Coluna da Digi # 49 – Fazendo Justiça

Hoje publico a crônica de número 49 da Digi, publicada em 29 de dezembro de 2008. Mais umas miudezas literárias pra consumo moderado. Aproveitem.

***

Há poucas semanas, ao mencionar alguns dos melhores inícios de livros que li na vida, pequei por omissão, uma vez que não citei o antológico princípio de “A Lua vem da Ásia” de Walter Campos de Carvalho. Alertado nos comentários por Daniel Minchoni, tento, sem a intenção de camuflar o meu delito, fazer justiça neste mesmo espaço onde operei o erro.

“A Lua vem da Ásia” começa da seguinte forma:
“Aos 16 anos matei meu professor de lógica, invocando legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? –, logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte no Sena, embora nunca tenha estado em Paris.

Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.”

 Já no princípio da obra, Campos de Carvalho nos apresenta ao seu narrador/personagem, Astrogildo. Um homem que conta sua história de forma frenética e verborrágica, falando sem parar, encadeando histórias, fatos, lugares, acontecimentos, viagens e narrativas e demonstrando uma natureza pouco ortodoxa, excêntrica até. A trajetória inverossímil do personagem nos faz questionar se estamos diante de um herói improvável que vivenciou de tudo e esteve em todos os lugares possíveis, um narrador astuto e extremamente imaginativo, ou ainda um mentiroso inveterado, destilando sua farsa diante de leitores inocentes e de corações abertos.

Aos poucos, Campos de Carvalho vais nos conduzindo pelos caminhos que revelam a verdade do personagem e sua história, initerupta, acelerada e singular diverte, mas também se mostra dura a uma certa altura. Astrogildo tenta nos provar que a lua vem, de fato, da Ásia e sua narrativa que, a princípio aviva nossa curiosidade, acaba por nos causar uma leve angústia em nossa cumplicidade de leitor ao fugir da realidade lado-a-lado com o protagonista.

Ato 2.
Também faz pouco que indiquei aqui os 5 melhores livros que li em 2008. Bem, acabei por citar 5 porque queria utilizar o método “top 5” aplicado à exaustão pelo personagem de John Cussak em “Alta Fidelidade”. No entanto, teve um livro que li este ano que poderia tranquilamente figurar na lista sem fazer vergonha.

Trata-se do “Balé ralé” de Marcelino Freire. É um desses livros que surpreende a cada conto e nos faz querer ler o próximo avidamente, imediatamente, ontem, se possível for! Personagens com o rosto marcado por rugas de sofrimento, cicatrizes de desamor, incompreensão e abuso. Cada protagonista conta sua história, sua versão definitiva do que pode ser chamado de vida. Biografias do submundo, realidades periféricas de um país que todos vemos, mas nem sempre enxergamos. “Balé ralé” é surpreendente e encantador. Façam justiça vocês também: leiam!

 Ato 3.
“Wall-e”.
Não escrevi nada sobre filmes, pois 2008 não foi um bom ano para mim nesse sentido. Poucas foram as produções que me arrebataram, ao contrário de anos anteriores. Aliás, estaria sendo generoso se afirmasse que vi mais de um filme digno de registro este ano. Em todo caso, vi uma produção que causou o efeito hipnótico que podemos esperar de uma obra-prima cinematográfica: “Wall-e”. A saga do robozinho programado para fazer exatemente aquilo que se deve fazer é uma belíssima metáfora para o nosso mundo, a solidão e as pequenas coisas que fazem a vida valer a pena. No blogue de Márcio Nazianzeno queridobunker.wordpress.com, foram feitos alguns posts a respeito do filme. Quem quiser, pode acessar e buscar, pois foram escritos na época do lançamento da animação no cinema.

 Por hora, é isso. Feliz 2009!

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