Coluna da Digi # 50 – O Raqueiro

No início de 2009, acompanhei uma conhecida relatando uma história estarrecedora, apesar de cômica. Era a epopeia de um namoro trágico vivido por uma amiga íntima que, por puro temor de ficar sozinha, envolveu-se com um playboyzinho da cidade de caráter mais que discutível. A garota se submeteu a humilhações e agruras mil, até o traumático desfecho, após o qual ainda se sentiu culpada. Para minha surpresa, porém, o roteiro que ela expôs é mais comum do que se pensa, corriqueiro até, nessa fazenda iluminada que Natal insiste em ser.

O episódio contado por ela revelou um novo personagem para crônica: “O Raqueiro”. Trata-se de mais um espécime integrante da fauna natalense de figuras carimbadas. A coluna da Diginet, publicada em 07.01.2009 foi mais um micro-sucesso na rede mundial de computadores, agariando algumas dezenas de comentários e milhares de visitas. Foi minha coluna de número 50 da Digi.

Boa leitura, major!

***

O Raqueiro

Ele tem um notável problema de dicção. Como um Cebolinha mal programado troca o “V” pelo “R” sem a menor cerimônia. Isso não o atormenta. Diz ser coisa do sotaque interiorano, pois cresceu no campo, em meio a criações de gado e safras das mais diversas. E foi precisamente no saudável ambiente interiorano, de pessoas humildes e trabalhadoras, mas também rudes e pouco intruídas, onde cresceu e apreendeu valores que permeiam sua vida inteira. Porém, acabou por se identificar muito mais com a rudeza e ignorância do que com a humildade e o trabalho que enobrece o homem e lhe atribui caráter.

É que o Raqueiro autêntico, que gosta de raquejada, de Carraleiros do Forró e de se mostrar pro porro, nunca precisou dar um prego numa barra de sabão. O pai já trabalhou por ele. É fazendeiro rico, criador de gado, produtor de muitas toneladas de grãos, dono de terras e dos mais modernos equipamentos para otimizarem o cultivo, desde ordenhadores computadorizados a tratores de último tipo.

Com tanto dinheiro sobrando e já havendo outro trabalhado por ele, só resta ao Raqueiro curtir uma vida boa, andar pelos interiores do RN, tal qual um Ojuara sem nenhum caráter, na sua suntuosa picape de novo rico e gastar a polpuda mesada que nunca falta. É verdade que ele também costuma vir ao litoral e à nossa capital (que aliás é uma cidade do interior à beira-mar) e se sente em casa por aqui. Ainda mais nessa época de veraneio, quando pode ir de Pirangi a Muriu, ver concertos dos mais variados repertórios (os Aviões, os Solteirões, os Raparigueiros, os Plays, Rictor & Léo) e atolar seu 4×4 em areias, recebendo socorro de veranistas desavisados e bem-intencionados. Tenho a impressão que atolar seu veículo é um momento de glória, pois dá a ele a oportunidade de exibir sua condição de vida confortável para toda uma turba de pessoas que se amontoam como moscas em redor do seu possante.

Nas vaquejadas, chega a um bar e paga cinquentinha ao sanfoneiro para não parar de tocar um instante, mais cinquentinha ao garçom pra não arredar do seu lado e pede todo tipo de bebida pra não faltar nada nem pra ele nem pro seu séquito de bajuladores e marias-botinas que mantém o seu ego inflado com elogios incessantes, além de darem ouvidos a suas incríveis peripécias e violentas pelejas em que dera cabo de 3 ou 4 no braço e puxara uma arma para outros tantos.

O Raqueiro, por ter tido sempre tudo nas mãos, acabou por não se habituar a ser contrariado, tendo portanto, desenvolvido no âmago do seu ser uma natureza deveras violenta. Traduzindo para uma linguagem que até ele entenda: é um valentão sem cérebro doido por uma briga. Vive provocando intriga e contando seus causos cheios de exageros e inverdades em que enfrentaram não-sei-quantos e atiraram em não-sei-quem. O Raqueiro anda armado e em bando. É capaz de partir para cima de um pobre rapaz solitário e espancá-lo com a ajuda de 5 comparsas e depois sair bradando por aí que estava quieto, na dele, e foi atacado em sua honra.

Aliás, honra para ele, é algo exclusivamente masculino. O Raqueiro é representante de toda uma cultura coronelista e machista nordestina. Coisa muito da nossa. Logo, por uma questão de conservação da moral e dos bons costumes, todo Raqueiro que se preze deve tratar as mulheres como lixo. Sobretudo as namoradas. Muitas vezes chama as mulheres de vacas (algumas vezes de raparigas). E pra combinar com a saborosa ruminante, ainda orna sua cabeça com belos pares de chifres. Sai escondido, trai todas as semanas e dá em cima até das amigas da namorada. Tudo isso além de gritar, humilhar, diminuir e destratar sua “querida” sempre que possível. Dirige-se a ela sem qualquer cortesia e é incapaz do menor gesto de carinho (beijar em público é feio!). E assim segue sua vida e arranjando garotas subservientes que se submetem aos seus caprichos de menino mimado e ignorante de olho nas posses, no sobrenome da família e nos hectares da fazenda.

Cortesia e gentileza são atributos desconhecidos do Raqueiro, assim como são muitas as fontes de sua completa jumentice. Por favor e Obrigado, por exemplo, nunca fizeram parte do seu vocabulário de pouco mais de 100 palavras.

É fácil reconhecer um Raqueiro. Fala alto como se a cidade inteira precisasse saber quanto custou o cavalo de raça que adquiriu na última Festa do Boi. Conta vantagens sem parar de coisas que fez e surras que deu e raparigas que comeu. Sai ciscando por aí e cantando pneu com sua caminhonete cabine dupla importada. Chama os amigos alternadamente de “major” ou “meu patrão”, uma vez que desconhece quaisquer outras formas de se referir às pessoas.

Se você encontrar um tipo assim por aí (e acredite: você vai encontrar), corra como se estivesse fugindo da doença da vaca louca ou de uma manada de zebus enfurecidos. Porque se ele lhe pegar pra prosear, major, num rai ser muito bom não.

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22 Respostas to “Coluna da Digi # 50 – O Raqueiro”

  1. Gabriel Medeiros Says:

    Racinha esquisita essa… Perfeito o seu perfil dos “raqueiros”. Só faltou puxar os dois erres de Av(rr)iões, também.

    • francisco gildevanio Says:

      Ola colega boa tarde?
      Estou fazendo o trabalho no IF sobre este texto postado na coluna do seu blog. Gostaria de se o Carlos Fialho é o próprio auto desta obra? , se ela realmente aconteceu? E o que Le incentivo a escreve? Qual o objetivo tele para você?
      Eu gostei muito do texto e do blog posso posta o link em meu blog?
      Obg pela sua atenção

  2. Igor Silva Says:

    Boa Noite! Gostaria de saber quem é o possivel autor deste texto “O Raqueiro”. Obrigado pela atenção!

  3. priscilla alves Says:

    caro Carlos Fialho
    gostaria de saber quem foi que escreveu a coluna o raqueiro pois estou fazendo um trabalho escola e queira saber quem foi o autor?
    atenciosamente
    priscilla alves

  4. Sim, fui eu que escrevi “O Raqueiro”! « O Fiasco Says:

    […] perguntado isso e passado para a turma. Aliás, nem precisava, pois na própria postagem do texto aqui no blogue, eu explico no início como tive a ideia de escrever a […]

  5. Juliana Dantas Says:

    Gostaria muito que minhas amigas do ensino médio (que vivem postando fotos no 4×4 de seus namorados no ORKUT (puff)) lessem isso.
    é a descrição perfeita de todos os namorados que elas tiveram e tem até hoje.
    E eu, a que sempre sobrava nas RAQUEJADAS (graças a Deus) escolhi o caminho dos gordinhos geeks e sou muito feliz. hahahaha

    Um abraço!

  6. joão lyra Says:

    Romi, ra se leiar!.

  7. Gilcimara Says:

    Olá Carlos,sua crônica é bastante interessante.Li e gostei muito. O professor de português fez em sala uma análise completa da mesma.Eu sou aluna do curso de informática do IFRN.Alguns colegas de sala já entraram em contato com você e está em aberto a possibilidade de você nos fazer uma visita e comentar mais sobre a crônica ”O Raqueiro”.Espero que essa visita venha realmente acontecer.

    Abraços!!!

  8. rosildo Says:

    Boa tarde! Carlos Fialho? Após ler o texto e com uma análise do professor de língua portuguesa do curso de informática do ifrn(carlos negreiro) ficou claro, o quanto estavas inspirado para escrever o Raqueiro.

    parabéns.

  9. julyanna costa dos santo Says:

    oi carlos a sua crônica o raqueiro e muito boa parabéms

  10. Suélia Says:

    Ola Carlos,
    Ao ler sua crônica tive em mente um “Raqueiro” típico filhinho de papai do interior, muito conhecido em festas, quem não vai com a sua cara, o chama de cafuçu, seu tipinho é facilmente reconhecido, camisa de botão entreaberta, suado, com aspecto sempre sujo, com uma lata de cerveja em uma mão e na outra a chave de sua picape, aquela que ele faz questão de mostrar a todos quando entra nas festas com seu paredão de som que incomoda todo mundo, esse tipo de pessoas são os principais responsáveis pela vulgarização e banalização do amor ao próximo, sem caráter e nenhum tipo de personalidade, o que mais irrita é o fato dele está sempre rodeado de amigos e babões, tratam as mulheres das piores formas possíveis, e ainda é aclamado pelas bandas de forró, que também não tem nada de interessante para oferecer, com suas letrinha fúteis e ridículas que desvalorizam a mulher, tornando-a vaca e cachorra e por outro, valorizando a prostituta do cabaré, local de onde vem as maioria de suas composições.
    Bom esse seria apenas um comentário do texto aplicado em sala de aula.

    Mas com tudo parabéns pelo seu texto!

  11. Simei Thander Says:

    Olá Carlos,

    Essa sua crônica é sensacional, realmente existem vários Raqueiros desse tipo aqui por Natal e Parnamirim, é bastante interessante a forma de você descreve-lo, semana passada houve a festa do boi e já lembrei da sua crônica, fiquei me perguntando: Lá deve ter muitos Raqueiros!”, passei sua crônica para o pessoal aqui de casa e eles gostaram também.

  12. Gilson Says:

    A crônica revela uma importação dos grandes centros urbanos para a realidade do campo, a do playboy caipira. Vemos nas grandes cidades vários jovens de classe média/alta, os famosos playboys, fazendo o que querem sem ao menos respeitar limite algum, através dessa crônica vemos que essa figura também se faz presente nas pequenas cidades e interiores, que nesse caso se revela na figura do raqueiro, figura essa que infelizmente tende a se multiplicar em nosso meio.
    Gabriel Pensador criou duas músicas em “homenagem” aos playboys das grandes cidades (Retrato de um playboy I e II), revelando seus “atributos”, porque não criar uma em homenagem ao nobre raqueiro? Ele merece.

  13. Robson Bruno Says:

    Boa tarde Carlos Fialho,
    Venho aqui para falar sobre a otima crônica que você veio a escrever, buscando alguns fatos sobre esse tema que é atual, com as explanações feitas dentro de sala professor e aluno ficou ainda mais fácil o senso critico desse texto que a nenhum momento tira coisas surreais, pois eu mesmo conheço algumas pessoas como o “Raqueiro”.
    Parabéns pela Crônica.

  14. Marcos Roberto Says:

    O texto faz uma crítica, de certa forma bem irônica, a todas e todos aqueles filhos (filhinhos) de papai que são frutos do ambiente em que nasceram e cresceram sem amor, carinho, respeito, educação, cultura e conhecimento do mundo, sempre o que queriam os pais fazia as suas necessidades de bens materiais, com isso cresceram achando que o dinheiro é tudo e que pode compra amigos, namorados (as) e etc. Todos eles põem a sua confiança e segurança única e exclusivamente no dinheiro e o poder que lhes proporcionam. Por nunca buscarem o conhecimento e outras formas de exercitar o celebro muitas vezes agem como animais irracionais e territorialistas.

    Pergunta

    Para você o raqueiro é o play boizinho da capital?

  15. André Lima Says:

    Caro Carlos Fialho

    Estamos chegando à reta final de nossa disciplina “Leitura e Produção de Textos” lecionada pelo professor Carlos Negreiros do IFRN, um aficionado por livros, que trouxe nesse curto período, para nossa turma de Informática, a forma de como enxergar, ou melhor, retirar e se aproximar da verdadeira leitura e interpretação de um texto, por menor que ele seja.
    Então, nessa possível e última atividade de leitura e produção de texto, nos foi sugerido pelo professor Carlos enviar-lhe este e-mail sobre o que entendemos na sua crônica “O raqueiro”, assim, deixarei minha opinião sobre o texto:
    Trata-se de uma personagem, com certeza, bem conhecida na sociedade, jovem rico, pouco alfabetizado, ao menos do ponto de vista moral, nasceu e cresceu no interior, mas nunca necessitou trabalhar, pois nasceu em berço de ouro, filho de fazendeiro de grandes posses, leva a vida curtindo.
    Conquista “amigos” e “namoradas” através de suas ostentações, não há a menor consideração pelos que os cerca. Exige ser ouvido, mas não dá ouvidos a ninguém, humilha e destrata quem o desagrada ou tem opinião diferente da sua. É um verdadeiro especialista em dizer frases infelizes.
    Acha que tem controle sobre tudo, inclusive sobre as pessoas. A sua palavra obrigatoriamente prevalece sobre qualquer outra, sempre enaltece suas supostas qualidades e aventuras.
    Não é respeitado e sim, temido, passa a vida pensando que é querido por todos, quando na verdade é odiado por muitos.
    Uma crônica com a carapuça perfeita para essa “fazenda iluminada que Natal insiste em ser”.
    Parabéns, Carlos Fialho.

  16. Paulo Ricardo Macedo Says:

    Olá Carlos Fialho aqui é o Paulo do curso de informática da IFRN

    O texto relata como a vida dos jovens de classe média alta das capitais mais conhecidos como playboys que vivem sem o mínimo de educação, caráter respeito pelo próximo sendo sustentados e bajulados pelos seus “pais”, que saem por aí cometendo todo e qualquer tipo de atrocidade e desrespeito com o ser humano, ficando sempre impunes sem qualquer tipo de punição acobertados sempre pelo pai e com a ajuda do nosso paleozóico Estatuto da Criança e do Adolescente e do código penal que também deixa muito a desejar. Achando que é dono do mundo, que tudo pode, que ele é o rei. Como esse tipo de vida Chegou nas cidadezinhas interioranas, onde interior era sinônimo de lugar tranqüilo, sossegado, de pessoas humildes e trabalhadoras, onde a paz reina. Isso nos leva a crer que esse tipo de vida que era vivida no interior está cada vez mais escasso. É o interior importando o que não presta da capital.

  17. alex farias Says:

    Ola Carlos
    Ao ler sua crônica sobre o “Raqueiro” unas das premirias impressões que tive, foi o jeito de ele ser, muito arrogante, ele não respeitava o próximo, queria ser o dono da festa, e maltratava muito as pessoas por ser filho de papai do interior, por ter o seu carrão 4×4, e muito dinheiro da própria mesada. Ele era um rapaz que gostava de ir as festas, curti um forro , quem não vai com a sua cara, seu tipinho de ser é facilmente reconhecido, um play – boi, camisa de botão entreaberta, com uma lata de cerveja em sua mão e falando bem autor pra todo mundo o ouvi, aquele onde chega quer logo se amostra a todos, quando entra nas festas. Esse é o tipo de muitos “Raqueiro”, que sai do interior, e vem pra capital se amostra. muito legal essa sua crônica
    sou aluno do IFRN.

  18. Igor Cruz Says:

    Boa tarde, Carlos Fialho. Achei bem típico da Cidade do Natal e
    redondezas a Crônica sobre o raqueiro, você relatou muito bem a
    realidade deste lugar em se tratando de festas de forró e vaquejada, pois o que mais aparece nos dias que tem show
    das bandas de forró é a presença de vários raqueiros pelas ruas com
    seus carros “paredões de som”. É horrível ver aquela cena, das pessoas
    embriagadas com garrafas de bebidas na mão, fumando e basicamente
    despidos (homens sem camisa) caídos no chão no final de festa pela
    manhã.

  19. fabiana marcelino de santana Says:

    Boa noite, Carlos!
    Estou fazendo um curso no IFRN, no qual o professor de português, Carlos Negreiro, nos pediu para fazer uma analise sobre um de seus textos; “O Raqueiro”. Feito essa leitura, gostaria de saber o que você pretendia passar, para nos leitores, quando produziu o texto. E cumprimento você pelo texto. Achei-o bem real. Parabéns.

  20. Wanderley Silva Says:

    Grande escritor Carlos
    Este texto é excelente para ser lido e trabalhado em sala de aula
    nos chama muito a atenção sobre a realidade de nosso dia a dia.
    quem nunca se deparou com um cabra da peste, um valentão de todas as horas, parabens espero poder ler algo mas escrito por você, que é um escritor de mão cheia, e acima de tudo é gente da terra da gente.

  21. Wbenigna Araujo Says:

    Sr Carlos
    O Raqueiro é um texto que nos leva a refletir e discutir os dias de hoje usando o bom humor , pois existem mais raqueiros do que imaginamos.
    Parabéns seu texto é otimo, o maximo, ate porque hoje em dia quem não conhece um raqueiro.

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