Archive for julho \30\+00:00 2010

Pérolas 3 – Por Siney Cláudio

julho 30, 2010

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Coluna da Digi # 50 – O Raqueiro

julho 29, 2010

No início de 2009, acompanhei uma conhecida relatando uma história estarrecedora, apesar de cômica. Era a epopeia de um namoro trágico vivido por uma amiga íntima que, por puro temor de ficar sozinha, envolveu-se com um playboyzinho da cidade de caráter mais que discutível. A garota se submeteu a humilhações e agruras mil, até o traumático desfecho, após o qual ainda se sentiu culpada. Para minha surpresa, porém, o roteiro que ela expôs é mais comum do que se pensa, corriqueiro até, nessa fazenda iluminada que Natal insiste em ser.

O episódio contado por ela revelou um novo personagem para crônica: “O Raqueiro”. Trata-se de mais um espécime integrante da fauna natalense de figuras carimbadas. A coluna da Diginet, publicada em 07.01.2009 foi mais um micro-sucesso na rede mundial de computadores, agariando algumas dezenas de comentários e milhares de visitas. Foi minha coluna de número 50 da Digi.

Boa leitura, major!

***

O Raqueiro

Ele tem um notável problema de dicção. Como um Cebolinha mal programado troca o “V” pelo “R” sem a menor cerimônia. Isso não o atormenta. Diz ser coisa do sotaque interiorano, pois cresceu no campo, em meio a criações de gado e safras das mais diversas. E foi precisamente no saudável ambiente interiorano, de pessoas humildes e trabalhadoras, mas também rudes e pouco intruídas, onde cresceu e apreendeu valores que permeiam sua vida inteira. Porém, acabou por se identificar muito mais com a rudeza e ignorância do que com a humildade e o trabalho que enobrece o homem e lhe atribui caráter.

É que o Raqueiro autêntico, que gosta de raquejada, de Carraleiros do Forró e de se mostrar pro porro, nunca precisou dar um prego numa barra de sabão. O pai já trabalhou por ele. É fazendeiro rico, criador de gado, produtor de muitas toneladas de grãos, dono de terras e dos mais modernos equipamentos para otimizarem o cultivo, desde ordenhadores computadorizados a tratores de último tipo.

Com tanto dinheiro sobrando e já havendo outro trabalhado por ele, só resta ao Raqueiro curtir uma vida boa, andar pelos interiores do RN, tal qual um Ojuara sem nenhum caráter, na sua suntuosa picape de novo rico e gastar a polpuda mesada que nunca falta. É verdade que ele também costuma vir ao litoral e à nossa capital (que aliás é uma cidade do interior à beira-mar) e se sente em casa por aqui. Ainda mais nessa época de veraneio, quando pode ir de Pirangi a Muriu, ver concertos dos mais variados repertórios (os Aviões, os Solteirões, os Raparigueiros, os Plays, Rictor & Léo) e atolar seu 4×4 em areias, recebendo socorro de veranistas desavisados e bem-intencionados. Tenho a impressão que atolar seu veículo é um momento de glória, pois dá a ele a oportunidade de exibir sua condição de vida confortável para toda uma turba de pessoas que se amontoam como moscas em redor do seu possante.

Nas vaquejadas, chega a um bar e paga cinquentinha ao sanfoneiro para não parar de tocar um instante, mais cinquentinha ao garçom pra não arredar do seu lado e pede todo tipo de bebida pra não faltar nada nem pra ele nem pro seu séquito de bajuladores e marias-botinas que mantém o seu ego inflado com elogios incessantes, além de darem ouvidos a suas incríveis peripécias e violentas pelejas em que dera cabo de 3 ou 4 no braço e puxara uma arma para outros tantos.

O Raqueiro, por ter tido sempre tudo nas mãos, acabou por não se habituar a ser contrariado, tendo portanto, desenvolvido no âmago do seu ser uma natureza deveras violenta. Traduzindo para uma linguagem que até ele entenda: é um valentão sem cérebro doido por uma briga. Vive provocando intriga e contando seus causos cheios de exageros e inverdades em que enfrentaram não-sei-quantos e atiraram em não-sei-quem. O Raqueiro anda armado e em bando. É capaz de partir para cima de um pobre rapaz solitário e espancá-lo com a ajuda de 5 comparsas e depois sair bradando por aí que estava quieto, na dele, e foi atacado em sua honra.

Aliás, honra para ele, é algo exclusivamente masculino. O Raqueiro é representante de toda uma cultura coronelista e machista nordestina. Coisa muito da nossa. Logo, por uma questão de conservação da moral e dos bons costumes, todo Raqueiro que se preze deve tratar as mulheres como lixo. Sobretudo as namoradas. Muitas vezes chama as mulheres de vacas (algumas vezes de raparigas). E pra combinar com a saborosa ruminante, ainda orna sua cabeça com belos pares de chifres. Sai escondido, trai todas as semanas e dá em cima até das amigas da namorada. Tudo isso além de gritar, humilhar, diminuir e destratar sua “querida” sempre que possível. Dirige-se a ela sem qualquer cortesia e é incapaz do menor gesto de carinho (beijar em público é feio!). E assim segue sua vida e arranjando garotas subservientes que se submetem aos seus caprichos de menino mimado e ignorante de olho nas posses, no sobrenome da família e nos hectares da fazenda.

Cortesia e gentileza são atributos desconhecidos do Raqueiro, assim como são muitas as fontes de sua completa jumentice. Por favor e Obrigado, por exemplo, nunca fizeram parte do seu vocabulário de pouco mais de 100 palavras.

É fácil reconhecer um Raqueiro. Fala alto como se a cidade inteira precisasse saber quanto custou o cavalo de raça que adquiriu na última Festa do Boi. Conta vantagens sem parar de coisas que fez e surras que deu e raparigas que comeu. Sai ciscando por aí e cantando pneu com sua caminhonete cabine dupla importada. Chama os amigos alternadamente de “major” ou “meu patrão”, uma vez que desconhece quaisquer outras formas de se referir às pessoas.

Se você encontrar um tipo assim por aí (e acredite: você vai encontrar), corra como se estivesse fugindo da doença da vaca louca ou de uma manada de zebus enfurecidos. Porque se ele lhe pegar pra prosear, major, num rai ser muito bom não.

Pérolas 2 – Por Siney Cláudio.

julho 28, 2010

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Meu Natal em Natal por Ânderson Foca.

julho 28, 2010

Ânderson Foca

O MEU NATAL EM NATAL.

Por Anderson Foca

Ontem estive presente numa mesa redonda dentro da programação do SBPC. Por lá estavam outros produtores culturais da cidade além de uma platéia atenta para discutir os rumos da cultura independente em Natal.. No meio do debate iniciei uma reflexão sobre aquele que pode ser o maior período cultural e festivo da cidade: o Natal em Natal.

Eu digo que pode ser, porque de fato ainda estamos longe de ter um evento que faça parte dos planos turísticos das pessoas de outras cidades. Comparando com ações culturais que participei tocando ou cobrindo esse ano, caso da Virada Cultural de São Paulo, Festival de Inverno de Garanhuns ou o Carnaval de Recife e Olinda chega a ser pífia intenção da prefeitura em tornar o mês de dezembro atrativo em termos culturais.

Isso só acontece porque a prefeitura age como se fosse dona do evento, produtora das ações e responsável direta pelo resultado dela. Alô gestores, vamos acordar. Eventos grandiosos são aqueles em que a comunidade abraça como dela, que a iniciativa privada enxerga possibilidade de lucrar, que o cidadão se sinta participando e opinando. Resumindo o papo: o Natal em Natal precisa ser das pessoas e não dos governos.

O Carnatal, um dos maiores eventos populares da cidade, só é popular como é porque as pessoas não vêem seus organizadores como donos absolutos do projeto, não tenho a conta mas acredito que nem 10% da população sabe que quem promove o evento é a Destaque Produções. Cada bloco tem suas responsabilidades, cada camarote tem sua meta própria, a prefeitura e o  governo  preparam a rua e incentivam no que é necessário, os hotéis fazem divulgação adicional e a população vai brincar ao som do que a maioria gosta. Pagando ou de graça! Um exemplo de sucesso em que a população abraçou o projeto como dela (sem fazer juízo de valor ou de gosto pessoal). Lógico que o Carnatal tem suas distorções, atrapalha a vida de um monte de gente ao redor da festa e poderia evoluir também.

Dito isso, acabei me pegando fazendo uma análise como seria o meu Natal em Natal e que modelo utilizaria para realizá-lo. Segue passo-a-passo as ações:

1) Pediria aos orgãos de turismo, saúde, educação e cultura envolvimento no projeto com verba direta direcionada ao evento. Estipularia com antecedência qual o montante de dinheiro público teria para o investimento nas ações do mês inteiro. Somaria todas as esferas, municipal, estadual e federal numa coisa só, custurando politicamente a ação;

2) Com a verba estipulada pediria um estudo de todos os centro culturais, teatros, casas de show, eventos, festas populares e festas religiosas que ficam abertas em dezembro e financiaria parte da programação economizando estrutura física de som e luz. Espalharia ações em toda a cidade;

3) Contactaria a classe de produtores culturais da cidade através de edital (ou coisa parecida) para que fossem propostos palcos, ações, espetáculos de ocupação da cidade durante o  Natal em Natal. Passaria a responsabilidade de cada ação para os projetos aprovados e fiscalizaria a realização de todos eles. Deixaria também que esses projetos tivessem autonomia para captação de recursos diretos;

4) Realizaria o Auto de Natal em forma de oficina fixa de teatro, agregada ao Departamento de Artes da UFRN e do NAC;

5) Procuraria Sescs, Sebrae, Fiern, entre outras siglas para propor programação adicional, oficinas, palestras, workshops e ações do tipo;

Acredito que essa descentralizaçã o de ações, divisão de responsabilidades, ecletismo de propostas e envolvimento maior da comunidade traria para Natal uma movimentação que despertaria interesse nos turistas e nas pessoas da própria cidade e faria com que o nosso tão sonhado evento de fim de ano se tornasse realmente relevante como a cidade merece. Sem contar que  a roda da economia da cultura municipal giraria de maneira positiva e responsável.

Do jeito que está o Natal em Natal ninguém ganha. A prefeitura é criticada sempre pelo lineup ou condução das ações, a cidade não recebe o evento como deveria receber e a economia não se beneficia como poderia. Tem gente ligada a parte cultural da cidade até propondo um boicote aos festejos do fim de ano (como se a responsabilidade de propor uma mudança não fosse nossa já que o dinheiro público financia o evento). Porque não dividir as responsabilidades e os resultados?

PS: Se quiserem replicar esse texto em blogs, jornais, portais ao afins sintam-se a vontade.

Coluna da Digi # 49 – Fazendo Justiça

julho 27, 2010

Hoje publico a crônica de número 49 da Digi, publicada em 29 de dezembro de 2008. Mais umas miudezas literárias pra consumo moderado. Aproveitem.

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Há poucas semanas, ao mencionar alguns dos melhores inícios de livros que li na vida, pequei por omissão, uma vez que não citei o antológico princípio de “A Lua vem da Ásia” de Walter Campos de Carvalho. Alertado nos comentários por Daniel Minchoni, tento, sem a intenção de camuflar o meu delito, fazer justiça neste mesmo espaço onde operei o erro.

“A Lua vem da Ásia” começa da seguinte forma:
“Aos 16 anos matei meu professor de lógica, invocando legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? –, logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte no Sena, embora nunca tenha estado em Paris.

Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.”

 Já no princípio da obra, Campos de Carvalho nos apresenta ao seu narrador/personagem, Astrogildo. Um homem que conta sua história de forma frenética e verborrágica, falando sem parar, encadeando histórias, fatos, lugares, acontecimentos, viagens e narrativas e demonstrando uma natureza pouco ortodoxa, excêntrica até. A trajetória inverossímil do personagem nos faz questionar se estamos diante de um herói improvável que vivenciou de tudo e esteve em todos os lugares possíveis, um narrador astuto e extremamente imaginativo, ou ainda um mentiroso inveterado, destilando sua farsa diante de leitores inocentes e de corações abertos.

Aos poucos, Campos de Carvalho vais nos conduzindo pelos caminhos que revelam a verdade do personagem e sua história, initerupta, acelerada e singular diverte, mas também se mostra dura a uma certa altura. Astrogildo tenta nos provar que a lua vem, de fato, da Ásia e sua narrativa que, a princípio aviva nossa curiosidade, acaba por nos causar uma leve angústia em nossa cumplicidade de leitor ao fugir da realidade lado-a-lado com o protagonista.

Ato 2.
Também faz pouco que indiquei aqui os 5 melhores livros que li em 2008. Bem, acabei por citar 5 porque queria utilizar o método “top 5” aplicado à exaustão pelo personagem de John Cussak em “Alta Fidelidade”. No entanto, teve um livro que li este ano que poderia tranquilamente figurar na lista sem fazer vergonha.

Trata-se do “Balé ralé” de Marcelino Freire. É um desses livros que surpreende a cada conto e nos faz querer ler o próximo avidamente, imediatamente, ontem, se possível for! Personagens com o rosto marcado por rugas de sofrimento, cicatrizes de desamor, incompreensão e abuso. Cada protagonista conta sua história, sua versão definitiva do que pode ser chamado de vida. Biografias do submundo, realidades periféricas de um país que todos vemos, mas nem sempre enxergamos. “Balé ralé” é surpreendente e encantador. Façam justiça vocês também: leiam!

 Ato 3.
“Wall-e”.
Não escrevi nada sobre filmes, pois 2008 não foi um bom ano para mim nesse sentido. Poucas foram as produções que me arrebataram, ao contrário de anos anteriores. Aliás, estaria sendo generoso se afirmasse que vi mais de um filme digno de registro este ano. Em todo caso, vi uma produção que causou o efeito hipnótico que podemos esperar de uma obra-prima cinematográfica: “Wall-e”. A saga do robozinho programado para fazer exatemente aquilo que se deve fazer é uma belíssima metáfora para o nosso mundo, a solidão e as pequenas coisas que fazem a vida valer a pena. No blogue de Márcio Nazianzeno queridobunker.wordpress.com, foram feitos alguns posts a respeito do filme. Quem quiser, pode acessar e buscar, pois foram escritos na época do lançamento da animação no cinema.

 Por hora, é isso. Feliz 2009!

Pérolas – Siney Cláudio

julho 26, 2010

 

Siney Cláudio

Siney Cláudio é redator publicitário, empresário, contista e cartunista de mão cheia. Participou de várias edições do Salão de Humor de Piracicaba com charges, cartuns e com as tiras “Pérolas” que tive a oportunidade de conhecer semana passada. O artista, que nasceu em Porto Alegre, mas vive há muitos anos em Salvador, está em temporada de trabalho em Natal. Semana passada ele me mostrou suas divertidíssimas “Pérolas” e me senti na obrigação de divulgar aqui pros meus leitores.

Pérolas – Cliquem nas imagens para vê-las em tamanho maior.

Coluna da Digi # 48 – Top 5 2008 – Literatura

julho 23, 2010

Coluna da Diginet, publicada em 17 de dezembro de 2008.

Boa leitura. 🙂

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Top 5 2008 Literatura

Edson Cruz, jornalista e escritor, responsável pelo sítio de internet “Cronópios” me pediu para responder às seguintes questões “Quais os 3 melhores livros que você leu este ano e por que?” Aproveito as respostas que estou enviando para ele, amplio um pouco o número para 5 em referência ao protagonista do livro livro “Alta Fidelidade”, do inglês Nick Hornby, e transformo na coluna da semana da Digi, dividindo com vocês algumas impressões literárias.

Jesus Kid, romance.
Autor: Lourenço Mutarelli.

Já fazia algum tempo que eu queria ler um livro do Lourenço Mutarelli. “O cheiro do ralo” não servia, pois já tinha visto no cinema. Então procurei pelo “Natimorto”. Não tinha na livraria. O vendedor me ofereceu o “Jesus Kid” e resolvi aceitar a sugestão. Não me arrependi. Mutarelli ganhou, não só um leitor, mas também um fã. Alguém que parte da claustrofóbica premissa de escrever sobre um escritor escrevendo sem cair na mesmice, surpreendendo e divertindo mais a cada capítulo, merece nossa atenção.

O livro conta a saga do escritor Eugênio, autor de livros de bangue-bangue, vendido em bancas de revista. Ele é contratado por dois cineastas para ficar trancado num hotel escrevendo um roteiro de um filme sobre um escritor que fica trancado num hotel escrevendo um roteiro de um filme para dois cineastas. Se a premissa já é por demais confusa e absurda, imaginem se o melhor amigo do escritor for o personagem principal dos seus livros, o caubói Jesus Kid. E se o hotel for cenário para um congesso de Pinups(!)? As situações divertidas não cessam do início ao fim do livro. Recomendo.

A ponto de explodir, contos.
Autor: Sérgio Fantini.

Conheci o autor antes de ter lido sua obra. Nessas andanças literárias Brasil afora, acabamos por nos tornar amigos. Quando soube que ele lançaria um livro com edição independente lá em BH, encomendei um exemplar. Li, gostei e encomendei 10 para presentear amigos escritores natalenses. Os contos do livro “A ponto de explodir” são de uma fluidez deliciosa. Os temas das histórias variam já que se trata de uma reunião de textos feitos para coletâneas, suplementos literários e publicações diversas. Mas todos têm um ponto em comum: a ótima qualidade, transformando o amigo Sérgio Fantini na maior surpresa de 2008.

Quem quiser encomendar um exemplar ou simplesmente aperrear o autor, o e-mail dele é: sergiofantini@gmail.com

Matadouro 5, romance.
Autor: Kurt Vonegut.

Kurt Vonegut é um escritor americano que oferece algo que nem sempre os seus compatriotas estão dispostos a compreender: entrelinhas. Ele mistura sutilezas e absurdos, alienígenas e segunda guerra mundial, viagens no tempo e crítica social. Com ironia, sarcasmo, uma lógica desconcertante, ele expõe toda a intolerância, preconceito e crueldade dos norte-americanos e, por tabela, de todos os seres humanos.

Este livro conta a história do americano Billy Pilgrim que lutou na Segunda Guerra Mundial e, um belo dia, sua mente começa a viajar no tempo, fazendo com que ele vivencie diversos momentos de sua própria vida. Um desses momentos é o bombardeio da cidade alemã de Dresden, efetuado por tropas americanas. No episódio, morreram cerca de 135 mil pessoas, o dobro de mortes decorrentes da bomba de Hiroshima. Apesar de lidar com temas densos e dignos de profunda reflexão, Vonegut consegue ser extremamente divertido, embora nos deixe algumas vezes com a sensação de estarmos rindo para não chorarmos.

Fora de órbita, contos.
Autor: Woody Allen.

Woody Allen é histérico, cínico e hilariante. Faz do absurdo, um playground inesgotável de novas possibilidades ficcionais. Este livro é mais uma prova disso. Em um dos contos deste livro, ele desvenda um perigoso esquema de tráfico de sobremesas raras como a famosa “trufa branca”, utilizando para tal todos os clichês de suspense e mistério que envolvem uma boa história de detetives. Porém, o absurdo em Woody Allen não está apenas nas premissas das histórias, mas também na forma original com que ele constrói as narrativas e as frases inacreditáveis proferidas por seus narradores: “Eu contei para minha mulher que fiquei com o olho roxo porque o universo estava em contração, e não em expansão, e na hora eu estava distraído.” Recomendo, assim como todos os anteriores do autor. Dos que eu lembro agora, tem o “Que loucura!”, “Sem plumas” e “Cuca fresca”. Leiam e tentem não morrer de rir.

Cordilheira, romance.
Autor: Daniel Galera.

Outro dia, no Solar Bela Vista, ouvi o escritor gaúcho Moacyr Scliar dizer que não há romancista pronto antes dos 40 anos. Uma regra formulada com base em sua experiência de mais de meia centena de livros. O Scliar com certeza sabe o que está dizendo, mas eu prefiro acreditar que o seu conterrâneo, Daniel Galera, é a exceção que confirma a regra. “Cordilheira” é o terceiro romance do escritor de 29 anos. Daniel vem arrebatando leitores de todas as idades no Brasil e nos vários países onde vem sendo publicado.

“Cordilheira” conta a história de Anita, escritora que teve seu romance de estréia cultuado pela crítica e público. Elogiada, admirada, ela parece ter tudo o que uma garota pode querer. Mas não. Tudo o que ela quer é ter um filho. A idéia fixa toma conta dela e a faz fugir para a Argentina, onde se envolve com tipos muito estranhos.

O livro apresenta alguns elementos recorrentes na obra de Daniel Galera, como a insegurança e a questões referentes à decisão certa a tomar. Os personagens são quase reais, sofrendo angústias cotidianas e apresentando dúvidas existenciais que bem podiam ser nossas (se é que não são). Galera tem sensibilidade de sobra e seus livros são cheios de uma humanidade autêntica. Aproveito para recomendar também os outros livros do autor: “Até o dia em que o cão morreu”, “Mãos de cavalo” e “Dentes guardados”, que pode ser baixado gratuitamente no endereço http://www.ranchocarne.org

Coluna da Digi # 47 – Princípios Literários

julho 22, 2010

No fim de 2008, bateu aquela vontade de querer falar sério a respeito de assuntos edificantes, culturais e minimamente profundos. Tudo em virtude do incômodo que me causava o rótulo que começava a ser fixado em minha fronte de “colunista polemicozinho da Digi”, por publicar crônicas divertidas e cotidianas, mas demasiadamente rasas nas mensagens que transmitiam e pouco rebuscadas na elaboração. Enfim, queria ser mais reconhecido pelo que poderia dizer, além daquelas bobeiras, um pouco influenciado também por textos primorosos de outros colunistas ou blogueiros como Win Rodrigues e Sérgio Vilar. Enfim, fui acometido por um certo recalque, um pouco de vaidade, uma necessidade de auto-afirmação e um sentimento de “mamãe, eu quero ser Pablo Capistrano” repentino. Eu queria dizer para todos aqueles leitores que vinham à minha coluna divertir-se com as sátiras sociais, carnatalescas e jocosas que eu costumava publicar que eu falava besteira sim, mas também tinha lido bons livros, visto bons filmes, enfim, me mostrar um pouquinho pra todo mundo, dando a entender que por trás daquele senso de humor incontido havia sim um cérebro que se exercitava com saudável frequência. Era uma maneira de gritar pra todo mundo: “Ei, eu li esse livro, viu? Eu assistie esses filmes. Se liguem!”

Na coluna anterior (Os Irmãos), eu já mostrara toda a minha malemolência de leitor de Dostoievski. Nesta, chamada de “Princípios Literários” e publicada em 08 de dezembro de 2008, eu dava continuidade a uma série de escritos sobre literatura. O curioso é que a audiência da coluna, sempre que eu falava de assuntos mais sérios e culturais, caía consideravelmente.

Mas, enfim, não podemos dizer que eu tento de vez em quando, né não?

Aproveitem a leitura.

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Princípios Literários

A primeira impressão é a que fica? Na vida real, essa é a maior balela da paróquia. Um lugar comum repetido à exaustão pelas muitas pessoas que frequentam lugares comuns e, na falta de pensar por si, recorrem a esse expediente pouco original de se apropriar de pensamentos alheios. Mas apesar de uma inverdade, repetida à exaustão, conheço alguns autores que levam muito a primeira impressão muitíssimo a sério.

O primeiro deles é Deus, um Cara de visão e muito culto que sempre valorizou os livros, tanto que em sua autobiografia reuniu 72 deles, apesar de se ocultar sob pseudônimos, em virtude de sua divina modéstia,conforme fez o Fernando Pessoa com suas personas poéticas. Deus escreveu “No princípio era o verbo.”, um belíssimo início, dando a medida exata do que viria a seguir: uma belíssima história, rica de personagens, com um protagonista carismático, um clímax apoteótico e um final apocalíptico.

Mas o Deus Cristão não foi o único a caprichar no começo de um bom livro. Outro dia em palestra de Moacy Scliar no Solar Bela Vista, soube que Gabriel Garcia Marquez reescreveu a introdução de 100 anos de Solidão 16 vezes. Um livro que guarda certa semelhança com a Bíblia no que toca o número de personagens. Aliás, dizem os maldosos que a maior inspiração de Garcia Marquez para o livro foi a lista telefônica da Colômbia.

Quem me chamou a atenção para inícios antológicos de grandes clássicos foi um escritor que admiro bastante. Um cabra culto e popular a um só tempo, que combina inteligência e erudição com uma boa dose de cultura pop, referências contemporâneas e fluência textual, produzindo crônicas e livros que extraem o máximo de prazer dos leitores. Ele se chama Arthur Dapieve e, vocês já devem ter percebido que, se trata de uma espécie de Pablo Capistrano Brasileiro. O Dapieve escreveu em meados de julho de 2001 uma crônica chamada “Melvillianas”, na qual discorre sobre a primeira página do romance “Mobydick” em que o narrador/personagem diz: “Chame-me de Ismael” (“Call me Ishmael”). Percebam a sutileza: o autor não diz que o nome dele é Ismael. Ele apenas pede que o chamem assim, fazendo com que o leitor passe o livro especulando se aquele seria o seu verdadeiro nome ou não. Fato ignorado por Carlos Heitor Cony, quando da tradução e adaptação para a Ediouro. Para evitar uma expressão que não soaria tão bem, o tradutor/autor preferiu: “Meu nome é Ismael”. Soa melhor, mas tira o charme da dúvida criada pelo Melville.

Uma rápida digressão. Certa vez, um autor, o Joca Reinners Terron, afirmou o seguinte: “Eu pensava que tinha lido todos os clássicos importantes da literatura. Mas aí descobri que só havia lido o Carlos Heitor Cony.” Nessa mesma crônica, Dapieve falava do livro “O Estrangeiro” de Albert Camus que, segundo ele, tem o melhor primeiro parágrafo da história da literatura. O início de “O estrangeiro” dá, em 5 ou 6 sentenças, a idéia exata da personalidade de Mersault, o protagonista indiferente com relação à vida, ao universo e tudo mais que se vê levado por insólitos e inusitados acontecimentos e acaba, de repente, condenado à morte. Na orelha da edição que eu tenho (da Record), Arthur Dapieve discorre sobre Camus, sua veia filosófica um tanto pop, o absurdo representado em sua obra e a liberdade tratada com maestria pelos filósofos e autores existencialistas. Mas o que marca mesmo é o princípio arrebatador: “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.”

Alguns textos costumam ter um início tão impactante que já fazem valer o livro inteiro. E nos conduzem a prosseguir a leitura para constatar se o restante da obra está à altura de seu ponto inaugural. Nos casos específicos de “Mobydick” e “O Estrangeiro” concluímos felizes da vida que as frases iniciais eram apenas o preâmbulo de grandiosas histórias. É que na literatura é assim: nem só os fins justificam os meios. Alguns inícios também o fazem com singular maestria.

Eu não tenho Twitter.

julho 19, 2010

Em abril de 2009, às vésperas de lançar meu último livro (Mano Celo), pedi a Marlos Apyus, meu assessor para assuntos internéticos, que elaborasse uma ação virtual para incentivar o público natalense a comparecer ao evento de lançamento e adquirisse um ou mais exemplares. Foi então que Marlos Apyus (sem combinar comigo) criou um perfil no twitter para mim no endereço www.twitter.com/@cfialho.

Dias depois, na fila do teatro, Patrício Jr., um dos autores do Jovens Escribas, elogiou uma postagem que eu havia feito naquele mesmo dia. Fiquei assustado ao tomar conhecimento de que havia alguém se passando por mim. Esclareci que não tinha perfil na rede social que estava conquistando a galerinha e pedi para alguns amigos que tinham conta no site propagar que o perfil com meu nome era falso.

Camila Groff em seu escritório de arquitetura.

Não adiantou. O perfil conquistou mais seguidores e cresceu bem mais do que o próprio perfil original de Marlos (@apyus). Depois do lançamento que, por coincidência ou não, esteve repleto de leitores e amigos, o próprio web-maker revelou-me ser o autor do meu perfil falso. Perguntou então se eu não queria assumir o papel, fornecendo-me a senha. Porém, achei melhor continuar a parceria. Eu continuaria pagando Marlos pelos seus serviços de assessoria e divulgando minhas ações literárias (os livros e eventos, além dos Jovens Escribas), os endereços na internet (coluna da Digi e blogue pessoal), além de ações cotidianas diversas que promovessem simpatia da opinião pública a ponto de conquistar alguns leitores. Concluímos ainda que, um dia, poderíamos até mesmo vender cotas de patrocínio para eventuais interessados. Por isso decidi investir no trabalho de Marlos como consultor e assessor.

Essa semana acabamos fechando os primeiros acordos comerciais. A arquiteta e blogueira Camila Groff (@camilagroff) nos contratou para divulgarmos o endereço http://camilagroff.wordpress.com, através do @cfialho. Outros dois clientes acordados foram o escritório de tratamento de imagens “Camaleão” (www.camaleaoart.com) e também o perfil no Flickr do artista visual Caio Vitoriano (http://www.flickr.com/photos/caiovitoriano/).  Ou seja, o investimento feito no Twitter começa a gerar dividendos para mim, graças ao profissionalismo e empenho do web-professional Marlos Apyus.

Marlos Apyus - Assessor altamente profissional, a despeito da baixa estatura.

Todos os dias ele me manda uma lista de assuntos que podemos abordar e alguns exemplos de tweets bem humorados, espirituosos, sagazes ou simplesmente simpáticos. Alguns links a serem indicados também geram um bom retorno de seguidores e também de retweets, me esclareceu. Daí, eu aprovo alguns, desaprovou outros e sugiro um ou outro assunto para ser abordado.

Hoje Marlos me escreveu com os assuntos do dia e dando algumas dicas para que eu potencialize ainda mais o meu perfil, conquistando mais seguidores e gerando audiência.

1 – Provocar uma disputa com alguma personalidade da cidade que também tenha perfil no site. Esse expediente é muito usado entre intelectuais que tenham colunas no jornal para se agredirem mutuamente, garantindo que os nomes de ambos permaneçam em evidência.

2 – Falar sobre assuntos relevantes e que estejam em voga. De vez em quando, dizer alguma frase de efeito a respeito de um tema pra passar uma imagem de rapaz espertinho.

3 – Indicar links que possam interessar às pessoas e gerar Retweets.

4 – Retuitar postagens interessantes ou que a média da população julgue interessante.

5 – Recomendar que os tuiteiros sigam alguns perfis, especialmente se estes forem de pessoas famosinhas e descoladas.

Acabo de responder o e-mail de Apyus, autorizando as ações. Espero que elas rendam mais audiência para o meu perfil e, consequentemente, favoreçam os anunciantes que tem surgido. Além, é claro, de atrair novos interessados em anunciar no meu perfil que, como já deixei claro aqui, não é alimentado por mim. E sim por Marlos Apyus, jornalista, músico, webdesigner e meu redator de tweets. Porque eu mesmo nunca nem acessei o site www.twitter.com.

Carlos Fialho

Arte dos garotos

julho 18, 2010

 

As artes de Fabrício Cavalcante e Caio Vitoriano continuam excelentes!

http://www.camaleaoart.com/ e http://www.flickr.com/photos/caiovitoriano/

Curtam!

Qualquer dia é dia.

julho 16, 2010

Hoje eu escrevi uma crônica à moda antiga, das que eu costumava fazer em meados de 2004, 2005. Com o tempo, a gente vai mudando o estilo de redigir, vai lendo mais autores, conhecendo outras narrativas, assimilando influências diversas e não tem jeito, vai transformando  os textos. Mas aí, hoje, tive uma ideiazinha simples e rabisquei uma história rápida. Ficou singelo, despretensioso e, talvez por isso, bem legal. Espero que gostem.

***

Qualquer dia é dia.

– Alô.

– Silvino?

– Eu.

– Queria te dar os parabéns. Desejar felicidade, muitos anos de vida e todas aquelas coisas que dizemos aos amigos em datas especiais como a de hoje. Feliz aniversário mesmo, meu irmão. Perdoe o discurso protocolar, mas o que de mais interessante se pode dizer num dia como hoje do que a obviedade das palavras consagradas, a repetição das construções tradicionais, a louvação de fórmulas ancestrais?

– Só que…

– Já sei. Você vai dizer que não precisava me incomodar, que não liga pra datas e outras milongas que a humildade lhe impele a dizer.

– Não, cara. É que hoje não é meu aniversário. A gente está em janeiro e só completo anos em setembro.

– Eu sei.

– Então, por que ligou?

– É que eu decidi sistematizar minhas ações para este ano. Cheguei à conclusão que perdia muito tempo com certas tarefas cotidianas que se repetiam durante o ano inteiro. Por isso estou otimizando o meu tempo em 2011. Vou poupar muitas horas e, consequentemente, produzir mais, se fizer tudo que tem data marcada em um mesmo dia. Por isso, hoje, dia 2 de janeiro, vou ligar pra todos os meus amigos e desejar um feliz aniversário.

– Tem certeza que isso dá certo?

– Claro. Você já se vê livre de congratulações pelo resto do ano.

– Mas não é a mesma coisa, né? Tem toda a simbologia da data, o valor de você lembrar da pessoa no dia dela.

– Essa é uma desculpa esfarrapada de quem tem preguiça de empreender um planejamento bem feito, meu caro. No caso dos aniversários dos amigos, a gente pode se antecipar. Já se sabe muito antes quando vão ocorrer os eventos. Também é certo que teremos que reservar um espacinho do nosso dia para transmitir os parabéns a quem completa mais um ano. Então, por que não concentrar todos os telefonemas num só dia? Além do mais, lembrei de você antes de todo mundo, não foi? Aposto que fui o primeiro a te dar parabéns.

– É. Foi. Beleza então. Valeu, cara. Obrigado.  Tchau.

– Peraí, tem mais uma coisa.

– O que?

– Feliz Natal, meu bróder e um 2012 sensacional pra você e toda a família. Muita saúde, paz, alegria, dinheiro, amor…

– Pelo amor de Deus!

Coluna da Digi # 46 – Os Irmãos

julho 7, 2010

No dia 24 de novembro de 2008, decidi dar uma quebrada na sequência de crônicas pueris e bem humoradas, partindo para um assunto mais sério e edificante. Falei do livro “Os Irmãos Karamazov” do Dostoievski. Uma homenagem em função do relançamento do livro numa belíssima edição da Ediouro naquele ano. Se você não leu o livro, espero que esta crônica sirva de estímulo.

***

Os irmãos

É certo que os artistas buscam na sua arte a perfeição. E mais certo ainda que quase nenhum deles consegue. No caso dos escritores, já ouvi diversos relatos sobre qual teria sido o livro mais impactante para muitas pessoas, aquele que, segundo opiniões particulares, provocaram as mais fortes e duradouras sensações, que tiveram o poder de mudar opiniões, inspirar atitudes, alegrar corações, impulsionar vidas. Acredito, sinceramente, que os livros tenham esse poder. A palavre escrita é a mais formidável arma urdida pela mente ardilosa do homem. Certa vez li numa biblioteca uma frase de Mario Quitana: “Os livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.”

Uma amiga me disse que o livro que havia mudado a vida dela e marcado para sempre sua personalidade fora “O apanhador no campo de centeio”. Li há alguns anos e confesso que, para mim, tal obra não causou grande impressão. O eleito, na minha opinião, é outro. O romance que mais penetrou no meu juízo, elevando o patamar de história bem contada para um patamar estratosférico, me perseguia muito antes de sua leitura.

Uma vez, adolescente ainda, lendo uma crônica de Nélson Rodrigues sobre futebol, me deparei com a seguinte frase: “Flamengo e Fluminense são os Irmãos Karamazov do futebol.” Aquela sentença despertou minha curiosidade de tal forma que procurei saber quem eram aqueles personagens comparados aos dois clubes. Quando descobri que se tratavam dos protagonistas de um livro clássico tomei a irrevogável decisão de ler a obra. Anos depois, desfilando os dedos pelas lombadas de livros em prateleiras de livrarias, encontrei por acaso uma belíssima edição da Ediouro de “Os Irmãos Karamazov” de Fiodor Dostoievski.

A primeira reação foi a de amaldiçoar-me pela indesculpável negligência de nunca ter procurado a obra até aquele momento. Comprei-o e fui arrebatado pela leitura do tomo com tal impacto que soube estar diante de uma prosa diferente. “Os Irmãos Karamazov” é a obra derradeira do autor, quase póstuma, iniciada apenas 2 anos antes de sua morte e enriquecida com as mais marcantes características de seus romances anteriores, além de contar com diversas tramas paralelas que remetem à própria vida do escritor.

O livro gira em torno de um assassinato. O velho patriarca rabugento, hedonista, libidinoso e irresponsável Fiodor Karamazov aparece morto. A partir daí a narrativa central do romance tentará elucidar quem é o culpado pelo crime, ao mesmo tempo em que diversos núcleos com histórias paralelas são desenvolvidos. Os principais suspeitos do crime são os seus 4 filhos: Aliôcha, Dimitri, Ivan e Smierdakov, este último ilegítimo.

Aliôcha é seminarista em um mosteiro e, em certo ponto do romance, consola um pai que perde o seu filho prematuramente; Dimitri é um jovem idealista de temperamento forte que se apaixona pela mesma mulher que seu pai e, por isso, passa a ser suspeito pela morte do velho; Ivan é um intelectual ateu de firmes princípios; e Smierdakov é o filho bastardo e maltratado pelo pai. Os personagens são profundos e suas motivações cativam o leitor enormemente graças aos perfis psicológicos cuidadosamente elaborados por uma autor minucioso de imaginação fértil e ritmo narrativo frenético.

O que mais me fascinou quando da leitura do livro foram os elos entre a história ficcional e a realidade: Dostoievski também teve o seu próprio pai assassinado (como o patriarca Fiodor Kramazov); ele também teve um filho morto ainda criança (como um desolado pai que é consolado pelo jovem seminarista Aliôcha); foi um jovem idealista ateu (como o terceiro filho Ivan); cumpriu pena na Sibéria a mando do Czar por suas idéias supostamente socialistas e na prisão conheceu um homem injustamente condenado pelo assassinato do pai (como o filho mais velho Dimitri).

Unindo esses elementos de sua própria existência, como em um imaginativo quebra-cabeça, Dostoievski escreveu uma autobiografia disfarçada e lembra Abert Camus, quando este afirmou: “para escrever sobre filosofia, escreva romances”. No caso do russo, para escrever uma grande biografia, ele criou uma impactante obra de ficção. É certo que todo autor inclui nos seus textos, elementos de sua própria vida. Todas as histórias, mesmo que ficcionais se alimentam de experiências de vida do autor e, através delas, compõe histórias, personagens e situações. E talvez tenha sido justamente por incluir elementos autobiográficos em profusão que  o velho Fiodor tenha, no fim da vida, produzido um romance impecável, irrepreensível, admirável sob todos os aspectos.

Relendo a introdução (brilhante, por sinal) da edição da Ediouro, escrito por Otto Maria Carpeaux, atento para outro detalhe que ajuda a elucidar o porquê de o livro ser tão completo, tão rico e envolvente. Ele contempla todas as principais qualidades das obras anteriores do autor. “É um romance policial psicológico, como Crime e castigo; é, quanto a Dmítri, a história de um idealista mal julgado, como O idiota; é, quanto a Ivan, o romance dos intelectuais ateus, como Os demônios; é, quanto a Aliocha, a história da formação de um (homem) novo, como O adolescente”

Escrevo esta crônica em louvor ao melhor livro que já li até o momento para exaltar a novíssima edição recém lançada pela editora 34, traduzida diretamente do russo e qu, certamente traz muito mais aspectos do original que fatalmente se perderam no telefone sem fio das traduções indiretas. Aproveito também para confessar um crime, uma vez que o crime é um dos temas mais recorrentes na obra de Dostoievski. Até o presente momento, “Os Irmãos Karamazov” é o único livro do autor que li. Crime reparável e que já me predisponho a fazê-lo. Mas antes, vou reler a edição nova. E aconselho que façam o mesmo. O fim do ano é uma boa época para se dar um presentaço desses.

 “Os Irmãos…”  é um desses raros momentos em que um artista alcança a perfeição na execução de sua arte, o que faz dele, uma leitura indispensável, imperdível. Tenham todos uma boa leitura e espero que o livro cause em seus espíritos uma impressão tão forte quanto causou em mim.

Capitania dá um calote no Rock!

julho 1, 2010

Ânderson Foca realizou alguns serviços para a Capitania das Artes a partir de 2009, quando a Prefeita Micarla de Sousa assumiu a prefeitura do Natal. Apesar de ter honrado compromissos com diversos prestadores de serviços, Foca nunca foi pago pelo trabalho que realizou junto com sua equipe do Dosol.

Histórias como esta cercam a atual gestão da prefeitura, quando se trata de realização cultural. E contribuíram, certamente, para que eu, Carlos Fialho, me recusasse a participar da mediação de uma mesa no encontro de escritores realizado há dois meses. Eu sabia que, dificilmente seria pago pela minha participação.

Hoje, Foca resolveu dar um basta. No mês em que completa 1 ano do calote, ele espalhou a notícia via Twitter e pediu para todos os seus amigos blogueiros publicassem a sua carta aberta, tratando do assunto.

Aqui está minha contribuição. Boa leitura: 

Foca

A prefeita Micarla de Sousa

Dia silencioso do Rock

Por Anderson Foca
Centro Cultural Dosol

Julho é o período que se convencionou celebrar o rock e suas vertentes. Sempre no dia 13 deste mês a data do Dia Mundial do Rock é lembrada, celebrada e incensada graças ao LiveAid, Bob Geldof e outros amantes do estilo.

Já há três anos o Dosol vem promovendo a maior celebração da data em Natal misturando palestras, conhecimento, solidariedade e é claro, muita música. Ano passado foram mais de mil e quinhentas pessoas no evento solidário e gratuito (todas as edições foram gratuitas), gerando duas toneladas de alimento e colocando em ação dez bandas locais para um grande público. Sucesso de público, organização e mídia.

A prefeitura, através da Fundação Capitania das Artes, nos convidou para fazer uma parceria, já que uma das premissas das ações da Fundação é comemorar os dias que fazem parte da cultura da cidade: dia do artista plástico, dia do museu, dia da cultura popular, dias, dias, dias… Fomos de braços abertos. Cedemos nosso know-how e aceitamos realizar o evento em parceria com o poder público.

Eles cediam a estrutura necessária para o evento e nós ficávamos com a parte de casting, organização e assessoria de imprensa. Mandamos um orçamento prontamente aprovado pelos gestores (e muito mais baixo do que qualquer coisa do tipo que eles costumam fazer) e saímos felizes, certos de que estávamos tratando com gente séria e cumpridora de contratos. Tive o cuidado de perguntar ao departamento financeiro da Capitania das Artes em quanto tempo sairia o dinheiro para pagar os fornecedores, já que eu teria a responsabilidade de contratar e pagar a todos os envolvidos. Trinta dias foi o prazo estipulado para o pagamento.

Ligamos para os nossos parceiros, acertamos sonorização, cercamento, alugamos espaço adicional, segurança e modestamente fizemos uma GRANDE FESTA (veja o vídeo aqui). Agora começa a parte chata da história.

Entregamos toda a documentação de convênio com a prefeitura 20 dias antes do evento acontecer, incluindo nota fiscal com todas as nossas responsabilidades devidamente cumpridas. Realizamos o evento e esperamos dar o prazo do repasse da prefeitura. Passaram-se trintas dias, sessenta dias, noventa dias e estamos chegando agora a 365 dias sem o acerto que acordamos através de contrato.

Há uma lenda que diz que quem deve é quem tem muito dinheiro. Quem tem pouco dinheiro (ou nenhum) é que dá um jeito de sempre manter suas contas em dia com muito trabalho e dedicação. O Dosol não podia deixar os parceiros e fornecedores na mão e logicamente PAGOU TODOS OS ENVOLVIDOS COM VERBA PRÓPRIA, já que o repasse da prefeitura não foi feito, descapitalizando nosso combo de cultura e quebrando uma série de planejamentos e ações.

Já perdi as contas das vezes que ligamos, marcamos reuniões e nos envolvemos com a Capitania das Artes. O Dosol recentemente estava num grupo de estudo (voluntário) para reformar a Lei Djalma Maranhão. Temos muita simpatia pelas pessoas que lá estão, Rodrigues Neto e seu comando simpático, Gustavo Wanderley (que já saiu da vice-presidência), entre outras figuras bacanas que lá estão.

Mas é inadmissível ver a assessoria da fundação cultural municipal inundar minha caixa de e-mail todos os dias com eventos novos e a prefeitura alegar que não ter “orçamento” para pagar uma dívida adquirida há um ano. Será que o povo que trabalhou no Auto de Natal, no Encontro de Escritores, ainda não recebeu? Será que o salário de Rodrigues Neto está atrasado? E o da nossa prefeita? Ela também tá na pindaíba? Duvido.

Então ficamos assim. Continuaremos cobrando. E não temos dinheiro para fazer a ação do Dia Mundial do Rock em 2010 graças ao calote que estamos levando da Capitania das Artes e da prefeitura. Seguimos nosso trabalho já bem acostumados com o funcionamento e o interesse que esse povo tem por cultura e cidadania.

Dizem que os chatos são atendidos primeiro. Nunca quisemos ser chatos e nem é do nosso interesse perder tempo com reclamismos. Mas agora é uma questão de honra e respeito que isso se resolva, não pelo dinheiro, mas pela dignidade que é sempre muito mais importante!

E quem sabe eles não pagam nessa pressão e voltamos atrás e realizamos mais um ano do evento? Ajude à gente e ao rock and roll espalhando esse texto.

Coluna da Digi # 45 – A Patricinha Cultural – Parte 2

julho 1, 2010

Na semana seguinte à coluna da “Patricinha Cultural”, publiquei uma crônica sobre o sadismo midiático e insaciável da imprensa em torno do caso Nardoni, dançando sobre o cadáver da menina Isabela. Julgo inadequado republicá-la agora, pois se trata de um assunto datado. Mas aí, no dia 10.11.2008, postei na Digi a coluna “A Patricinha Cultural – Parte 2”, abordando mais alguns aspectos inerentes a essa personagem tão popular de nossa cidade.

Jovens, com vocês, mais uma vez, a Patricinha Cultural!

***

A Patricinha Cultural – Parte 2

Já alertamos aqui a população masculina da cidade a respeito dessa ameaça de saias longas e estampadas que é a nefasta figura da patricinha cultural. É necessário, porém, fazer um novo alerta aos desatentos e indefesos homens natalenses, vulneráveis às ações venais dessas dissimuladas e cínicas mulheres, sempre de olho em vítimas potenciais. Como um vírus em constante mutação, as paty-cults já passaram a apresentar diversas variáveis e escudar-se delas se torna mais difícil a cada dia.

Uma outra categoria que tem despontado ultimamente é a da patricinha pseudo-interessante ou a “eclética”. Ela banca a alternativa para as amigas patricinhas, pois faz parte de sua persona cuidadosamente construída parecer uma típica “paty loquita”. É a forma que ela encontra de se destacar em meio a um mundo pasteurizado, medíocre e todo igualzinho, cheio de futilidades, consumismo e, aparentemente, culto. Para as amigas e amebas que freqüentam o seu círculo social, habituadas aos mesmos lugares da moda que ela, tem uma frase feita na ponta da língua: “Mulher, seja eclética!” É assim que ela justifica sua “estranha” mania em ouvir um som “muito louco”, como O Rappa ou Capital Inicial. Vez por outra, chegam com uma novidade: “Mulher, acabo de descobrir uma super novidade. É o Mundo Livre. É tudo na vida ponto com ponto bê erre!”

É nessa atuação meio canastrona que ela pode acabar enganando-o, meu amigo. Se você estiver distraído, acaba realmente acreditando que a moça parece ser paty, mas até que é interessante. Não se engane. Esse fingimento é a isca, e você, a presa.

O que você precisa saber é que ela apenas faz gênero. O que ela gosta mesmo é de freqüentar camarotes. Adoram a Ivete, o Biquíni, o Chiclete e amam camisetas VIPs e pulseirinhas de acesso a camarotes. Aliás, elas amam camarotes. Até em festivais de rock, elas vão a camarotes. Camisetas VIP e pulseirinhas exclusivas dão a elas uma sensação de poder e realização que nunca alcançarão por méritos próprios, pelo talento ou pela proeminência intelectual. Os camarotes exclusivos são o mais longe que elas podem chegar. São os limites de seu mundinho. Currais cheios de rostinhos conhecidos (sempre os mesmos), sorrisos falsos e roupas de marca. Freqüentar currais, aliás, é bem apropriado para aquela classe ruminante de status, guiada pela moda, feito gado. São tangidas rumo às “últimas tendências”. É o rebanho da mediocridade.

Agora andam numa de eletrônica. É rave em Parnamirim, rave em Macaíba, rave em Pipa. É bate-estaca até não poder mais. De vez em quando, arriscam uma idazinha à Nalva e se acham muito loucas por freqüentarem o Sargent Peppers, UHUUUU!!!

Elas não têm escrúpulos em dizer que gostam de tudo, de qualquer ritmo, do pop mais safado ao axé mais rasteiro, do eletrônico mais cosmopolita ao sertanejo mais interiorano. Mix é a palavra da vez entre elas. “Viva a diferença!”, repetem sem parar. Nesse momento, você até concorda e dá graças a Deus por ser diferente delas. Seja eclético, mas não medíocre.

Não ligue se você passar por mal-humorado. Você não é obrigado a se divertir numa festa que toca Tati-quebra-barraco e Asa de águia. Tudo bem se você acha o carnatal uma bosta e tem vontade de vomitar cada vez que ouve pagode romântico. Não há nada de errado com você se não gostar dessas bandas de forró que deixam um único empresário babaca milionário às custas do trabalho escravo dos músicos e operários. Está tudo bem. Eu conheço várias pessoas que são como você.

Ser eclético para as patricinhas culturais é justificar a falta de personalidade. Quem diz que gosta de tudo, na verdade, não gosta de nada. E a maior manifestação do nada em toda sua falta de elementos pode ser observada no oco de suas cabecinhas.