Coluna da Digi # 37 – Quero ser Vice!

Em 2008, assim como no corrente ano, houve eleições no Brasil. Por isso, escrevi uma crônica abordando o tema, mas de uma forma bem humorada, lançando um olhar para um cargo nem sempre bem quisto, mas, paradoxalmente, o mais cômodo do mundo político. Aquela atribuição de quem “quase” chegou ao poder absoluto, mas ficou ali, só na moleza, enquanto o ocupante do cargo principal rala pra realizar seu trabalho. Falo, naturalmente, do vice. Esta coluna da Digi, marcou a volta das férias, pois foi publicada 45 dias depois da anterior, em 31.08.2008.

Boa leitura.

***

Quero ser Vice!

É muito gratificante quando a gente descobre o que quer fazer da vida. Sabe aquele momento em que você finalmente percebe sua verdadeira vocação. Aquele segundo exato em que cai a ficha e você decide que dali em diante você será adestrador de preás, técnico de máquina de pinball, zagueiro do Alecrim ou colocador de barbante em O.B.? Pois é. Esse momento chegou pra mim. E o curioso é que, depois que você identifica seu real destino, todas as peças de sua biografia pregressa começam a se encaixar perfeitamente. É como se tudo em sua vida até então: o cosmos, as pessoas, o acaso e todo o resto fosse parte de uma conspiração cuidadosamente engendrada para que você cumprisse o seu papel neste universo. Tudo o que aconteceu até então foi um prelúdio, uma preparação, um aquecimento, até que, pimba!, sua vida começa.

E a minha começou precisamente esta tarde quando, assistindo ao horário eleitoral gratuito, embevecido pelos jingles políticos, ocorreu um momento sublime de luminosidade e eu soube o que quero ser (ou sempre fui, sei lá. Faltava apenas me dar conta disso.). Quero ser vice! Eu nasci pra isso. Eu sempre fui vice! Sou o melhor nome para este cargo.

Sigam o meu raciocínio, mas não com muito interesse, já que nós, vices, não nascemos pra liderar. O que eu quero dizer é que sempre fui um aluno nota 7, nunca fui o melhor nos esportes, tinha um desempenho médio nas conquistas amorosas escolares(nem a garota mais desejada da sala nem a canhão da Jacira que nos dava balas Sete Belo, senão a gente nem cumprimentava). Eu ficava mais na minha, quieto, sem ser notado.

Fui crescendo, mas não muito, para não ficar mais alto que a média, e mantive a regularidade. Pois é isso que nós vices natos temos que ser: regulares. Se fôssemos bons ou ótimos, não serviríamos para o cargo. Nós vices não somos dignos de destaque. Aliás, nós geralmente somos lembrados pelo que não somos e nunca pelo que fomos ou somos. A única coisa que podemos dizer que somos é vice-isso, vice-aquilo. 

Os vices não são nem altos, nem baixos, nem gordos, nem magros, nem fortes, nem fracos, nem disputa pelo título nem zona do rebaixamento. Um pobre não consegue ser vice, assim como um vice não fica milionário. Vice é tudo classe média.

Uma coisa boa sobre os vices é que você nunca vai encontrar um vice contando vantagem que fez isso, que fez aquilo, que faz e acontece. Um vice não faz e se orgulha por não ter feito. O vice é desleixado, relaxado, descansado e relapso. O vice adora uma rede e, de tão preguiçoso, faz o mais indolente dos veranistas natalenses parecer um novaiorquino que trabalha na Bolsa de Valores.

Imaginem como seria um debate na televisão entre vices. Obviamente jamais poderia passar numa TV líder em audiência. Em vez de dizermos o que faríamos fazer como os candidatos principais, diríamos tudo o que não faríamos quando fôssemos eleitos. Quem mostrasse maior vocação para a vagabundagem levaria o cargo. Ou melhor: vice-cargo.

Eu poderia dizer algo como: “Eu prometo não trabalhar por vocês nem um diazinho sequer nos próximos quatro anos! É um compromisso que assumo de público. Comigo é assim: quando eu prometo, não cumpro mesmo!” E a platéia iria ao delírio certa de que eu seria o seu candidato.

Em todas as eleições eu fico fascinado com os vices. A inutilidade charmosa, a falta de função orgulhosa, a condição de simples acessório carregada de simbologia, o adorno eleitoral que anda (sem rumo definido) e fala (nunca coisa com coisa). Tanta admiração me despertaram este sentimento sincero e obstinado de querer meu lugar à sombra, no cantinho das atenções. Tenho certeza que, se eu não fizer nada, como estou disposto a não fazer, chegarei a lugar nenhum, que é onde um vice almeja permanecer. Conto com o seu voto e só não prometo que serei o melhor dos vices porque se eu for inventar de ser melhor em alguma coisa, estaria sendo um péssimo vice.

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Uma resposta to “Coluna da Digi # 37 – Quero ser Vice!”

  1. Bia Madruga Says:

    melhores descrições impossível ;)) parabéns, fialho!

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