Coluna da Digi # 36 – Saúde é o que interessa.

Pulei a coluna da Digi # 35 (“Vamos acabar com essa cidade.”), seguindo critérios particulares. Era mais uma crônica falando da cidade, algo meio repetitivo, uma vez que a crônica “Admirável Cidade Nova” tratava de um tema semelhante. Por isso, vamos direto ao “Saúde é o que interessa.”, história divertida que escrevi a pedido do Jovem Escriba Thiago de Góes.

Divirtam-se!

***

Saúde é o que interessa!

Texto escrito para a antologia “80 contos sobre os anos 80″ organizada pelo escritor Thiago de Góes.

Os Estados Unidos são muito melhores. Eles tão ganhando essa guerra fria de capote. Os soviéticos estão até desistindo da briga. Nas Olimpíadas de Seul, só deu Estados Unidos. Uma coisa de louco. Os atletas americanos são muito saudáveis. Aqui na cidade tava todo mundo querendo comer o que os americanos comem. Começou a abrir em tudo que é canto lanchonetes especializadas em comida americana. Todo mundo na onda de querer ser igual a eles, ficar parrudo, forte, saudável. Pra isso, tinha que comer muito sanduíche. Ou sandwich que é como se diz no original. Ah, e não é pra ficar no seco não, senão morre tudo entalado sem conseguir virar americano. tem que comer com muito soft-drink que é como se diz na América. Soft-drink em português é Coca-cola.

O danado é que o povo começou a comer feito americano (sanduíches, pizzas, refrigerantes, milk-shakes) e em vez de ficarem saudáveis foram é engordando sem parar. Ninguém entendia porque não estavam ficando parecidos com o Stallone e sim com o Senhor Barriga do Chaves, se a dieta estava sendo a base de americanidades e não de nachos, buritos e tacos. Será que era o nosso sangue latino falando mais forte?

A cidade inteira ficou muitíssimas arrobas mais encorpada e a obesidade passou a ser problema de saúde pública. Foi aí que o prefeito resolveu tomar uma atitude. Todos os cidadãos teriam que fazer exercício obrigatoriamente. É que a única solução para o problema seria criar e fazer cumprir regras de conduta rígidas. Que nem no primeiro mundo, que nem nos Estados Unidos. Só podia ser por isso que os americanos comiam aquele monte de comida gordurosa e continuavam patolas de barriguinhas tanquinho, prontos pra pinotar de um lado pro outro que nem o Indiana Jones. As leis na América eram severas. Dava pra ver isso nos filmes.

Mas como é que iam fiscalizar se uma população inteira estaria cumprindo uma lei tão inusitada. Certamente a mentalidade terceiro-mundista imperaria e as pessoas encontrariam formas de driblar as determinações do jeito que os comerciantes faziam com os fiscais do Sarney.

A solução foi dada por um assessor mais esperto. Por que não obrigar todos os habitantes a praticar exercício enquanto realizassem uma atividade corriqueira do dia-a-dia? Todos tinham que locomover-se de um lugar a outro. Portanto, bastava obrigar que os cidadãos a se exercitarem enquanto estivessem indo ou vindo. Mas como? Simples: daquele dia em diante todos seriam obrigados a andarem de Pogobol dentro dos limites da cidade. Nada de perambular a pé por aí. A Prefeitura forneceria um Pogobol por habitante e a manutenção também seria gratuita através de postos de troca e reparos espalhados por todos os bairros.

Quem, por razões médicas ou de idade avançada, não pudesse usar o meio de transporte da onda, teria que se submeter a um exame comprobatório de inapetência. A lei é rígida e nasceu para ser cumprida. A Prefeitura abriu a licitação pública e a Estrela ganhou a concorrência, talvez porque tenha sido a única participante. Logo, a população inteira estava pulando de um lado pro outro de Pogobol. A Prefeitura estabeleceu um período de adaptação em que os habitante poderiam aprender a usar o veículo, inclusive com cursos disponibilizados em praças públicas.

No dia do lançamento da lei, o Paulo Cintura da Escolinha do Professor Raimundo veio para ser o garoto propaganda. O Prefeito, as autoridades presentes e a imprensa estavam exultantes com a novidade. As crianças da cidade também não se continham de tanta alegria. O objetivo era que a cidade perdesse centenas de toneladas já no primeiro mês. O início foi difícil. As quedas eram constantes e os postos de saúde ficaram abarrotados de pessoas com calos nos pés. Muitos gordinhos também estouraram os seus Pogobols e tiveram que recorrer aos postos de reparo. Foi uma loucura.

Hoje já está tudo normal. Faz um ano que as pessoas só andam de Pogobol e várias outras cidades vizinhas adotaram o mesmo sistema. A saúde da população melhorou bastante e os exercícios surtiram o efeito desejado. O prefeito virou candidato a governador e pretende implantar a lei em todo o Estado. Dizem que a Estrela está financiando sua campanha. O fato é que ele tem o meu total e irrestrito apoio. Um homem que fez o que fez pela nossa cidade só merece mesmo congratulations, viu? Agora, nossa cidade está muito mais perto do primeiro mundo. Nem parece aquela coisa sub-desenvolvida que era antes. Agora, aqui parece cidade americana, sabe? Esse negócio de implantar os Pogobols, vou te contar, viu? Foi um enorme salto de desenvolvimento.

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