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Coluna da Digi # 43 – A Patricinha Cultural

junho 29, 2010

Hoje, tenho a honra de republicar uma das minhas crônicas de maior repercussão. “A Patricinha Cultural” foi apresentada ao público em 28 de outubro de 2008. Teve centenas de comentários na coluna da Digi, foi repassada pra incontáveis destinatários por e-mail e, por fim, entrou no livro de crônicas “Mano Celo”. Aliás, é um dos contos favoritos dos leitores do livro.

Divirtam-se, pois eu mesmo ri bastante ao reler o texto.

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Patricinha Cultural

Ela tenta enganar. Faz pose de alternativa, mostra certo interesse por determinada área da cultura que pode ser cinema ou as músicas do Eddie. Mas não se engane, bravo guerreiro, mesmo esse interesse cultural é superficial. Aliás, tudo nela é superficial. Por trás de suas roupas cuidadosamente despojadas, de sua beleza (sim, ela é bonita.), de seu corpo escultural (é verdade: gostosa também.) e de sua sobrancelha levemente arqueada que lhe confere a expressão de pseudo-inteligência pretendida, se esconde… o vazio! Não há nada ali a não ser a quase que total ausência de elementos em toda a sua plenitude, a comovente solidão dos poucos neurônios habitantes de seu monástico cérebro.

Ela é uma típica Patricinha Cultural, espécime cada vez mais comum nesses tempos “mudernos”. À primeira vista, pode não parecer, mas elas são piores que as patricinhas originais. Chegam conversando com autoridade, sobre a obra de Caio Fernando Abreu ou sobre os CDs do Cordel do Fogo Encantado ( esta é a segunda banda pernambucana citada no texto. É que as patricinhas culturais, pelo menos as de Natal, são chegadas a uma pernambucanidade. Ah, e às vezes, sem perceber, elas dizem “Cordel do Fogo Encarnado.”), mas não demora mais do que 30 minutos para cair a máscara, descascar o verniz e você perceber a quantidade de asneiras que ela solta para todos os lados feito metralhadora descontrolada. Logo o deserto de sua medíocre existência se revela e você percebe que, apesar da beleza e formosura, estará em apuros ou ficará muito irritado se não cair fora imediatamente.

O fato mais interessante da vida de uma Patricinha Cultural é fumar maconha. Para ela, fumar e contar os episódios em que esteve aspirando a erva funciona como uma afirmação de rebeldia, um brado de inconformismo contra o sistema, uma demonstração de, tipo assim, atitude mesmo, saca? Muito foda, cara! Portanto se você estiver disposto a enfrentar mais de meia hora de conversa com uma Patricinha Cultural, prepare-se para ouvir coisas do tipo: “Eu estava indo ao cinema, para ver um filme francês, fumando um.”, ou “Eu estava ouvindo as músicas do Mundo Livre, viajando na erva, saca?”. E essa pequena ação norteia todas as outras. São incapazes, e a palavra aqui é mais que adequada, de ir tomar um copo d’água ou escovar os dentes sem levar um baseado a tira-colo, como se já não fossem débeis o suficiente para precisarem ficar se chapando por aí.

Por essas e outras, prefiro as patricinhas originais, legítimas, autênticas, verdadeiras. Elas, que não tentam disfarçar nem enganar ninguém, que não se esforçam em ser quem não são, que usam maquiagem em seus rostos e não em suas personalidades. Elas que assumem com orgulho e altivez toda a futilidade inerente a seu jeito de ser. Elas que são burras feito tricerátops, mas assumem a estupidez como uma bandeira, um símbolo de sua classe. Quer dizer, pensando melhor, fuja delas também!

Coluna da Digi # 42 – O EU Opressor

junho 17, 2010

Eu já vinha reparando em certas atitudes a minha volta. Gente que necessitava de uma atenção desmedida, carente de olhares, ombros e ouvidos. Essa carência vinha acompanhada de um certa dose de egoísmo, fazendo com que a atenção demandada por essas pessoas não fosse dispensada a seus interlocutores e foi aí que surgiu a ideia deste texto. Uma homenagem e pequeno desabafo destinado a essas pessoas que não perceberam a praticidade anatômica de se ter dois ouvidos e apenas uma boca. Publicado na Digi em 20.10.2008, “O EU opressor”.

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O EU opressor.

As pessoas não conversam, não dialogam. Na verdade, elas não sabem nem o que é dialogar. Elas esperam simplesmente o outro terminar de falar para poderem dizer elas próprias algo mais interessante e superior ao que está sendo dito. Elas não trocam idéias com os interlocutores. Pelo contrário, competem verbalmente, tentando sempre dizer algo mais engraçado, espirituoso, inteligente, bacana, para mostrar às outras pessoas o quão legais elas são, sem dar a mínima para o que os receptores têm a dizer. Os outros são meros pauteiros de assuntos a serem desenvolvidos com maestria pelo grande protagonista da comunicação: o EU. O EU não quer saber o que VOCÊ tem pra falar. Vai aguardar com a impaciência de uma criança às vésperas do Natal pela sua vez de lançar ao mundo seus inadiáveis conceitos definitivos. O EU é uma entidade egoísta, megalomaníaca e não divide com os demais os elogios que dedica a si mesmo. O EU é dado a auto-elogios.

Ninguém fica feliz com suas boas notícias. Tudo o que as pessoas querem é saber o que vão ganhar com isso. Ou interromper sua narrativa na metade para contar elas próprias legítimas boas notícias, pois são boas para elas e não pra você, e é você que deve ficar feliz com elas e não o contrário. Você precisa saber o quanto eles são foda, o quanto EU é o máximo, o quanto EU não dá a mínima pra você. Mas se EU tiver alguma coisa a ganhar com suas boas notícias, se EU puder mesmo transformá-las em boas pra ele e ruins pra você, ele prestará uma ardilosa atenção ao seu relato. Pode ter certeza. Acostume-se, rapaz. Você não tem amigos. Todas as relações são de interesses, nem sempre mútuos. Amizade é uma farsa, generosidade é ficção, desprendimento é fantasia pueril, solidariedade é tão real quanto um homem feliz.

As pessoas querem você. O EU quer você de capacho, de degrau para subir mais alto, mais rápido, uma fase inevitável a sua ascensão social. Já dizia a música do Jason: “Ninguém se importa com os problemas de ninguém! / Ninguém se importa com as tristezas de ninguém! / Ninguém se importa e acha que está tudo bem!” Trate portanto de se adaptar a essa nova realidade. Você é uma peça na engrenagem, e nada mais que isso, para fazer o EU brilhar em todo o seu esplendor. Você é o cabeça de área da sociedade, carregando o piano lá atrás para que ele, o EU, marque os gols, apresente o seu recital (solo!). Tente não chamar a atenção para si. Seja insignificante de fato, pois você já o é de direito.

Um amigo foi pra China. Passou um mês por lá. Ele olhava pros lados e via 1 bilhão de pessoas que… não o viam. Ele estava tão acompanhado quanto poderia estar, mas, ironicamente, não poderia estar mais sozinho, mais desamparado. Essa também é a sua vida. Seja bem-vindo a ela. Você está sozinho mesmo que não esteja. E não adianta buscar ajuda, refúgio, proteção. Não desperdice energia à toa. Não gaste seu tempo olhando em torno de você. Não há ninguém lá. O EU já está ocupado demais consigo mesmo. Em todo caso, siga seu caminho só, seja discreto e, se possível, TENHA UMA BOA VIDA!

Coluna da Digi # 41 – O ovo de ET mossoroense

junho 15, 2010

Em 19 de setembro de 2008, publiquei a crônica “O ovo de ET mossoroense”, após ler uma notícia publicada no jornal “O Mossoroense” em que um poeta local afirmava ter caído em seu quintal um autêntico ovo de ET. Gosto muito do texto. A história resultou em uma história bem divertida. Tanto que o próprio jornal “O Mossoroense”, através de Cid Augusto, solkicitou a publicação do texto depois, no que eu prontamente atendi.

Muitos leitores mossoroenses, foram até o sítio da Digi para reclamar furiosos de um suposto preconceito contra a cidade. Hoje, relendo a crônica para republicá-la neste blogue, diverti-me bastante e fiquei me perguntando como é que alguém pode interpretar mal uma anedota tão espirituosa e bem humorada.

Como falta senso de humor nas pessoas. Se todos soubessem como é bom rir de si mesmos, tornar-se-iam pessoas muito mais evoluídas.

Feito o registro, leiam e divirtam-se!

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O ovo de ET mossoroense

"Eu não sou Rosado, mas tenho a pele rosada".

Eles estão chegando! E são espertos, esses danados. Resolveram invadir nosso planeta via Mossoró. Eu sabia! Eu sabia! Bem que me disseram essa prosperidade toda, esse desenvolvimento experimentado na capital do oeste estava repercutindo lá fora. Eu só não esperava que as notícias estivessem indo pra tão lá fora assim. A coisa toda parece aquela história do HG Wells, que Orson Welles leu na rádio, a “Guerra dos Mundos”. Só que, em vez de uma rádio, eles resolveram anunciar a invasão pelos jornais. Sabe como é, né? Público mais qualificado, formadores de opinião. Eles não vão investir uma grana na invasão e viajar anos-luz pra fazer trabalho de amador.

O jornal “O Mossoroense” da última quinta-feira noticiou a queda em Mossoró de um “ovo de ET” e agora não se fala em outra coisa na cidade. Todos os setores da sociedade mossoroense têm se manifestado a respeito do insólito e cósmico acontecimento. O descobridor do objeto, um poeta local, tem recusado propostas milionárias de excêntricos empresários do petróleo de olho no artefato espacial.

Desde o episódio envolvendo Lampião há mais de 80 anos que uma possível invasão não gera tanto reboliço na cidade. Os cidadãos já se movimentam para organizar a resistência. Solicitam aos governos de todas as esferas, a instalação de artilharia anti-aérea em pontos estratégicos como a capela de São Vicente e o terraço da Estação das Artes Elizeu Ventania. Comenta-se na cidade que a Petrobras poderá contribuir, financiando as armas e a munição.

Alguns empreendedores rurais pensam em chocar o ovo e iniciar uma nova cadeia produtiva com a criação de ETs em cativeiro e a exportação da carne para todo o Brasil, exterior e até mesmo outros planetas. A carne e os ovos da aliencultura têm potencial para gerar mais dividendos para cidade que a caprinovinocultura, apicultura e fruticultura juntas.

E por falar em cultura, a Fundação Municipal já idealiza o “Auto do ET”, que vai narrar a história de luta de um povo contra a tirania extraterrena que tentou se impor frente à terra da liberdade. O espetáculo trará a atriz Tony Silva no papel da líder da resistência, terá texto de Tarcísio Gurgel e a música de Danilo Guanais será inspirada em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”. A direção deverá ser de Steven Spielberg (ET) ou do M. Night Shyamalan (Sinais).

A Prefeitura afirmou que o “Auto do ET” vai atrair turistas, gerando divisas para a cidade, aquecendo o setor turístico de Mossoró, movimentando a economia e criando emprego e renda para os mossoroenses. Os comerciantes e gerentes de hotéis estão muito entusiasmados com o novo evento.

Algumas entidades defensoras de direitos civis também têm se manifestado a respeito do “ovoni”, ops!, quer dizer OVNI. Os órgãos defendem que, se o ovo for chocado em Mossoró, o ET será tecnicamente um cidadão mossoroense e não um extra-terrestre, gozando portanto dos plenos direitos conferidos a um cidadão brasileiro.

Façamos então uma projeção do que pode acontecer. Digamos que o ET, ou melhor, o não-ET tenha o seu ovo chocado e se adapte perfeitamente ao clima do semi-árido, muito parecido com o encontrado em seu desértico planeta. Ele cresceria rápido graças às propriedades catalisadoras do desenvolvimento que as águas termais teriam sobre o seu organismo, fazendo com que em poucos meses, ele atingisse a aparência de um adulto. Ele aprenderia a falar português e convocaria uma entrevista coletiva, provocando grande expectativa junto à população.

Na data marcada, a imprensa toda reunida, autoridades presentes, a governadora viria de Natal e os rumores de que o presidente poderia baixar na cidade a qualquer momento não paravam. Inclusive, a presença do presidente seria importante caso o ser espacial exigisse como nos filmes: “Levem-me ao seu líder”. Alguns produtores de Holywood se fariam presentes para viabilizar a produção de um filme do “Arquivo X” todo produzido em Mossoró. Inclusive, Moacy de Goes poderia ser o diretor e certamente escolheria o Padre Marcelo Rossi para interpretar o ET.

O Teatro municipal seria pequeno para tanta gente, todos dispostos a ouvir o que o ilustre filho da terra de origem galáctica teria a dizer. Ele então, subiria ao palco, contemplaria a multidão silente e ansiosa e faria uma revelação bombástica: “Meu nome é Sxjrkrtdstbtkrt Rosado.”

Porque têm coisas que só acontecem no País de Mossoró. 

 

A volta de Cruvinel

junho 15, 2010

Em 2002, durante a Copa do Japão e da Coreia, criei o personagem Cruvinel. Trata-se de um cara que não entende nada de futebol, mas entende menos ainda de paquera. Por isso, aproveita os jogos do Brasil na Copa como uma oportunidade especial para puxar assunto com as gatinhas, uma vez que neste período todas as pessoas estão subitamente interessadas em futebol.

O divertido do personagem é que, por não entender nada de bola, as tentativas de aprender rapidamente sobre o esporte bretão a fim de não cometer muitas trapalhadas com as moçoilas resultam por demais desastrosas. Ainda mais porque o melhor amigo do Cruvinel, um extrovertido fanático por futebol e pela seleção chamado Quaresma, atrai o amigo para as maiores roubadas.

O personagem seguiu tendo suas histórias relatadas no mundial da Alemanha em 2006 e, agora em 2010, vou escrever mais textos com suas desventuras, tendo como temática a copa de 2010. Hoje é a estreia do Brasil e já estou programando o que o Cruvinel vai aprontar. Talvez uma ida ao “Forró da Coréia”, onde, como todos sabem, “só tem véia”.

Aguardem.

🙂