Coluna da Digi # 46 – Os Irmãos

No dia 24 de novembro de 2008, decidi dar uma quebrada na sequência de crônicas pueris e bem humoradas, partindo para um assunto mais sério e edificante. Falei do livro “Os Irmãos Karamazov” do Dostoievski. Uma homenagem em função do relançamento do livro numa belíssima edição da Ediouro naquele ano. Se você não leu o livro, espero que esta crônica sirva de estímulo.

***

Os irmãos

É certo que os artistas buscam na sua arte a perfeição. E mais certo ainda que quase nenhum deles consegue. No caso dos escritores, já ouvi diversos relatos sobre qual teria sido o livro mais impactante para muitas pessoas, aquele que, segundo opiniões particulares, provocaram as mais fortes e duradouras sensações, que tiveram o poder de mudar opiniões, inspirar atitudes, alegrar corações, impulsionar vidas. Acredito, sinceramente, que os livros tenham esse poder. A palavre escrita é a mais formidável arma urdida pela mente ardilosa do homem. Certa vez li numa biblioteca uma frase de Mario Quitana: “Os livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.”

Uma amiga me disse que o livro que havia mudado a vida dela e marcado para sempre sua personalidade fora “O apanhador no campo de centeio”. Li há alguns anos e confesso que, para mim, tal obra não causou grande impressão. O eleito, na minha opinião, é outro. O romance que mais penetrou no meu juízo, elevando o patamar de história bem contada para um patamar estratosférico, me perseguia muito antes de sua leitura.

Uma vez, adolescente ainda, lendo uma crônica de Nélson Rodrigues sobre futebol, me deparei com a seguinte frase: “Flamengo e Fluminense são os Irmãos Karamazov do futebol.” Aquela sentença despertou minha curiosidade de tal forma que procurei saber quem eram aqueles personagens comparados aos dois clubes. Quando descobri que se tratavam dos protagonistas de um livro clássico tomei a irrevogável decisão de ler a obra. Anos depois, desfilando os dedos pelas lombadas de livros em prateleiras de livrarias, encontrei por acaso uma belíssima edição da Ediouro de “Os Irmãos Karamazov” de Fiodor Dostoievski.

A primeira reação foi a de amaldiçoar-me pela indesculpável negligência de nunca ter procurado a obra até aquele momento. Comprei-o e fui arrebatado pela leitura do tomo com tal impacto que soube estar diante de uma prosa diferente. “Os Irmãos Karamazov” é a obra derradeira do autor, quase póstuma, iniciada apenas 2 anos antes de sua morte e enriquecida com as mais marcantes características de seus romances anteriores, além de contar com diversas tramas paralelas que remetem à própria vida do escritor.

O livro gira em torno de um assassinato. O velho patriarca rabugento, hedonista, libidinoso e irresponsável Fiodor Karamazov aparece morto. A partir daí a narrativa central do romance tentará elucidar quem é o culpado pelo crime, ao mesmo tempo em que diversos núcleos com histórias paralelas são desenvolvidos. Os principais suspeitos do crime são os seus 4 filhos: Aliôcha, Dimitri, Ivan e Smierdakov, este último ilegítimo.

Aliôcha é seminarista em um mosteiro e, em certo ponto do romance, consola um pai que perde o seu filho prematuramente; Dimitri é um jovem idealista de temperamento forte que se apaixona pela mesma mulher que seu pai e, por isso, passa a ser suspeito pela morte do velho; Ivan é um intelectual ateu de firmes princípios; e Smierdakov é o filho bastardo e maltratado pelo pai. Os personagens são profundos e suas motivações cativam o leitor enormemente graças aos perfis psicológicos cuidadosamente elaborados por uma autor minucioso de imaginação fértil e ritmo narrativo frenético.

O que mais me fascinou quando da leitura do livro foram os elos entre a história ficcional e a realidade: Dostoievski também teve o seu próprio pai assassinado (como o patriarca Fiodor Kramazov); ele também teve um filho morto ainda criança (como um desolado pai que é consolado pelo jovem seminarista Aliôcha); foi um jovem idealista ateu (como o terceiro filho Ivan); cumpriu pena na Sibéria a mando do Czar por suas idéias supostamente socialistas e na prisão conheceu um homem injustamente condenado pelo assassinato do pai (como o filho mais velho Dimitri).

Unindo esses elementos de sua própria existência, como em um imaginativo quebra-cabeça, Dostoievski escreveu uma autobiografia disfarçada e lembra Abert Camus, quando este afirmou: “para escrever sobre filosofia, escreva romances”. No caso do russo, para escrever uma grande biografia, ele criou uma impactante obra de ficção. É certo que todo autor inclui nos seus textos, elementos de sua própria vida. Todas as histórias, mesmo que ficcionais se alimentam de experiências de vida do autor e, através delas, compõe histórias, personagens e situações. E talvez tenha sido justamente por incluir elementos autobiográficos em profusão que  o velho Fiodor tenha, no fim da vida, produzido um romance impecável, irrepreensível, admirável sob todos os aspectos.

Relendo a introdução (brilhante, por sinal) da edição da Ediouro, escrito por Otto Maria Carpeaux, atento para outro detalhe que ajuda a elucidar o porquê de o livro ser tão completo, tão rico e envolvente. Ele contempla todas as principais qualidades das obras anteriores do autor. “É um romance policial psicológico, como Crime e castigo; é, quanto a Dmítri, a história de um idealista mal julgado, como O idiota; é, quanto a Ivan, o romance dos intelectuais ateus, como Os demônios; é, quanto a Aliocha, a história da formação de um (homem) novo, como O adolescente”

Escrevo esta crônica em louvor ao melhor livro que já li até o momento para exaltar a novíssima edição recém lançada pela editora 34, traduzida diretamente do russo e qu, certamente traz muito mais aspectos do original que fatalmente se perderam no telefone sem fio das traduções indiretas. Aproveito também para confessar um crime, uma vez que o crime é um dos temas mais recorrentes na obra de Dostoievski. Até o presente momento, “Os Irmãos Karamazov” é o único livro do autor que li. Crime reparável e que já me predisponho a fazê-lo. Mas antes, vou reler a edição nova. E aconselho que façam o mesmo. O fim do ano é uma boa época para se dar um presentaço desses.

 “Os Irmãos…”  é um desses raros momentos em que um artista alcança a perfeição na execução de sua arte, o que faz dele, uma leitura indispensável, imperdível. Tenham todos uma boa leitura e espero que o livro cause em seus espíritos uma impressão tão forte quanto causou em mim.

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3 Respostas to “Coluna da Digi # 46 – Os Irmãos”

  1. Stephanie Soares Says:

    Já li e adorei. Há pouco conheci seu trabalho através de Drika. Ou melhor… Através de um RT dado por ela…
    Desde então tenho divulgado suas crônicas muito bem escritas.
    Parabéns!
    Abraço,
    Stephanie

  2. Gabriel Medeiros Says:

    Lerei.

  3. Best Remortgage Says:

    Já li e adorei. Há pouco conheci seu trabalho através de Drika. Ou melhor… Através de um RT dado por ela…Desde então tenho divulgado suas crônicas muito bem escritas.Parabéns!Abraço,Stephanie
    +1

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