Coluna da Digi # 38 – Livre arbítrio

Publicada em 05 de setembro de 2008 na Diginet.

Livre arbítrio

“Se quiser escrever sobre filosofia, escreva um romance”. Essa frase de Albert Camus nos revela como o autor gostava de abordar o existencialismo em seus livros e de qual forma inventiva e original construiu toda uma obra que causou grande impacto na juventude, tomando de assalto os momentos de silenciosa reflexão de meninos e meninas em todo o mundo. Os fãs camusianos só discordam entre si quando é preciso opinar sobre qual o melhor livro do escritor. Alguns apontam “A queda”, outros preferem “A peste” , um professor certa vez revelou gostar mais de “O mito de Sísifo”. Porém, nenhum livro do escritor argelino desperta maior encanto até hoje quanto “O Estrangeiro”. Certamente, é o mais popular e, segundo o escritor Arthur Dapieve, chega a ser “pop”, uma vez que inspirou até mesmo a musica “Killing an arab” da banda “The Cure”.

Em “O Estrangeiro”, Albert Camus trata do absurdo, um dos assuntos preferidos do autor e mostra que, não importa o quão indiferente sejamos em relação à vida, seremos sempre levados por caminhos alheios a nossa vontade. O primeiro parágrafo do romance é tido por muitos como “o melhor primeiro parágrafo da história da literatura” e dá a exata medida da inércia do protagonista Mersault. Ele fala sobre a morte da mãe, mas não lembra se aconteceu no dia anterior ou dois dias antes. O personagem não tem ambição, não almeja a nada, simplesmente se deixa levar. E mesmo com tanta indiferença, o destino o conduz por caminhos tortuosos e ele acaba por ser condenado à morte.

O que eu posso concluir de todo esse existencialismo romanceado é que não importa as escolhas você faça, a vida sempre dá um jeito de fazer o que quer com você. Ou seja, você não faz escolha nenhuma. Elas são feitas a sua revelia, alheias a sua vontade. O livre arbítrio não existe. O seu destino é um tremendo de um brincalhão, um pregador de peças. Ele faz você acreditar que tem controle absoluto da situação, que é dono e senhor do porvir, quando na verdade é ele quem controla você como um mamulengueiro faz com seus bonecos.

As nossas vidas são um encadeamento de ocorrências, algumas simbólicas e significativas, outras vazias e sem o menor sentido, mas quase todas acontecem sem que a gente possa fazer nada a respeito. Você até pode escolher fazer algo que sempre sonhou, trabalhar na profissão que escolher, ficar com a menina por quem se apaixonar, fazer a viagem que passou anos planejando, mas e depois? Algo vai sair do que foi traçado. A profissão que você escolheu pode não dar tanta grana e você pode acabar vendendo herbalife, seguro de carro ou (muito pior) advogando. A garota dos seus sonhos pode ter uma TPM que dure uma vida. E a sua viagem para conhecer a Suméria vai coincidir com uma tempestade de areia, tsunami, furacão Gustav e terremoto, tudo junto. Essas coisas não estavam previstas no roteiro porque a sua vida, diferentemente das novelas da Globo, não é escrita por você, meu caro.

O destino é ardiloso e pode lhe presentear com um subconsciente materialista, mesmo que você tenha um forte e consciente desejo de desprendimento monetário. Se você acha que tudo o que precisa é de uma cabana em Pipa, um empreguinho de meio expediente num quiosque na Praia do Amor e o resto da vida para ser feliz, o seu subconsciente lhe faz mudar pra São Paulo para trabalhar na Bovespa. E essa é a sua história, aliás, a nossa história. Minha, sua, de toda a raça humana (ô raça!).

Por tudo isso, sugiro que… Meu Deus! Pára tudo! Acho que estou escrevendo o meu primeiro texto de auto-ajuda. Tem todos os ingredientes: comecei citando um escritor consagrado, enumerei padrões de comportamentos e ocorrências mais ou menos genéricos passíveis de identificação com qualquer pessoa seja qual for a idade, sexo ou cultura e agora já estou dando conselhos e fazendo sugestões. Os próximos passos, eu e vocês que estão lendo já sabemos. Vocês vão ler meus livros como se fossem manuais práticos de suas vidas e vão se sentir super bem ao fazê-lo, eu serei idolatrado e convidado para palestras caríssimas com temas que sempre começam com “como” (“Como não parecer um idiota mesmo contra todas as evidências.” “Como se comportar numa festa de colunista social natalense.”) e depois vou ficar rico. Pelo menos é o que planejo fazer.

Bem, é claro que nada disso que estou falando tem a ver com o que eu esperava abordar quando comecei a escrever esse texto, mas fazer o que? A vida, o destino, o sei-lá-que-outra-porra me trouxeram a este último parágrafo, no qual eu tento sem muito sucesso livrar-me do nada absoluto sobre o qual estou escrevendo. Inútil, claro. Pois esse texto, assim como o roteiro da minha vida, não sou eu que escrevo.

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Uma resposta to “Coluna da Digi # 38 – Livre arbítrio”

  1. Lisandra Says:

    Albert Camus é fantástico. Terminei de ler recentemente “A morte feliz”, livro póstumo e um pouco menos conhecido, mas igualmente fascinante.
    Agora…pra que acreditar em um destino tão cruel quanto “terminar advogando”??!!! Arghhhhhhhhhhh Menos, menos…
    O acaso também pode trazer coisas boas. Como disse Leminski, qualquer dia, inadvertidamente, a gente pode “navegar em direção às Índias e descobrir a América”!

    🙂

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