente, um rumo traçado. São 5 da manhã e estamos meio bêbados nesse enorme corredor da folia que define nossas políticas públicas e privadas para a cultura. Vamos acordar com uma tremenda dor de cabeça, amnésia alcoólica, ressaca moral, a mesma crise de identidade dos últimos 409 anos e não sabemos se vamos ter grana pra pagar a terapia.

Coluna da Digi # 39 – Querido Bunker

maio 21, 2010

É muito bom ver um escritor jovem surgir com força e fôlego criativo. A empolgação e falta de compromisso contagiam e me dão vontade de escrever coisas tão interessantes e divertidas quanto aquele neófito das letras que arrebatou minha atenção com suas palavras tão bem postas uma apos a outra. É claro que o cara não é neófito nem nada, pois todo bom escritor traz consigo, independente da idade, uma bagagem de referências literárias, culturais e cotidianas, além de muitas leituras que logo aderem aos seus textos. Esses sentimentos revigorantes, tenho tido ultimamente ao acessar o blog do jovem e cínico rapaz, virgem de publicações, Márcio Nazianzeno de Freitas (http://queridobunker.wordpress.com).

Em sua página, Márcio nos brinda com seu humor fácil, suas análises nada sóbrias e ficções que flertam com o absurdo e a completa falta de noção. Foi ele que me apresentou às namoradas robôs, a um insólito festival de filmes pornôs e deu dicas preciosas e impossíveis de sobreviver à lei seca sem precisar parar de beber. Campos de Carvalho, Douglas Adams e todos os Monty Phythons continuam vivos nos posts dos rapaz. Woody Allen também costuma dar o ar da graça como notável influência.

Os posts do Bunker são, por vezes, uma perfeita simbiose entre a reflexão e o humor, fazendo sorrir e pensar em igual medida. Já em algumas ocasiões, eles são livres, praticando um humor absolutamente non-sense, essa modalidade artística (literária, televisiva, cinematográfica…) inventada pelos ingleses. O non-sense pra mim é como um parnasianismo humorístico. A arte pela arte vira o riso pelo riso com os escritores adeptos do estilo, não medindo esforços para levar o seu humor sem amarras a todos os lares. Provocativos, eles causam efeitos colaterais que vão das dores abdominais, lágrimas copiosas, contração dos músculos da face e outras reações que só as gargalhadas incessantes e incontroláveis podem conseguir. Mas têm também os assuntos sérios abordados pelo jovem Nazianzeno, como a revelação da carreira militar de Hemingway e as 122 mortes cometidas pelo escritor. Ou ainda a elucidativa atualização sobre a disputa entre Rússia e Geórgia pela Ossétia do Sul.

Alguns posts de Márcio são impagáveis, verdadeiras crônicas e contos de humor. Tenho certeza que muito do que está ali vai aparecer em páginas impressas num futuro próximo. “O liseu como estado de espírito” e “Leiteja” por exemplo, figurariam em qualquer livro do Antonio Prata sem fazer vergonha. As indicações de escritores, as publicações de textos interessantes e as dicas de músicas e shows (como o dOs Bonnies no DoSol) também revelam um pouco mais do escritor que está por vir, pois um escritor não é só o que ele escreve, mas tudo o que lê, ouve e vê. Em seu blogue, que funciona como uma espécie de caderno de anotações aberto ao público, Márcio se despe um pouco para nós a cada dia, revelando-se sem nenhum pudor. Descarado!

Para mim, esse ilustre representante da blogosfera que nos envolve se tornou uma fonte da juventude criativa onde tenho ido beber. É sangue novo e bom. Acessem. Divirtam-se!

http://queridobunker.wordpress.com

Coluna da Digi # 38 – Livre arbítrio

maio 21, 2010

Publicada em 05 de setembro de 2008 na Diginet.

Livre arbítrio

“Se quiser escrever sobre filosofia, escreva um romance”. Essa frase de Albert Camus nos revela como o autor gostava de abordar o existencialismo em seus livros e de qual forma inventiva e original construiu toda uma obra que causou grande impacto na juventude, tomando de assalto os momentos de silenciosa reflexão de meninos e meninas em todo o mundo. Os fãs camusianos só discordam entre si quando é preciso opinar sobre qual o melhor livro do escritor. Alguns apontam “A queda”, outros preferem “A peste” , um professor certa vez revelou gostar mais de “O mito de Sísifo”. Porém, nenhum livro do escritor argelino desperta maior encanto até hoje quanto “O Estrangeiro”. Certamente, é o mais popular e, segundo o escritor Arthur Dapieve, chega a ser “pop”, uma vez que inspirou até mesmo a musica “Killing an arab” da banda “The Cure”.

Em “O Estrangeiro”, Albert Camus trata do absurdo, um dos assuntos preferidos do autor e mostra que, não importa o quão indiferente sejamos em relação à vida, seremos sempre levados por caminhos alheios a nossa vontade. O primeiro parágrafo do romance é tido por muitos como “o melhor primeiro parágrafo da história da literatura” e dá a exata medida da inércia do protagonista Mersault. Ele fala sobre a morte da mãe, mas não lembra se aconteceu no dia anterior ou dois dias antes. O personagem não tem ambição, não almeja a nada, simplesmente se deixa levar. E mesmo com tanta indiferença, o destino o conduz por caminhos tortuosos e ele acaba por ser condenado à morte.

O que eu posso concluir de todo esse existencialismo romanceado é que não importa as escolhas você faça, a vida sempre dá um jeito de fazer o que quer com você. Ou seja, você não faz escolha nenhuma. Elas são feitas a sua revelia, alheias a sua vontade. O livre arbítrio não existe. O seu destino é um tremendo de um brincalhão, um pregador de peças. Ele faz você acreditar que tem controle absoluto da situação, que é dono e senhor do porvir, quando na verdade é ele quem controla você como um mamulengueiro faz com seus bonecos.

As nossas vidas são um encadeamento de ocorrências, algumas simbólicas e significativas, outras vazias e sem o menor sentido, mas quase todas acontecem sem que a gente possa fazer nada a respeito. Você até pode escolher fazer algo que sempre sonhou, trabalhar na profissão que escolher, ficar com a menina por quem se apaixonar, fazer a viagem que passou anos planejando, mas e depois? Algo vai sair do que foi traçado. A profissão que você escolheu pode não dar tanta grana e você pode acabar vendendo herbalife, seguro de carro ou (muito pior) advogando. A garota dos seus sonhos pode ter uma TPM que dure uma vida. E a sua viagem para conhecer a Suméria vai coincidir com uma tempestade de areia, tsunami, furacão Gustav e terremoto, tudo junto. Essas coisas não estavam previstas no roteiro porque a sua vida, diferentemente das novelas da Globo, não é escrita por você, meu caro.

O destino é ardiloso e pode lhe presentear com um subconsciente materialista, mesmo que você tenha um forte e consciente desejo de desprendimento monetário. Se você acha que tudo o que precisa é de uma cabana em Pipa, um empreguinho de meio expediente num quiosque na Praia do Amor e o resto da vida para ser feliz, o seu subconsciente lhe faz mudar pra São Paulo para trabalhar na Bovespa. E essa é a sua história, aliás, a nossa história. Minha, sua, de toda a raça humana (ô raça!).

Por tudo isso, sugiro que… Meu Deus! Pára tudo! Acho que estou escrevendo o meu primeiro texto de auto-ajuda. Tem todos os ingredientes: comecei citando um escritor consagrado, enumerei padrões de comportamentos e ocorrências mais ou menos genéricos passíveis de identificação com qualquer pessoa seja qual for a idade, sexo ou cultura e agora já estou dando conselhos e fazendo sugestões. Os próximos passos, eu e vocês que estão lendo já sabemos. Vocês vão ler meus livros como se fossem manuais práticos de suas vidas e vão se sentir super bem ao fazê-lo, eu serei idolatrado e convidado para palestras caríssimas com temas que sempre começam com “como” (“Como não parecer um idiota mesmo contra todas as evidências.” “Como se comportar numa festa de colunista social natalense.”) e depois vou ficar rico. Pelo menos é o que planejo fazer.

Bem, é claro que nada disso que estou falando tem a ver com o que eu esperava abordar quando comecei a escrever esse texto, mas fazer o que? A vida, o destino, o sei-lá-que-outra-porra me trouxeram a este último parágrafo, no qual eu tento sem muito sucesso livrar-me do nada absoluto sobre o qual estou escrevendo. Inútil, claro. Pois esse texto, assim como o roteiro da minha vida, não sou eu que escrevo.

Coluna da Digi # 37 – Quero ser Vice!

maio 14, 2010

Em 2008, assim como no corrente ano, houve eleições no Brasil. Por isso, escrevi uma crônica abordando o tema, mas de uma forma bem humorada, lançando um olhar para um cargo nem sempre bem quisto, mas, paradoxalmente, o mais cômodo do mundo político. Aquela atribuição de quem “quase” chegou ao poder absoluto, mas ficou ali, só na moleza, enquanto o ocupante do cargo principal rala pra realizar seu trabalho. Falo, naturalmente, do vice. Esta coluna da Digi, marcou a volta das férias, pois foi publicada 45 dias depois da anterior, em 31.08.2008.

Boa leitura.

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Quero ser Vice!

É muito gratificante quando a gente descobre o que quer fazer da vida. Sabe aquele momento em que você finalmente percebe sua verdadeira vocação. Aquele segundo exato em que cai a ficha e você decide que dali em diante você será adestrador de preás, técnico de máquina de pinball, zagueiro do Alecrim ou colocador de barbante em O.B.? Pois é. Esse momento chegou pra mim. E o curioso é que, depois que você identifica seu real destino, todas as peças de sua biografia pregressa começam a se encaixar perfeitamente. É como se tudo em sua vida até então: o cosmos, as pessoas, o acaso e todo o resto fosse parte de uma conspiração cuidadosamente engendrada para que você cumprisse o seu papel neste universo. Tudo o que aconteceu até então foi um prelúdio, uma preparação, um aquecimento, até que, pimba!, sua vida começa.

E a minha começou precisamente esta tarde quando, assistindo ao horário eleitoral gratuito, embevecido pelos jingles políticos, ocorreu um momento sublime de luminosidade e eu soube o que quero ser (ou sempre fui, sei lá. Faltava apenas me dar conta disso.). Quero ser vice! Eu nasci pra isso. Eu sempre fui vice! Sou o melhor nome para este cargo.

Sigam o meu raciocínio, mas não com muito interesse, já que nós, vices, não nascemos pra liderar. O que eu quero dizer é que sempre fui um aluno nota 7, nunca fui o melhor nos esportes, tinha um desempenho médio nas conquistas amorosas escolares(nem a garota mais desejada da sala nem a canhão da Jacira que nos dava balas Sete Belo, senão a gente nem cumprimentava). Eu ficava mais na minha, quieto, sem ser notado.

Fui crescendo, mas não muito, para não ficar mais alto que a média, e mantive a regularidade. Pois é isso que nós vices natos temos que ser: regulares. Se fôssemos bons ou ótimos, não serviríamos para o cargo. Nós vices não somos dignos de destaque. Aliás, nós geralmente somos lembrados pelo que não somos e nunca pelo que fomos ou somos. A única coisa que podemos dizer que somos é vice-isso, vice-aquilo. 

Os vices não são nem altos, nem baixos, nem gordos, nem magros, nem fortes, nem fracos, nem disputa pelo título nem zona do rebaixamento. Um pobre não consegue ser vice, assim como um vice não fica milionário. Vice é tudo classe média.

Uma coisa boa sobre os vices é que você nunca vai encontrar um vice contando vantagem que fez isso, que fez aquilo, que faz e acontece. Um vice não faz e se orgulha por não ter feito. O vice é desleixado, relaxado, descansado e relapso. O vice adora uma rede e, de tão preguiçoso, faz o mais indolente dos veranistas natalenses parecer um novaiorquino que trabalha na Bolsa de Valores.

Imaginem como seria um debate na televisão entre vices. Obviamente jamais poderia passar numa TV líder em audiência. Em vez de dizermos o que faríamos fazer como os candidatos principais, diríamos tudo o que não faríamos quando fôssemos eleitos. Quem mostrasse maior vocação para a vagabundagem levaria o cargo. Ou melhor: vice-cargo.

Eu poderia dizer algo como: “Eu prometo não trabalhar por vocês nem um diazinho sequer nos próximos quatro anos! É um compromisso que assumo de público. Comigo é assim: quando eu prometo, não cumpro mesmo!” E a platéia iria ao delírio certa de que eu seria o seu candidato.

Em todas as eleições eu fico fascinado com os vices. A inutilidade charmosa, a falta de função orgulhosa, a condição de simples acessório carregada de simbologia, o adorno eleitoral que anda (sem rumo definido) e fala (nunca coisa com coisa). Tanta admiração me despertaram este sentimento sincero e obstinado de querer meu lugar à sombra, no cantinho das atenções. Tenho certeza que, se eu não fizer nada, como estou disposto a não fazer, chegarei a lugar nenhum, que é onde um vice almeja permanecer. Conto com o seu voto e só não prometo que serei o melhor dos vices porque se eu for inventar de ser melhor em alguma coisa, estaria sendo um péssimo vice.

Boleiros do Novo Jornal

maio 13, 2010

Estreou esta semana a seção “Boleiros” do Novo Jornal. Serão crônicas curtinhas às quintas e domingos a respeito da Copa do Mundo. Escrevem na página os jornalistas Carlos Magno e Rafael Duarte, o escritor e editor Adriano de Sousa, além de mim. Quem toma conta do projeto é o editor de esportes do Novo, Marcos Bezerra.

Domingo sai a segunda fornada e prometo mais um textinho curto e pretensamente divertido. Por hora, vamos ficando com algumas imagens da convocação do Dunga pra Copa do mês que vem.

O treinador anunciou sua lista solenemente.

 

Enano, Josué, Kleberson, Júlio Baptista, Felipe Melo e Gilberto Silva exibiram seu enorme futebol ao lado do comandante.

 

"Eu vou, eu vou, pra concentração, eu vou."

 

Petkovic (no centro, de braços cruzados) levou seu apoio aos homens de Dunga.

 

Para compensar a ausência dos meninos da vila, os convocados garantiram que não vai faltar alegria nem dança. O time, aliás, foi montado com exatamente o objetivo de dançar logo na primeira fase. Mas atenção, torcida: nada de sair gritando piadas infames como "o time de totó entrou em campo!", pois estas configurariam gracinhas de baixos nível e estatura.

Coluna da Digi # 36 – Saúde é o que interessa.

maio 12, 2010

Pulei a coluna da Digi # 35 (“Vamos acabar com essa cidade.”), seguindo critérios particulares. Era mais uma crônica falando da cidade, algo meio repetitivo, uma vez que a crônica “Admirável Cidade Nova” tratava de um tema semelhante. Por isso, vamos direto ao “Saúde é o que interessa.”, história divertida que escrevi a pedido do Jovem Escriba Thiago de Góes.

Divirtam-se!

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Saúde é o que interessa!

Texto escrito para a antologia “80 contos sobre os anos 80″ organizada pelo escritor Thiago de Góes.

Os Estados Unidos são muito melhores. Eles tão ganhando essa guerra fria de capote. Os soviéticos estão até desistindo da briga. Nas Olimpíadas de Seul, só deu Estados Unidos. Uma coisa de louco. Os atletas americanos são muito saudáveis. Aqui na cidade tava todo mundo querendo comer o que os americanos comem. Começou a abrir em tudo que é canto lanchonetes especializadas em comida americana. Todo mundo na onda de querer ser igual a eles, ficar parrudo, forte, saudável. Pra isso, tinha que comer muito sanduíche. Ou sandwich que é como se diz no original. Ah, e não é pra ficar no seco não, senão morre tudo entalado sem conseguir virar americano. tem que comer com muito soft-drink que é como se diz na América. Soft-drink em português é Coca-cola.

O danado é que o povo começou a comer feito americano (sanduíches, pizzas, refrigerantes, milk-shakes) e em vez de ficarem saudáveis foram é engordando sem parar. Ninguém entendia porque não estavam ficando parecidos com o Stallone e sim com o Senhor Barriga do Chaves, se a dieta estava sendo a base de americanidades e não de nachos, buritos e tacos. Será que era o nosso sangue latino falando mais forte?

A cidade inteira ficou muitíssimas arrobas mais encorpada e a obesidade passou a ser problema de saúde pública. Foi aí que o prefeito resolveu tomar uma atitude. Todos os cidadãos teriam que fazer exercício obrigatoriamente. É que a única solução para o problema seria criar e fazer cumprir regras de conduta rígidas. Que nem no primeiro mundo, que nem nos Estados Unidos. Só podia ser por isso que os americanos comiam aquele monte de comida gordurosa e continuavam patolas de barriguinhas tanquinho, prontos pra pinotar de um lado pro outro que nem o Indiana Jones. As leis na América eram severas. Dava pra ver isso nos filmes.

Mas como é que iam fiscalizar se uma população inteira estaria cumprindo uma lei tão inusitada. Certamente a mentalidade terceiro-mundista imperaria e as pessoas encontrariam formas de driblar as determinações do jeito que os comerciantes faziam com os fiscais do Sarney.

A solução foi dada por um assessor mais esperto. Por que não obrigar todos os habitantes a praticar exercício enquanto realizassem uma atividade corriqueira do dia-a-dia? Todos tinham que locomover-se de um lugar a outro. Portanto, bastava obrigar que os cidadãos a se exercitarem enquanto estivessem indo ou vindo. Mas como? Simples: daquele dia em diante todos seriam obrigados a andarem de Pogobol dentro dos limites da cidade. Nada de perambular a pé por aí. A Prefeitura forneceria um Pogobol por habitante e a manutenção também seria gratuita através de postos de troca e reparos espalhados por todos os bairros.

Quem, por razões médicas ou de idade avançada, não pudesse usar o meio de transporte da onda, teria que se submeter a um exame comprobatório de inapetência. A lei é rígida e nasceu para ser cumprida. A Prefeitura abriu a licitação pública e a Estrela ganhou a concorrência, talvez porque tenha sido a única participante. Logo, a população inteira estava pulando de um lado pro outro de Pogobol. A Prefeitura estabeleceu um período de adaptação em que os habitante poderiam aprender a usar o veículo, inclusive com cursos disponibilizados em praças públicas.

No dia do lançamento da lei, o Paulo Cintura da Escolinha do Professor Raimundo veio para ser o garoto propaganda. O Prefeito, as autoridades presentes e a imprensa estavam exultantes com a novidade. As crianças da cidade também não se continham de tanta alegria. O objetivo era que a cidade perdesse centenas de toneladas já no primeiro mês. O início foi difícil. As quedas eram constantes e os postos de saúde ficaram abarrotados de pessoas com calos nos pés. Muitos gordinhos também estouraram os seus Pogobols e tiveram que recorrer aos postos de reparo. Foi uma loucura.

Hoje já está tudo normal. Faz um ano que as pessoas só andam de Pogobol e várias outras cidades vizinhas adotaram o mesmo sistema. A saúde da população melhorou bastante e os exercícios surtiram o efeito desejado. O prefeito virou candidato a governador e pretende implantar a lei em todo o Estado. Dizem que a Estrela está financiando sua campanha. O fato é que ele tem o meu total e irrestrito apoio. Um homem que fez o que fez pela nossa cidade só merece mesmo congratulations, viu? Agora, nossa cidade está muito mais perto do primeiro mundo. Nem parece aquela coisa sub-desenvolvida que era antes. Agora, aqui parece cidade americana, sabe? Esse negócio de implantar os Pogobols, vou te contar, viu? Foi um enorme salto de desenvolvimento.

Convocação – Direto do Fundo do Baú

maio 12, 2010

No longínquo ano de 2002, tempo em que se amarrava cachorro com linguiça e que, aliás, linguiça se escrevia com hífen, escrevi um texto que acabou entrando no meu primeiro livro, “Verão Veraneio” (Jovens Escribas, 2004). O texto se chamava “Convocação” e tratava da lista do Felipão. Publico aqui para que vocês (e eu também) possam(os) lembrar. Mais uma “atualização” diretamente do Fundo do Baú.

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Convocação

Concentração do São Gonçalo, altas horas da madrugada. Dali a algumas horas o touro enfrentaria o América. O jogo valeria pela fase decisiva do estadual e o time precisava repousar. Por isso o técnico da equipe ficou uma fera quando tocou o telefone da concentração. Quem poderia ser uma hora daquelas? Era bom que fosse urgente ou alguém do outro lado da linha ouviria um invejável repertório de impropérios construído em anos de futebol profissional.

Renato Peixe dormia o sono dos justos. Acordou com os toques do telefone, é verdade, mas voltara a dormir. O professor mandou descansar e esta não era uma das ordens mais difíceis de cumprir.

O treinador atendeu ao telefone e, depois de alguns minutos de aparente silêncio, bateu à porta do Renato Peixe.

Treinador: – Renato! Telefone pra você.

Renato Peixe: – Pra mim? Quem é, professor? É alguma urgência?

T: – É melhor você ir.

RP: – Aconteceu alguma coisa lá em casa?

T.: – É de Ulsan, na Coréia.

RP.: – Hein?!

Renato não entendeu nada. Ursão da Coréia. Ele não conhecia ninguém com esse apelido. Tinha um amigo que morava na favela do Japão, mas nem sequer conhecia uma favela da Coréia. No caminho do quarto até o orelhão da concentração foi pensando sobre o crescimento desordenado da cidade e das poucas oportunidades dadas aos menos favorecidos que resultavam na multiplicação das favelas como a do Japão e agora … a da Coréia. Antes que pudesse prosseguir com seus devaneios chegou ao telefone. Do outro lado ouviu uma voz firme com sotaque gaúcho.

–          Renato Peixe? Aqui é o Luiz Felipe Scolari, técnico da seleção brasileira de futebol. Desculpes o horário. É que aqui já são 4 da tarde.

–          Isso é alguma brincadeira?

–          Tu achas que eu ia ficar de brincadeira na véspera de uma Copa do Mundo?

–          O que o senhor quer?

–          Te convocar, Tchê! O Rivaldo não está bem. Amanhã quero anunciar o corte junto com a tua convocação. Já ouvi maravilhas a teu respeito. Sei que tu tens feito um excelente campeonato potiguar e que o teu time é líder.

–          O que é isso Felipão? Você não pode estar raciocinando direito. Eu sou jogador de um time pequeno num campeonato inexpressivo. O que eu poderia fazer numa Copa do Mundo?

–          Tu não subestimes meus conhecimentos. Já vi teipes de teus jogos e estou convicto de que tu és o homem certo para substituir o Rivaldo. O próprio jogador já está sabendo que não tem mais condições e disse que será uma honra ceder seu lugar para um atleta como o Renato Peixe.

–          ..Er… Veja bem. Eu só estou pedindo que você pense bem, analise direitinho… Jogar numa Copa do Mundo é muita responsabilidade. Você deveria chamar alguém de clube grande, um jogador mais experiente e tarimbado. Será que não tem outro meia esquerda? Sei lá, o Djalminha, o Zé Roberto.

–          Barbaridade, Guri! Tu és mais teimoso que eu. Quer dizer: tu és mais teimoso do que dizem que eu sou.

–          Eu só estou falando pro bem da seleção. Eu torço pelo Brasil e acho que não acrescentaria muito. Desculpe, Felipão, mas não vai dar.

–          Bem, se tu queres tanto não ir. Vou pensar em outro nome. Alguém que possa substituir o Rivaldo a altura.

–          Mas, lembre-se: tem que ser algum jogador experiente.

–          Podes apostar que será.

–          E de time grande?

–          Certamente que sim. Tchau, sucesso pra ti.

–          Tchau, Felipão.

Renato Peixe foi dormir com a consciência tranqüila. Sentia como se tivesse acabado de cumprir um dever cívico. Aquela renúncia, aparentemente insana, foi uma sábia decisão que poderia decidir as chances do Brasil na Copa. E Felipão refletiria mais sobre o melhor a se fazer. Ele veria a tolice que quase cometera e convocaria um jogador de time grande.

No dia seguinte Felipão, de fato, cortou Rivaldo e convocou… Da Silva do Corítians de Caicó!

Da Silva tornou-se o primeiro jogador de um clube potiguar a atuar numa Copa do Mundo. Renato Peixe não se conformou com a decisão do treinador. Cadê o craque de time grande? E o Jogador experiente e tarimbado? Ele sentiu-se traído, um legítimo César apunhalado. Sabia que poderia ter sido ele. Ficou tão injuriado que decidiu não torcer mais pela seleção. Mas como tinha o coração brasileiro, não abandonou completamente o Brasil na Copa. Pelo menos torceu pro Simon apitar bem.

Enjoy the Silence.

maio 12, 2010

Continuando a postagem anterior, exibo aqui esta versão da banda britânica Keane para a canção “Enjoy the silence”. Em tempos de Copa do mundo, aqui vai uma informação curiosa. O nome do grupo foi escolhido em homenagem ao jogador Roy Keane, capitão do Manchester United nos anos 90.

Curtam!

Coluna da Digi # 34 – Texto Silencioso

maio 11, 2010

Esta é uma das minhas crônicas publicadas na Digi que mais gosto. Faz parte de uma trilogia iniciada com “Texto Lento” (https://blogdofialho.wordpress.com/2010/03/17/coluna-da-digi-27-texto-lento/) e que acabou gerando ainda “Texto Rápido” que publicarei aqui dentro de algumas postagens, seguindo com minha retrospectiva particular. É um texto sensível que foi livremente inspirado na música “Enjoy the silence” do Depeche Mode. Para ilustrar a postagem, divido com vocês este belíssimo comercial da Sony Ericsson que tem a canção tema desta crônica como trilha.

Enjoy!

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Texto Silencioso

A coluna de hoje é em homenagem a todos aqueles que sabem dar valor ao silêncio, que percebem quando calar é melhor que falar, que enxergam a expressividade dos olhares, a grandeza dos gestos, que não caem na fácil armadilha verborrágica, que conseguem a proeza de bastar-se por instantes que seja.

Hoje quero direcionar a luz para essas abnegadas almas, humildes em sua renúncia por atenção alheia, generosas em nos permitir contemplar o mundo sem maiores ruídos, sem a obrigação de ouvir o que não queremos, o que não pedimos, o que não precisamos.

Um texto dedicado aos tímidos, aos intimistas, aos introspectivos. Aos seres evoluídos que não se deixam trair pelo vazio das palavras soltas, desconexas. Homens e mulheres que só se manifestam quando têm algo de edificante a ser dito, algo que acrescente ao mundo e aos outros.

Quero chamar a atenção e apontar os poucos privilegiados na multidão de falastrões que nossa sociedade narcísea e carente produziu. Vou dar meus parabéns a todos os não adeptos do auto-elogio deliberado, à crítica cáustica e gratuita. Expressarei meu muito obrigado aos que nunca me perguntaram quais são as novas ou comentaram como está o clima. Nós, os silenciosos, não gostamos de meteorologistas de elevador e nem de saber se fulana está mais gorda. Acredite: isso não vai mudar nada.

Eu quero produzir uma ode ao inaudível, à harmonia presente na ausência de sons, aos últimos pacifistas, aqueles que realmente deixam os outros em paz.

É que palavras erradas, verbalizadas em momento impróprio podem ferir, quebrar o precioso silêncio de nosso pequeno mundo de paz. Palavras são imperfeitas e desnecessárias frente a sentimentos tão intensos.

Este texto é para todos aqueles que sorriem em silêncio.