Convocação – Direto do Fundo do Baú

No longínquo ano de 2002, tempo em que se amarrava cachorro com linguiça e que, aliás, linguiça se escrevia com hífen, escrevi um texto que acabou entrando no meu primeiro livro, “Verão Veraneio” (Jovens Escribas, 2004). O texto se chamava “Convocação” e tratava da lista do Felipão. Publico aqui para que vocês (e eu também) possam(os) lembrar. Mais uma “atualização” diretamente do Fundo do Baú.

***

 

Convocação

Concentração do São Gonçalo, altas horas da madrugada. Dali a algumas horas o touro enfrentaria o América. O jogo valeria pela fase decisiva do estadual e o time precisava repousar. Por isso o técnico da equipe ficou uma fera quando tocou o telefone da concentração. Quem poderia ser uma hora daquelas? Era bom que fosse urgente ou alguém do outro lado da linha ouviria um invejável repertório de impropérios construído em anos de futebol profissional.

Renato Peixe dormia o sono dos justos. Acordou com os toques do telefone, é verdade, mas voltara a dormir. O professor mandou descansar e esta não era uma das ordens mais difíceis de cumprir.

O treinador atendeu ao telefone e, depois de alguns minutos de aparente silêncio, bateu à porta do Renato Peixe.

Treinador: – Renato! Telefone pra você.

Renato Peixe: – Pra mim? Quem é, professor? É alguma urgência?

T: – É melhor você ir.

RP: – Aconteceu alguma coisa lá em casa?

T.: – É de Ulsan, na Coréia.

RP.: – Hein?!

Renato não entendeu nada. Ursão da Coréia. Ele não conhecia ninguém com esse apelido. Tinha um amigo que morava na favela do Japão, mas nem sequer conhecia uma favela da Coréia. No caminho do quarto até o orelhão da concentração foi pensando sobre o crescimento desordenado da cidade e das poucas oportunidades dadas aos menos favorecidos que resultavam na multiplicação das favelas como a do Japão e agora … a da Coréia. Antes que pudesse prosseguir com seus devaneios chegou ao telefone. Do outro lado ouviu uma voz firme com sotaque gaúcho.

–          Renato Peixe? Aqui é o Luiz Felipe Scolari, técnico da seleção brasileira de futebol. Desculpes o horário. É que aqui já são 4 da tarde.

–          Isso é alguma brincadeira?

–          Tu achas que eu ia ficar de brincadeira na véspera de uma Copa do Mundo?

–          O que o senhor quer?

–          Te convocar, Tchê! O Rivaldo não está bem. Amanhã quero anunciar o corte junto com a tua convocação. Já ouvi maravilhas a teu respeito. Sei que tu tens feito um excelente campeonato potiguar e que o teu time é líder.

–          O que é isso Felipão? Você não pode estar raciocinando direito. Eu sou jogador de um time pequeno num campeonato inexpressivo. O que eu poderia fazer numa Copa do Mundo?

–          Tu não subestimes meus conhecimentos. Já vi teipes de teus jogos e estou convicto de que tu és o homem certo para substituir o Rivaldo. O próprio jogador já está sabendo que não tem mais condições e disse que será uma honra ceder seu lugar para um atleta como o Renato Peixe.

–          ..Er… Veja bem. Eu só estou pedindo que você pense bem, analise direitinho… Jogar numa Copa do Mundo é muita responsabilidade. Você deveria chamar alguém de clube grande, um jogador mais experiente e tarimbado. Será que não tem outro meia esquerda? Sei lá, o Djalminha, o Zé Roberto.

–          Barbaridade, Guri! Tu és mais teimoso que eu. Quer dizer: tu és mais teimoso do que dizem que eu sou.

–          Eu só estou falando pro bem da seleção. Eu torço pelo Brasil e acho que não acrescentaria muito. Desculpe, Felipão, mas não vai dar.

–          Bem, se tu queres tanto não ir. Vou pensar em outro nome. Alguém que possa substituir o Rivaldo a altura.

–          Mas, lembre-se: tem que ser algum jogador experiente.

–          Podes apostar que será.

–          E de time grande?

–          Certamente que sim. Tchau, sucesso pra ti.

–          Tchau, Felipão.

Renato Peixe foi dormir com a consciência tranqüila. Sentia como se tivesse acabado de cumprir um dever cívico. Aquela renúncia, aparentemente insana, foi uma sábia decisão que poderia decidir as chances do Brasil na Copa. E Felipão refletiria mais sobre o melhor a se fazer. Ele veria a tolice que quase cometera e convocaria um jogador de time grande.

No dia seguinte Felipão, de fato, cortou Rivaldo e convocou… Da Silva do Corítians de Caicó!

Da Silva tornou-se o primeiro jogador de um clube potiguar a atuar numa Copa do Mundo. Renato Peixe não se conformou com a decisão do treinador. Cadê o craque de time grande? E o Jogador experiente e tarimbado? Ele sentiu-se traído, um legítimo César apunhalado. Sabia que poderia ter sido ele. Ficou tão injuriado que decidiu não torcer mais pela seleção. Mas como tinha o coração brasileiro, não abandonou completamente o Brasil na Copa. Pelo menos torceu pro Simon apitar bem.

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Uma resposta to “Convocação – Direto do Fundo do Baú”

  1. Júlio Says:

    Muito bacana a crônica! Show de bola mesmo!

    Só se liga que na abertura do texto você deve ter confundido hífen com trema.

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