Coluna da Digi # 42 – O EU Opressor

Eu já vinha reparando em certas atitudes a minha volta. Gente que necessitava de uma atenção desmedida, carente de olhares, ombros e ouvidos. Essa carência vinha acompanhada de um certa dose de egoísmo, fazendo com que a atenção demandada por essas pessoas não fosse dispensada a seus interlocutores e foi aí que surgiu a ideia deste texto. Uma homenagem e pequeno desabafo destinado a essas pessoas que não perceberam a praticidade anatômica de se ter dois ouvidos e apenas uma boca. Publicado na Digi em 20.10.2008, “O EU opressor”.

***

O EU opressor.

As pessoas não conversam, não dialogam. Na verdade, elas não sabem nem o que é dialogar. Elas esperam simplesmente o outro terminar de falar para poderem dizer elas próprias algo mais interessante e superior ao que está sendo dito. Elas não trocam idéias com os interlocutores. Pelo contrário, competem verbalmente, tentando sempre dizer algo mais engraçado, espirituoso, inteligente, bacana, para mostrar às outras pessoas o quão legais elas são, sem dar a mínima para o que os receptores têm a dizer. Os outros são meros pauteiros de assuntos a serem desenvolvidos com maestria pelo grande protagonista da comunicação: o EU. O EU não quer saber o que VOCÊ tem pra falar. Vai aguardar com a impaciência de uma criança às vésperas do Natal pela sua vez de lançar ao mundo seus inadiáveis conceitos definitivos. O EU é uma entidade egoísta, megalomaníaca e não divide com os demais os elogios que dedica a si mesmo. O EU é dado a auto-elogios.

Ninguém fica feliz com suas boas notícias. Tudo o que as pessoas querem é saber o que vão ganhar com isso. Ou interromper sua narrativa na metade para contar elas próprias legítimas boas notícias, pois são boas para elas e não pra você, e é você que deve ficar feliz com elas e não o contrário. Você precisa saber o quanto eles são foda, o quanto EU é o máximo, o quanto EU não dá a mínima pra você. Mas se EU tiver alguma coisa a ganhar com suas boas notícias, se EU puder mesmo transformá-las em boas pra ele e ruins pra você, ele prestará uma ardilosa atenção ao seu relato. Pode ter certeza. Acostume-se, rapaz. Você não tem amigos. Todas as relações são de interesses, nem sempre mútuos. Amizade é uma farsa, generosidade é ficção, desprendimento é fantasia pueril, solidariedade é tão real quanto um homem feliz.

As pessoas querem você. O EU quer você de capacho, de degrau para subir mais alto, mais rápido, uma fase inevitável a sua ascensão social. Já dizia a música do Jason: “Ninguém se importa com os problemas de ninguém! / Ninguém se importa com as tristezas de ninguém! / Ninguém se importa e acha que está tudo bem!” Trate portanto de se adaptar a essa nova realidade. Você é uma peça na engrenagem, e nada mais que isso, para fazer o EU brilhar em todo o seu esplendor. Você é o cabeça de área da sociedade, carregando o piano lá atrás para que ele, o EU, marque os gols, apresente o seu recital (solo!). Tente não chamar a atenção para si. Seja insignificante de fato, pois você já o é de direito.

Um amigo foi pra China. Passou um mês por lá. Ele olhava pros lados e via 1 bilhão de pessoas que… não o viam. Ele estava tão acompanhado quanto poderia estar, mas, ironicamente, não poderia estar mais sozinho, mais desamparado. Essa também é a sua vida. Seja bem-vindo a ela. Você está sozinho mesmo que não esteja. E não adianta buscar ajuda, refúgio, proteção. Não desperdice energia à toa. Não gaste seu tempo olhando em torno de você. Não há ninguém lá. O EU já está ocupado demais consigo mesmo. Em todo caso, siga seu caminho só, seja discreto e, se possível, TENHA UMA BOA VIDA!

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2 Respostas to “Coluna da Digi # 42 – O EU Opressor”

  1. Gabriel Medeiros Says:

    Grande honra receber sua visita, Fialho. Do seus textos já sou admirador há uns bons anos. É uma referência para quem tá começando, como eu. E, não sei se por querer, acaba agregando os natalenses que têm esse estranho prazer. Foi por aqui que tomei conhecimento do que escreve Márcio – um monstro. Espero que o tempo me dê competência para beliscar um espaço nesse grupo.

    Forte abraço.

  2. Carlos Augusto Says:

    Excelente texto, penso a mesma coisa. Infelizmente.

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