Coluna da Digi # 47 – Princípios Literários

No fim de 2008, bateu aquela vontade de querer falar sério a respeito de assuntos edificantes, culturais e minimamente profundos. Tudo em virtude do incômodo que me causava o rótulo que começava a ser fixado em minha fronte de “colunista polemicozinho da Digi”, por publicar crônicas divertidas e cotidianas, mas demasiadamente rasas nas mensagens que transmitiam e pouco rebuscadas na elaboração. Enfim, queria ser mais reconhecido pelo que poderia dizer, além daquelas bobeiras, um pouco influenciado também por textos primorosos de outros colunistas ou blogueiros como Win Rodrigues e Sérgio Vilar. Enfim, fui acometido por um certo recalque, um pouco de vaidade, uma necessidade de auto-afirmação e um sentimento de “mamãe, eu quero ser Pablo Capistrano” repentino. Eu queria dizer para todos aqueles leitores que vinham à minha coluna divertir-se com as sátiras sociais, carnatalescas e jocosas que eu costumava publicar que eu falava besteira sim, mas também tinha lido bons livros, visto bons filmes, enfim, me mostrar um pouquinho pra todo mundo, dando a entender que por trás daquele senso de humor incontido havia sim um cérebro que se exercitava com saudável frequência. Era uma maneira de gritar pra todo mundo: “Ei, eu li esse livro, viu? Eu assistie esses filmes. Se liguem!”

Na coluna anterior (Os Irmãos), eu já mostrara toda a minha malemolência de leitor de Dostoievski. Nesta, chamada de “Princípios Literários” e publicada em 08 de dezembro de 2008, eu dava continuidade a uma série de escritos sobre literatura. O curioso é que a audiência da coluna, sempre que eu falava de assuntos mais sérios e culturais, caía consideravelmente.

Mas, enfim, não podemos dizer que eu tento de vez em quando, né não?

Aproveitem a leitura.

***

Princípios Literários

A primeira impressão é a que fica? Na vida real, essa é a maior balela da paróquia. Um lugar comum repetido à exaustão pelas muitas pessoas que frequentam lugares comuns e, na falta de pensar por si, recorrem a esse expediente pouco original de se apropriar de pensamentos alheios. Mas apesar de uma inverdade, repetida à exaustão, conheço alguns autores que levam muito a primeira impressão muitíssimo a sério.

O primeiro deles é Deus, um Cara de visão e muito culto que sempre valorizou os livros, tanto que em sua autobiografia reuniu 72 deles, apesar de se ocultar sob pseudônimos, em virtude de sua divina modéstia,conforme fez o Fernando Pessoa com suas personas poéticas. Deus escreveu “No princípio era o verbo.”, um belíssimo início, dando a medida exata do que viria a seguir: uma belíssima história, rica de personagens, com um protagonista carismático, um clímax apoteótico e um final apocalíptico.

Mas o Deus Cristão não foi o único a caprichar no começo de um bom livro. Outro dia em palestra de Moacy Scliar no Solar Bela Vista, soube que Gabriel Garcia Marquez reescreveu a introdução de 100 anos de Solidão 16 vezes. Um livro que guarda certa semelhança com a Bíblia no que toca o número de personagens. Aliás, dizem os maldosos que a maior inspiração de Garcia Marquez para o livro foi a lista telefônica da Colômbia.

Quem me chamou a atenção para inícios antológicos de grandes clássicos foi um escritor que admiro bastante. Um cabra culto e popular a um só tempo, que combina inteligência e erudição com uma boa dose de cultura pop, referências contemporâneas e fluência textual, produzindo crônicas e livros que extraem o máximo de prazer dos leitores. Ele se chama Arthur Dapieve e, vocês já devem ter percebido que, se trata de uma espécie de Pablo Capistrano Brasileiro. O Dapieve escreveu em meados de julho de 2001 uma crônica chamada “Melvillianas”, na qual discorre sobre a primeira página do romance “Mobydick” em que o narrador/personagem diz: “Chame-me de Ismael” (“Call me Ishmael”). Percebam a sutileza: o autor não diz que o nome dele é Ismael. Ele apenas pede que o chamem assim, fazendo com que o leitor passe o livro especulando se aquele seria o seu verdadeiro nome ou não. Fato ignorado por Carlos Heitor Cony, quando da tradução e adaptação para a Ediouro. Para evitar uma expressão que não soaria tão bem, o tradutor/autor preferiu: “Meu nome é Ismael”. Soa melhor, mas tira o charme da dúvida criada pelo Melville.

Uma rápida digressão. Certa vez, um autor, o Joca Reinners Terron, afirmou o seguinte: “Eu pensava que tinha lido todos os clássicos importantes da literatura. Mas aí descobri que só havia lido o Carlos Heitor Cony.” Nessa mesma crônica, Dapieve falava do livro “O Estrangeiro” de Albert Camus que, segundo ele, tem o melhor primeiro parágrafo da história da literatura. O início de “O estrangeiro” dá, em 5 ou 6 sentenças, a idéia exata da personalidade de Mersault, o protagonista indiferente com relação à vida, ao universo e tudo mais que se vê levado por insólitos e inusitados acontecimentos e acaba, de repente, condenado à morte. Na orelha da edição que eu tenho (da Record), Arthur Dapieve discorre sobre Camus, sua veia filosófica um tanto pop, o absurdo representado em sua obra e a liberdade tratada com maestria pelos filósofos e autores existencialistas. Mas o que marca mesmo é o princípio arrebatador: “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.”

Alguns textos costumam ter um início tão impactante que já fazem valer o livro inteiro. E nos conduzem a prosseguir a leitura para constatar se o restante da obra está à altura de seu ponto inaugural. Nos casos específicos de “Mobydick” e “O Estrangeiro” concluímos felizes da vida que as frases iniciais eram apenas o preâmbulo de grandiosas histórias. É que na literatura é assim: nem só os fins justificam os meios. Alguns inícios também o fazem com singular maestria.

Tags: , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: