Archive for agosto \27\+00:00 2010

Pérolas 11 – Por Siney Cláudio

agosto 27, 2010

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Coluna da Digi #56 – Será que elas sabem?

agosto 26, 2010

No dia 08 de março de 2009, dia internacional da mulher, resolvi prestar uma homenagem a todas elas. Um louvor, uma ode, um elogio a la Xico Sá, só que mais simplório do que o mestre do Crato. O resultado foi a crônica “Será que elas sabem?”, publicada na coluna da Digi.

Espero que gostem.

***

Será que elas sabem?

Senhores leitores, encontro-me seriamente preocupado com o descontrolado, e aparentemente irreversível, avanço da ciência. Alguém precisa fazer alguma coisa para frear o ímpeto desses estudiosos irresponsáveis, pesquisadores inconsequentes e, com o perdão da redundância, cientistas malucos. Pára! Pára tudo! Desacelerem os aceleradores de partículas, interrompam a prática da teoria da evolução, revoguem a lei da gravidade, misturem as letrinhas da química orgânica e, pelo amor de Deus, acabem com esse negócio de genética!

Sabe o que é? Tudo bem que só faltam 4 meses para eu completar 30 anos, minha calvície já salta aos olhos, os primeiros fios de cabelos brancos despontam serelepes em minhas têmporas, mas a despeito de tudo isso, ainda me sinto um agente ativo da sociedade. Enfim, sou jovem demais para me tornar obsoleto. E acho que você, homem, que está lendo esta coluna neste preciso instante também se sente assim: cheio de vida e vigor, disposto a representar o seu papel no mundo. Estou certo?

Pois é. Mas eis onde reside o problema. As mulheres estão prestes a perceber que não precisam mais de nós. E aí, não representaremos mais papel nenhum na dramaturgia da vida. Não conseguiremos nem um bico de figurantes. Logo nós, os machos, que sempre nos julgamos protagonistas quando não passávamos de péssimos coadjuvantes tentando roubar a cena forçadamente com uma atuação canastrona.

A gente começou argumentando que o papel do homem era tomar conta de tudo enquanto elas criavam os filhos e arrumavam a casa. Nós éramos a fonte da semente da vida e elas recebiam as sementes para nos dar filhos. Até que elas nos fizeram perceber que carregar a criança em seu ventre por 9 meses era uma tarefa muito mais árdua e significativa que sair espalhando sementes por aí. Foi mais ou menos nessa época que inventaram a inseminação artificial e a camisinha mostrou que elas poderiam nos usar quando quisessem, não apenas para gerar filhos.

Ainda estávamos tranquilos. Sabíamos que não éramos os protagonistas, mas pelo menos representávamos um papel importante. Afinal, as sementes ainda eram nossas e elas teriam que vir buscar, nem que fosse via banco de esperma. Nem nos abalamos muito quando começaram com aquelas palavras de ordem todas, demanda por direitos iguais e queima de sutiãs.

Mas aí inventaram a clonagem e a reprodução assexuada, utilizando células não reprodutoras. Pronto. A verdade se tornou insuportável para nós. Nós, homens, finalmente somos inúteis.

Governar cidades, estados, países? Elas fazem. Comandar empresas? Sim e com uma sensibilidade maior que a nossa. Futebol? Em uma palavra: Marta. Sexo? Já se viram sozinhas ou em dupla. Amor, carinho, atenção, companheirismo? Fala sério! Elas são muito melhores do que nós em tudo isso.

Ainda tentamos diminuir seus méritos espalhando boatos por aí. “Elas não sabem dirigir.” “Gastam muito no cartão de crédito”. Mas que nada! A estatística foi mais uma ciência a dpor contra nós, desmascarando mais essas farsas.

Em resumo, agora que elas já alcançaram a independência completa e absoluta, só nos restou uma única função: abrir potes de conserva. É pouco perto de tudo que costumávamos fazer. Por isso, aproveito o dia mundial da mulher para lançar um alerta e um apelo para evitar, ou pelo menos adiar, a extinção do ser masculino. Vamos procurar maneiras de nos fazermos úteis, seja através da excelência em massagens nas costas, resolver problemas hidráulicos ou cozinhar magistralmente. Porque já vimos que essa história de mandar, de comandar, não é bem o nosso forte. A evolução da ciência favoreceu as mulheres. O mundo agora é delas. Mas antes que elas percebam, vamos combinar uma coisa: a gente não conta pra ninguém. Falou? 

Pérolas 10 – Por Siney Cláudio

agosto 24, 2010

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Coluna da Digi #55 – A história que mudou a história.

agosto 23, 2010

No dia 02 de março de 2009, publiquei uma crônica sobre a série em quadrinhos “The Watchmen“, de Alan Moore, por ocasião do lançamento do filme dirigido por Zack Snyder e baseado nas revistas. O lançamento do filme também gerou uma série de bons artigos de Pablo Capistrano, Alex de Souza, Milena Azevedo e Patrício Jr. e que podem ser lidos, clicando aqui: https://blogdofialho.wordpress.com/tag/the-watchmen/

Publico novamente o texto e espero que todos gostem.

Obrigado.

***

A história que mudou a história.

Os super-heróis habitam o imaginário popular há mais de meio século. Nesse tempo todo, as crianças (e os que ainda são crianças em seu íntimo) sempre devanearam a respeito de um mundo repleto de intrépidos mascarados, vestindo as cuecas por cima das calças, nos defendendo dos perigos, intervindo nos grandes problemas da humanidade, nos protegendo e reduzindo os índices de violência.

O que fariam os super-heróis na Faixa de Gaza? Como eles agiriam na disputa entre o Hamas e Israel? Eles atuariam em Natal? Fariam algo para impedir as centenas de assassinatos ocorridos no pior início de ano da história?

A resposta, não há como saber, mas pode-se supor. Os roteiristas procuram sempre contextualizar, trazendo os heróis para mais próximo de nós. O Homem-aranha ajudou a resgatar as vítimas no 11 de setembro de 2001 e já até teve um encontro com Obama na edição de janeiro que esgotou em poucas horas nos Estados Unidos.

Porém, nunca ninguém conseguiu imaginar um universo tão realista quanto o inglês Alan Moore em “The Watchmen”, a mais aclamada história em quadrinhos de todos os tempos, definida como o Don Quixote ou o Cidadão Kane dos romances gráficos. Tanto que foi o único quadrinho até hoje a vencer um prêmio Hugo, um dos mais importantes da literatura mundial.

Seguindo o gênero da história alternativa, inventado por Philip K Dick em “O homem do castelo alto” (essa eu aprendi com Alex de Souza), ele concebeu um mundo igualzinho ao nosso, só que habitado por justiceiros mascarados de verdade.

Alan Moore chegou à conclusão de que o mundo não seria necessariamente melhor com a intervenção dos heróis. Pelo contrário. Os Estados Unidos exerceriam um domínio sobre os mascarados e, com a ajuda deles, venceriam a Guerra do Vietnã. A União Soviética se recusaria a se desarmar e a tensão nuclear deixaria o mundo numa tensão insustentável. Com o governo estadosunidense levando vantagem na Guerra Fria, não haveria escândalo Watergate que desse jeito na popularidade de Nixon e do partido Republicano que se perpetuaria no poder.

Os heróis concebidos por Moore tinham falhas de caráter muito evidentes. Eram infiéis no casamento, violentos com suas vítimas, assassinos que se aproveitavam da imunidade diplomática concedida pelo governo para cometer as mais abjetas atrocidades. O Dr. Manhatam (único com superpoderes) transmite câncer para as pessoas próximas e o Coruja (sem poderes, mas cheio de engenho) chega até mesmo a brochar em uma das passagens mais improváveis das HQs mundiais.

A coluna de hoje serve para alimentar a expectativa da estreia mundial do filme que ocorrerá na próxima sexta-feira (6 de março). Fazia tempo que eu não aguardava um filme com tanta expectativa. Pelo que andei lendo e vendo na internet, o romance gráfico de Alan Moore, uma das criações mais geniais em que já pus as mãos, está sendo adaptado de forma tão magistral, cuidadosa e milimétrica pelo diretor Zack Snyder que arrisco dizer que será um dos grandes filmes de 2009. Agora é só aguradar a sexta-feira chegar e torcer para que os cinemas de Natal recebam o filme logo na estreia e não tenhamos que aguardar 2 meses para podermos conferir a produção, como ocorreu com Sin City no ano da graça de 2005. Se for o caso, vou precisar de uma super-paciência ou morrerei de ansiedade.

Pérolas 9 – Por Siney Cláudio

agosto 21, 2010

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A Cidade Morta – Parte Final

agosto 20, 2010

A prefeita ficou sabendo da epidemia, ou que pelo menos havia algo de muito estranho acontecendo, através do seu assessor pessoal. A maneira, porém que o braço direito da gestora escolheu para revelar a verdade não poderia ter sido pior. Ele entrou em seu gabinete quando ela estava sozinha. “Oi. Tenho que despachar uns assuntos com você.” Aproximou-se da mesa da prefeita e com as duas mãos em seu pescoço, apertou com força e suspendeu-a bem alto até sufocá-la. Ela não teve nem tempo hábil para pensar o porquê de aquilo estar acontecendo e logo por meio de seu seguidor mais fiel. Depois de morta, o assessor para todos os assuntos deixou o corpo inerte da prefeita sobre a mesa oficial. Estranhamente, o zumbi assessor não quis morder ou sequer devorar a antiga chefe. Contentou-se em matá-la, uma atitude incomum a sua natureza de morto caminhante, inexplicável até mesmo para os maiores especialistas no assunto.

A zona norte da cidade também já começava a sentir os efeitos da contaminação. Milhares de mortos viventes andavam pela Ponte Newtom Navarro ou pela Ponte de Igapó, no afã de compartilhar com os irmãos do hemisfério mais populoso da capital, o que eles tinham para lhes oferecer. A residência do Deputado populista símbolo da localidade foi transformada em trincheira por centenas de fiéis seguidores e eleitores do político. A Governadora estava desaparecida desde o fim da manhã. Havia sido vista pela última vez numa solenidade no Centro Administrativo ao lado do vice, que concorreria para o cargo majoritário do governo, e de alguns secretários. O ponto alto da festa foi quando o seu filho, que também era candidato nas eleições, adentrou o evento zumbificado e causou mais um escândalo para sua administração ao morder diversos dos presentes. Aliás, o filho da gestora, que era candidato a deputado estadual, já havia abocanhado bastante durante o governo da mamãe.

Uma tropa de altos mortos viventes, sarados, outrora saudáveis e atletas marchavam pela cidade, saídos todos da academia Athletica. Na frente Alex de Souza, o paciente zero da epidemia, ladeado pelo Deputado Federal e empresário dono da academia, muitos alunos e instrutores de musculação e ginástica, além da namorada do político e empresário, a artista Preta Gil. O zumbi Federal parecia ser o mais satisfeito com sua recém adquirida condição de morto. Era como se tivesse descoberto, após a morte, a verdadeira razão por que nascera. Observando-o mais atentamente, poderíamos até dizer que parecia mais inteligente morto do que quando em vida.

A noite caía na capital potiguar e a profecia da prima gostosa de Alex de Souza finalmente se cumprira. “Natal é uma cidade muito morta…” Os que não conseguiram fugir, ou haviam se convertido em mortos-vivos, ou em mortos-mortos, ou estavam em bunkers improvisados, muito bem ocultos, como um pequeno grupo que se refugiou no Gringos, bar Rocker de Ponta Negra, bairro turístico da cidade convertido em zona de prostituição pelas autoridades.

Os zumbis tinham que caminhar cada vez mais longe para conseguir boa carne humana, fresca e nutritiva. Um grupo de sobreviventes que fugia em um carro na BR 101 desde um supermercado da Avenida Roberto Freire parou no meio da pista por falta de gasolina. Agora, estavam ali, sujeitos aos ataques certos dos mortos que tomaram conta da cidade. Não demorou muito para eles serem completamente cercados por uma multidão.

De repente, ante o pânico generalizado daqueles 5 condenados, do desespero que a morte próxima, o fim iminente e inevitável, traziam, viram um grupo de mortos mais fortes abrirem caminho entre os demais. Eram os zumbis anabolizados da Athletica, o Deputado Zumbi entre eles, transformados em lacaios e escravos por Alex de Souza. Acontece que uma das pessoas que constituía aquele grupo fugitivo era, ninguém menos, que a prima, objeto de seu afeto, que faltou a sua missa de (suposta) despedida.

Ela reconheceu o primo e, em seus olhos brilhou uma centelha de esperança de escapar com vida daquela situação absurda. “Meu primo lindo.”, disse chorando. “Por favor, peça pra eles não machucarem a gente, peça pra eles não machucarem a gente.”, implorava de joelhos. Alex ergueu a prima e olhou diretamente em seus olhos. Parecia lembrar de algo, de reconhecer alguém do passado. Queria lhe dizer alguma coisa, exprimir um sentimento, um desejo, querer retomar o fluxo sanguíneo, que abandonou suas veias. A prima retribuía o olhar como quem se agarra a uma possibilidade única de escapar. Alex então, rápido e preciso, deu o bote. Matou a prima rapidamente, sem dor, enquanto a multidão em sua volta, avançava sobre os outros 4 do grupo sobrevivente.

Alex, após a morte, realizou finalmente o seu grande sonho, quando em vida. Comeu a prima e constatou o quanto, de fato, ela era gostosa. Não foi exatamente da maneira que ele havia imaginado, mas, a essa altura dos acontecimentos, não fazia lá muita diferença.

E verdade seja dita: Natal é mesmo uma cidade muito morta.

FIM

A Cidade Morta – Parte 9

agosto 19, 2010

Pelo Twitter, alguém deu a dica. “Acabo de matar meu pai. Tem que furar a kbça. Atirei nele c/ arpão.” Era um alento virtual aos vivos diante do tumulto real e geral. As lutas começaram a produzir as primeiras baixas zumbis, graças a essa nova informação propagada aos gritos pelos que fugiam em desabalada carreira pelas ruas, se escondiam em apartamentos ou refúgios improvisados, ou aglomeravam-se em lugares de difícil saída e flagrante desvantagem geográfica. Como no restaurante Buongustaio, por exemplo, uma ilha suspensa nos confins de Petrópolis, onde os empresários Paulo de Paula, Fernando Fernandes e uma infinidade de Patriotas, Flores, Gadelhas e afins viram-se cercados por centenas de homens, mulheres e crianças, todos gemendo e grunhindo, com os braços estendidos, arrastando-se para eles.

Alguns reconheceram ligeiramente os flanelinhas que costumavam guardar seus carros importados, sempre que estacionavam ali, algumas esposas vislumbraram vendedoras de lojas chiques localizadas próximas ao restaurante. Era como se aquelas camadas mais baixas da sociedade se insurgissem contra eles, cobrando finalmente uma fatia do bolo social, tudo o que eles temiam, que os pobres se organizassem contra o monopólio do dinheiro. A verdade é que, enquanto conversavam animadamente a espera do almoço, os comensais perderam todo o espetáculo dantesco que ocorria a sua volta. Agora, era tarde. Os zumbificados que sempre tiveram suas vidas exploradas pelos detentores do capital vinham agora virar o jogo, extraindo eles próprios as vidas dos corpos bem alimentados e fartos dos clientes do Buongustaio.

A esta altura, o Midway Mall, maior centro de compras da cidade, estava um caos. Mas nenhuma metamorfose ou experiência de ida-e-volta ao mundo do além foi registrada. É que o dia-a-dia do lugar era marcado pela loucura frenética de uma população sem opções que acorria às vitrines das lojas à guisa de entretenimento, que sucumbia aos apelos fáceis do capitalismo rasteiro para compensar a falta de cultura e educação. Também havia os que se refugiavam nos ar-refrigerados e praças de alimentação constantemente vigiadas dos centros comerciais, da rua lá fora, cada vez mais ameaçadora nesta Natal de sequestros relâmpagos e assaltos a mão armada. Quando a turba alucinada e sem vida invadiu o shopping numa horda numerosa, muitos pensaram se tratar de uma ação de marketing, como o lançamento de uma nova loja âncora ou ainda uma dessas mobilizações ruidosas convocadas pela internet para chamar a atenção promovidas por adolescentes com os hormônios em erupção. O fato é que logo, os zumbis vivos que se arrastavem pelo Midway se converteram em zumbis mais autênticos dada a ação dos muitos que entravam para lhes enfiar os dentes nos couros, devorando bem mais que os sanduíches do Pittsburg ou as carnes da Montanna Grill.

CONTINUA. AMANHÃ: PARTE FINAL.

“Como se não houvesse amanhã” recebe Prêmio Biblioteca do Professor

agosto 19, 2010

Atenção, interrompemos esse conto de zumbis para abunciar que o livro “Como se não houvesse amanhã – 20 contos inspirados em músicas da Legião Urbana” (do qual participei com muito orgulho) ficou em primeiro lugar no Prêmio Biblioteca do Professor, concedido pela secretaria de educação do Rio de Janeiro e será adquirido para que os 16 mil professores das escolas cariocas trabalhem seus textos em sala de aula.

Ou seja, de uma tacada só, o Henrique Rodrigues e os outros 19 autores do livro (eu já disse que sou um deles?) conseguiram agradar à crítica e vender pra caramba. O Prêmio Biblioteca do Professor é concedido após uma votação dos próprios professores das escolas públicas do Rio.

Muito massa. Estou muito feliz com isso. Tenho pensado inclusive em, talvez, promover um novo lançamento em Natal lá pra novembro, pois no evento que fizemos com o pessoal do Uskaravelho, tivemos poucos livros à disposição. Quem sabe?

Henrique Rodrigues - Organizador do livro

Queria agradecer aos outros autores por terem me dado a oportunidade de participar de um projeto coletivo de tanto alcance quanto este. Principalmente ao Henrique Rodrigues, grande organizador da publicação.

E agora continuem acompanhando essa fantástica história de zumbis qua assolaram Natal em 2009.

A Cidade Morta – Parte 8

agosto 19, 2010

No interior do Estado também ocorreram muitas mortes quando as prefeituras decidiram armar barricadas nas entradas das cidades com ordem de manterem o vírus fora dos perímetros urbanos. Com isso, carros foram metralhados na entrada de Mossoró, Caicó, Currais Novos e principais interiores do RN. Em algumas cidades correram boatos que davam conta da origem da “raiva humana”, como vinha sendo chamada. Diziam que era uma derivação da hidrofobia comum em cães. Com isso, pessoas que criavam cachorros ou que haviam tido contato com esses animais passaram a ser assassinadas por seus vizinhos, amigos e até familiares em toda parte. A doença logo ganhou o apelido de “A gripe do cão” com mais de um sentido. Por isso, claro, os cachorros também foram dizimados.

O primeiro vereador a se transformar em zumbi foi justamente o primeiro na contagem de votos nas eleições anteriores. O apresentador Paulo Wagner discursava em plenário quando um guarda municipal maneta entrou e correu para ele. Ainda teve tempo de dizer “É a oposição raivosa atentando contra a minha idoneidade e moral! Este homem está me agredindo! AI, DANOU UMA DENTADA NO MEU BUCHO!” Os engravatados colegas, aspones, jornalistas e curiosos viram de seus assentos o guarda municipal zumbificado arrancar as tripas do político. Cena dura demais até para os mais destemidos como a vereadora Sargento Regina. A desordem instaurada não foi distinta de nenhum outro ambiente ao viver semelhante situação. Os políticos foram se dirigindo à saída tomados de horror, mas esta já trazia plenário adentro, toda uma turba de mortos caminhantes, ansiosos por provarem das carnes, órgãos e vísceras dos representantes do povo, sentir um pouco do gostinho de seu sangue, justo eles que eram acostumados a terem a atitude inversa, vivendo dos suores do povo que agora os comia ou transformava em neo-mortos.

Os zumbis veradores Júlio Protásio, Adão Eridan e Dickson Nasser talvez disputassem a liderança daquela nova comunidade da qual fariam parte. Porém, não tiveram sorte (sorte?) de semi-sobreviver aos ataques da população que, carente já em vida, tornou-se ainda mais necessitada de boas quantidades de carne que aplacassem sua fome, agora como mortos-vivos. Com isso, estes estimados políticos foram devorados por completo.

Ao verem aquele jovem fantasiado de monstro, as recepcionistas pensaram tratar-se de uma estátua viva que havia trocado o prateado noturno, por uma indumentária que pudesse usar durante o dia, numa performance estática em troca de algumas moedas. Acharam a iniciativa interessante, apesar do extremo mau gosto, pois deveria ter escolhido uma fantasia esteticamente mais agradável. Alex entrou na academia e dirigiu-se direto à recepção, atraído pelas duas belas garotas que ali trabalhavam. Parou diante de uma delas e, ao ouvir um elogio ao “realista que estava” sua fantasia, desferiu-lhe um beijo de língua. Desesperada por desvencilhar-se da atitude sedutora de micareta, a recepcionista se sacudia toda. Até porque, a decrepitude no hálito do morto já se evidenciava no odor sufocante. Foi Alex, porém, que interrompeu o beijo. Voltou-se para trás, levando consigo a língua da recepcionista que, não encontrou nenhuma solução melhor que não fosse desmaiar de dor. A segunda recepcionista também desmaiou diante da visão da cena. Do alto da escada da academia descia um professor de Jiu-jitsu muito alto e forte. Este atleta, por um mero acaso, namorava a garota que acabara de ser despojada de sua língua por Alex. Impressionado com a cena, desceu para espancar o zumbi, pois era mais urgente fazê-lo que socorrer sua consorte. Enquanto ele aplicava um golpe, uma chave no pesoço com o intuito de imobilizar e desmaiar o oponente, este lhe mordeu o braço. Logo, o professor subia novamente as escadas rumo ao pátio de exercícios da academia, acompanhado de Alex. Aquelas dezenas de pessoas se exercitando fariam ambos salivar, caso ainda dispusessem de alguma secreção corpórea. Como um cachorro diante de um frango assando e rodopiando, eles contemplaram por alguns segundos as meninas que corriam nas esteiras enfileiradas. Depois, cambalearam a passos de zumbi para aproveitarem o banquete.

A Cidade Morta – Parte 7

agosto 17, 2010

Repetindo mecanicamente gestos que realizava em vida, como é corrente entre os zumbis, a mãe se dirigiu ao Banco do Brasil da Afonso Pena. Entrou sem avançar contra ninguém. Foi direto a um dos caixas eletrônicos que encontrou desocupado e, ali diante do visor, parecia ser invadida por reminiscências de hábitos costumeiros, instintivamente posicionada diante da máquina, mas sem saber o que deveria fazer. Logo, alguém argumentou que “aquela senhora furou a fila”. Os protestos se multiplicaram e uma funcionária de colete amarelo foi pedir-lhe gentilmente que cedesse lugar para as pessoas que esperavam ordeiramente e de maneira adequada. No entanto, para supremo infortúnio da estagiária, a cliente investiu, mas não no banco, em suas ancas, causando alvoroço no recinto e a reação do segurança que, de arma em punho veio em socorro da funcionária mordida.

Os médicos que saíam dos dois hospitais, com dentes à mostra em sorrisos aterradores de psicopatas, olhos sem vida a mirar o vazio e atitudes firmes de presos amotinados contra todo e qualquer ser humano que cruzasse o seu caminho, eram apenas alguns dos muitíssimos tipos bizarros que surgiam de suas portas escancaradas para ganhar as ruas de Natal, espalhando medo, sangue, terror e morte. As primeiras equipes de TV que tentaram registrar o evento ao vivo foram devoradas diante dos olhos incrédulos de telespectadores de todo o Estado. Com isso, a notícia se espalhou um pouco antes da epidemia que também seguia a galope de jumento fugindo de cachorro brabo.

As pessoas dos mais distantes grotões da cidade passaram a fugir imediatamente. O caos tomou conta de tudo. Nas ruas em engarrafamento contínuo simplesmente pararam de circular automóveis. O número de acidentes nos cruzamentos, sob semáforos que ninguém mais respeitava, cresceu assustadoramente. As brigas e conflitos provocados pelas batidas de trânsito, tentativas de fuga e o próprio desespero típico de uma situação capital como aquela, cobravam também os seus óbitos. Muitos mortos por golpes de armas improvisadas, artefatos dos mais diversos convertidos em instrumentos de batalha. Atropelamentos, saques, gente pisoteada, acontecia de tudo na, outrora ordeira, cidade do sol.

Alguns com mais sorte, por estarem próximos dos limites da cidade ou por se encontrarem em trânsito, ao ouvirem as cataclísmicas notícias que chegavam pelo rádio ou TV, conseguiram se evadir rapidamente, numa diáspora revisitada, holocausto reloaded, alerta de tsunami. Todos só queriam fugir do apocalipse que se levantava e os perseguia, rente a seus calcanhares. Um cenário de Orson Welles se apoderou da cidade e arredores. Uma “Guerra dos Mundos” de HG Wells, narrada pelo cultuado cineasta, revivida agora no mais improvável dos cenários, tão distante do Central Park e próximo do Bosque dos Namorados. Por átimos de segundo, pensavam nos entes queridos e amigos do peito, deixados pra trás, pensamentos de pesar logo sobrepujados pela impotência justificadora de qualquer covardia. Sair dali era sinônimo de permanecer com vida. Muitos fugiam também a pé. Um sem número de atropelamentos fatais puderam ser vislumbrados nas BRs. Andarilhos que atravessavam na frente dos carros, implorando uma carona redentora, eram atingidos em cheio, sem nenhuma hesitação, pelos condutores, temerosos que eles fossem os infectados anunciados pelo rádio, que espalhavam uma espécie de “raiva” pelos bairros natalenses. De repente, um locutor em pânico começou a berrar ao vivo: “Saia daqui! SAIA! SAIA DAQUI! AAAAAAAAAH!!!!” A transmissão saiu do ar.

CONTINUA

A Cidade Morta – Parte 6

agosto 16, 2010

A mãe partiu em direção à Avenida Afonso Pena e, ao chegar na esquina onde se localiza o Hospital Papi foi abordada por um médico que chegava para dar plantão. “Minha Nossa! A senhora está bem? Alguém me ajude a levar essa mulher pra dentro. Ela está ferida.”, pediu ele, impressionado com o rosto encharcado de sangue e um nariz pendurado. As pessoas já começavam a aglomerar-se em torno deles, quando a defunta deformada mordeu, com toda a força de seu potente maxilar, num golpe profundo de animal selvagem, o doutor ali mesmo na calçada. Ele gritou um grito de morte, sem saber que o era de fato, e a mulher sem vida era segura pela multidão, enquanto mastigava um generoso naco do braço do médico. Ele chorava baixo, encostado ao muro, amparado por outros tanto transeuntes e funcionários do hospital que saíram em seu socorro. A mãe investia contra os que a continham, estes cada vez mais certos que seu caso era para a Casa de Saúde Natal ou para o Hospital Colônia, conhecidas instituições para pacientes mentais, e não para o PAPI. Um dos homens que tentava contê-la, já eram 6, teve um dedo arrancado e saiu deseperado direto para a emergência do Natal Hospital Center, vizinho ao PAPI. Os outros se surpreendiam com a força de bicho, fúria de besta ferida, demonstrados por aquela senhora. Com raiva quase canina, ela desferiu mais um par de mordidas em seus algozes que agora recebiam a ajuda de mais dois homens fortes, policiais militares que passavam pelo local.

O médico que era levado para dentro por um casal de enfermeiros, curvou-se em direção ao ouvido da moça que o sustentava. Parecia que iria lhe fazer um pedido, uma súplica, falando baixo, sussurrando, utilizando as poucas forças que a copiosa hemorragia não fizera esvair-se de seu corpo convulso. Ela aproximou a cabeça para ouvir o que ele tinha a dizer, mas só sentiu uma dor fina e o morno líquido rubro deslizar pelo lado do rosto quando sua orelha direita foi arrancada. Pânico na sala de espera da emergência. O doutor, diante de uma plateia atônita e paralisada pelo medo, pela surpresa e pela mórbida curiosidade, avançava para o maior número de vítimas possível. Logo a enfermeira “monorelha” se juntou a ele em sua fome de zumbi nova. Nunca o PAPI viu tanto sangue.

O pai saiu da Santa Terezinha e pela porta da frente, caminhando chegou à rua Campos Sales sem conseguir morder ninguém. Devido ao seu aspecto deplorável de morto, os moradores de Petrópolis/Tirol desviavam do seu caminho, por confundi-lo com algo, para eles, muito pior: um mendigo. Em seus passos errantes, porém, coseguiu chegar a um edifício de paredes brancas. Um guarda municipal o abordou, mais um que o confundia com um despossuído. “O senhor não pode entrar agora pra pedir. Os vereadores estão em sessão. Volte umas 11h, quando acaba o expediente deles e…” A mão do sentinela repousada sobre o peito do pai pareceu-lhe apetitosa demais para não receber uma mordida, convertendo-se em sua primeira refeição de morto. Enquanto tinha suas falanges, falanginhas e falangetas, carpo, metacarpo e tudo mais sendo avidamente deglutidos pelo pseudo-mendigo, o vigilante desferia poderosos golpes em sua cabeça com a mão que lhe restava, o que não parecia produzir muito efeito a não ser o recuou provisório do farrapo faminto e semi-humano. Num puxavanco vigoroso, porém, o pai conseguiu arrancar a mão do guarda a partir do punho e saiu mastigando seu lanche matinal. Aquele, desesperado, gritava correndo para dentro da Câmara Municipal.

Alex foi mais feliz em sua caminhada, tendo mordido várias vítimas tão logo saiu da Santa Teresinha e se deparou com os populares que iam, vinham ou “pastoravam” carros na Rodrigues Alves. Pacientes ou profissionais das clínicas, clientes dos restaurantes que buscavam suas marmitas para levar a casa, pedintes mil. O cardápio era variado e sua voracidade típica de um jovem zumbi faminto que, empolgado com o fato novo e mantendo intactos a energia e impertinência próprias dos 20 anos, mostrava-se ensandecido, não podendo ver uma jugular à mostra ou rosto apavorado que arremetia seus dentes e tirava bifes inteiros dos pedestres que tinham a falta de sorte suprema de cruzar o seu caminho.

Distanciando-se um quarteirão da igreja de onde se levantara e saíra à rua, parou diante de um prédio, vizinho ao América Futebol Clube. Um edifício envidraçado, repleto de pessoas com suculentos nacos de carne fresca em exibição, correndo em esteiras, pedalando em bicicletas ergométricas, forçando os músculos em máquinas de roldanas. Era a Academia Athletica.

Monsenhor Lucas caminhou pela parte central da paróquia de Santa Terezinha. Logo, cruzou com uma beata que passava e lhe puxou pela mão. “Monsenhor! Não sabia que a missa de corpo presente do rapaz ia durar tão pouco. Venha! Vamos participar do curso de padrinhos que está acontecendo no anexo. O padre Marlos vai ficar feliz com sua presença.”

“Monsenhor, seja bem-vindo! Estamos agora falando dos valores cristãos que o padrinho deve transmitir ao seu afilhado até o fim da vida. O senhor gostaria de falar alguma coisa para os nossos alunos? Palmas para o Monsenhor Lucas!” As palmas foram ouvidas imediatamente, em resposta aos pedidos do professor Padre Marlos. Tanto que, quando ele se fundiu com o Monsenhor num apertado abraço de urso, mexendo freneticamente a mão direita em espasmos verticais, os assistentes pensaram que se tratava de um pedido para subirem o tom e a intensidade da homenagem. Por isso bateram palmas com ainda mais força e rapidez. A beata então, comovida com o vigoroso gesto de afeto dos dois sacerdotes, gritou para o público: “Viva o Monsenhor Lucas!” E todos responderam: “Viva!” Novamente: “Viva o Monsenhor Lucas!” “Viva!” “Viva o Monsenh…!” Neste momento ele deixou cair o corpo já sem vida do Padre Marlos Apyus e com o sangue, que não era de Cristo, escorrendo pela batina, rangeu os dentes para os pretensos padrinhos. Um deles, menos atento e de raciocínio pouco prodigioso, ainda respondeu retardatário: “Viva!” Aquela saudação, porém, não poderia ser mais inadequada.

CONTINUA

A Cidade Morta – Parte 5

agosto 15, 2010

– Alex de Souza era um rapaz lutador. Ainda muito jovem partiu para um país humilde, para ajudar um povo sofrido que tanto precisava de ajuda…

7h30 da manhã. Cheiro de flores. Choro de alguns. O som inconfundível de muitos narizes fungando simultaneamente.

– …ele não se negou a ajudar. Dedicou dois anos de sua juventude para prestar auxílio a uma nação pobre, longe dos amigos, da família, de tantas pessoas queridas que enchem esta igreja na mesma medida em que o próprio Alex sempre encheu seus corações de alegria…

Na primeira fila, os pais desconsolados, tentavam entender o porquê. Se ele havia sobrevivido à instabilidade de um país dividido, aos perigos da guerrilha, como é que poderia ter morrido logo de uma febre? E depois de já ter voltado pra casa. Desde que o doutor do hospital militar ligara para a família com a notícia, todos custavam a crer no inusitado da situação. Parecia um sonho ruim. Ou uma piada de humor negro, de péssimo gosto e baixíssimo calão. A matriz da paróquia de Santa Terezinha, localizada entre os bairros de Tirol e Petrópolis reunia todas as pessoas que costumavam sentar-se juntas no alpendre da avó de Alex na casa de Zumbi. Ou quase todas. A prima, por alguma razão, não comparecera. Há muito se esquecera do primo por quem tinha uma boa amizade quando adolescente. Por isso a sua morte não lhe causou impacto forte o bastante para que ela acorresse à missa de corpo presente. Daria “uma passadinha” no velório porque “família é família”, mas nada de fortes emoções e sentimentos à flor da pele. Além disso, ela trabalhava num supermercado na Avenida Engenheiro Roberto Freire e ficava um pouco fora de mão se deslocar até a região central da cidade.

O padre continuava seu sermão:

-… ele se levantou e partiu em socorro dos mais necessitados, pois Alex sempre se erguia diante das injustiças.

Qual não foi a supresa de todos os presentes quando Alex levantou-se, mas não diante de nenhuma injustiça, e sim dos olhos de todos. Surpresa, sobressaltos, terror, burburinho. Um e outro grito, além de alguns desmaios súbitos. Monsenhor Lucas emudeceu. Chegou perto do corpo para certificar-se de que aquilo estava mesmo acontecendo. Alex abriu os olhos. O padre anunciou a boa nova: “É UM MILAGRE!” Foram suas últimas palavras antes que o cadáver revivido pulasse sobre ele e investisse contra sua jugular. O sangue jorrou e a mãe de Alex correu em direção ao filho. “Menino, saia já daí! Deixe o Monsenhor em paz!” Alex interrompeu o ataque parou diante da mãe e pareceu estar reconhecendo alguém remotamente familiar. “Meu filho.”, disse ela, chorando e o abraçou. O pai também se aproximava para participar daquele abraço quando o celebrante da missa, ágil como um ginasta, levantou-se do chão e, com a batina, ora branca, agora tingida de vermelho, surgiu em seu caminho. “Pa-pa-padre? O senhor está bem?”

Uma forte mordida em seu ombro direito foi o atestado de boa saúde do sacerdote. A mãe, ao vislumbrar o marido sendo atacado pelo Monsenhor, numa clara represália ao que o filho do casal fez com ele havia pouco, partiu indignada com a bolsa em punho. “Que coisa feia, Mosenhor Lucas! Um homem de Deus não pode guardar rancor no coração. Tem que perdoar! Solta o meu marido!” Quando se aproximou, foi o próprio marido que, livrando-se do padre, mordeu o nariz da mulher. Ela urrou de dor, mas logo se entregou em silenciosa letargia. Os 4 permaneceram na nave da capela por mais alguns minutos, como se assimilando sua nova condição. Todos os presentes à cerimônia se haviam evadido daquele lugar tão rápido quanto puderam ante os últimos sucessos. Aquele templo, outrora sagrado, agora se tornara maldito. Os 4 personagens restantes (um padre, um jovem militar e o casal que representava o seio de uma família) tomaram uma atitude anarquista: separaram-se e saíram da igreja, cada um por uma porta, para saciarem sua fome. Era, mais uma vez a história se repetindo: “Deus, Pátria e Família, marchando pela liberdade”, ou pelo menos marchando pra matar a fome. Só que dessa vez, subversivamente, foi cada um marchando por si.

A Cidade Morta – Parte 4

agosto 13, 2010

Quando entraram no carro do guia e intérprete, Alex revelou parcialmente o que lhe ocorrera. “Na correria lá de dentro, acabei me machucando. Acho que esbarrei em uma garrafa quebrada ou em uns pregos, sei lá.” “Deixa eu ver. Ah, não é nada, garoto. Foi só um cortezinho. Toca daqui logo, François que a gente tem que levar o parceiro pra fazer um curativo.”.

Os 3 soldados na enfermaria comentavam a aventura. “Caraca, maluco! Sinistro, aê!” O médico apenas passava um antisséptico no local da mordida e fazia um curativo bem simples. Perguntou pra ele quem lhe havia mordido. “Mordida? Você não disse que tinha cortado num vidro?” Alex argumentou que só sentiu a dor no meio do tumulto e nem teve tempo de ver o que tinha acontecido de verdade. Os colegas ficaram satisfeitos com a resposta. Ao chegar no alojamento, decidiu não dormir. Arrumaria suas coisas imediatamente e, no dia seguinte, tentaria embarcar no primeiro vôo que levasse militares de volta pro Brasil. Mesmo que seu horário já estivesse marcado para as 17h, tinha boas relações com um coronel que era seu conterrâneo e sabia que poderia conseguir uma vaga no avião das 6h da manhã.

Numa missão diplomática de urgência, conseguiu falar com o coronel que, pra sua sorte, só dormia depois da 1h da madrugada. Este preparou um ofício que o autorizava a embarcar na aeronave de logo mais. “Sempre sobram algumas vagas para casos como estes, de pedidos das autoridades. Leve este documento que ele garante sua viagem.” Alex ficou tão feliz que foi direto para o hangar de saída do avião. Já estava impecavelmente fardado e com sua bolsa a tiracolo. Não queria perder o vôo por nada neste mundo. Às 5h da madrugada, já havia entrado e se acomodado na aeronave e pontualmente às 6h, levantou vôo com o resto da tripulação que comemorou a partida como um gol do time do coração. O nervosismo, a tensão daquelas últimas horas, os sustos passados no ritual vudu, tudo aquilo parecia estar tendo um certo efeito sobre ele. Sentia-se febril e um pouco fraco até.

 ***

 A enfermeira tentava mais uma vez obter sucesso:

– Alô. Alô. Você pode me ouvir?

– Hã?! O que?

– Ele acordou! Doutor, o paciente acordou.

– …

– Oi, você tá entendendo o que eu digo?

Alex fez sinal de positivo.

– Você está dormindo há 2 dias. Desmaiou ainda no caminho para o Brasil e tem uma febre muito forte. Não conseguimos identificar o que é, mas seus sinais vitais estão oscilando muito. Você se sente bem?

– Hã? Sim…

– É um caso estranho o seu. Vamos ter que refazer os exames porque… Enfermeira! Venha cá! Os batimentos estão diminuindo de novo! Ele vai desmaiar.

 ***

A Cidade Morta – Parte 3

agosto 12, 2010

Os 3 recrutas saíram da base um pouco depois das 8. Seguiram de carona com o François, intérprete da ONU, que havia se tornado amigo do Carioca e aceitou ciceroneá-los num ambiente que raramente recebia estrangeiros. Eles iriam testemunhar um ritual de magia negra realizado por um dos principais bokors (feiticeiro vudu) do país. Ele traria de volta à vida um jovem trabalhador rural morto há menos de 24 horas. François explicava em português algumas peculiaridades sobre as crenças do país. “Posso assegurar aos senhores que o que veremos esta noite não tem nada a ver com supertisção nem com qualquer cerimonial religioso ou tradições populares. É uma prática real, demoníaca, mas real. E, no Haiti, práticas como esta são mais frequentes do que se possa imaginar.” Um suspiro de hesitação foi ouvido vindo do banco de trás do automóvel. O Carioca riu excitado.

O local do ritual ficava numa zona remota de Porto Príncipe, num bairro ainda mais pobre que as zonas centrais da capital. O “templo”, uma espécie de quintal de uma casa paupérrima estava cheio de expectadores com olhos tão atentos ao sacerdote (bokor) que nem se deram conta da presença estrangeira a observar tudo ali. No centro do terreno, uma mesa comprida. Fogueiras e batuques remetiam a velhos rituais de origem africana, como pode ser ouvido nos terreiros de macumba brasileiros. De repente, ao som de batidas cadenciadas, entram quatro homens negros e fortes, carregando uma maca com um corpo coberto por um lençol. Eles o depositam na mesa central e retiram o lençol. É um homem sem vida, não resta dúvida.

O bokor se aproximou do cadáver e começou a dizer palavras supostamente mágicas em um idioma indecifrável, num transe convincente. “É a língua dos mortos.”, disse o “guia” do grupo. Após proferir solenemente as palavras, ofeiticeiro abriu um frasco e jogou um líquido, algo como uma poção mágica no morto. Depois disso, fez silêncio. Ele e o público. Os tambores e o vento. Nada se atrevia a manifestar-se. Todos prendiam a respiração. Poderia ser ouvida a queda de um lenço na areia. O bokor retirou de um dos bolsos um saco e derramou sobre a palma da mão seu conteúdo, um pó branco amarelado. O Carioca cochichou com os amigos sorrindo: “Vambora que é antraz.” O feiticeiro fechou a mão e ficou esperando algo. O morto permanecia, obviamente, imóvel.

De repente, gritos, choros, interjeições de espanto das mais variadas. O homem, deitado na mesa, levantou-se. Os 3 soldados brasileiros empalideceram. “O que é isso, maluco?”, gritou o Carioca. O feiticeiro começou a entoar um cântico, novamente em transe e se preparava para jogar o pó no ex-morto quando foi mordido no pulso por ele. As muitas testemunhas estarrecidas entraram em pânico. Muita correria e barulho. Tumulto. Pela reação dos haitianos, não foi difícil concluir que algo não havia saído como esperado.

Os negros fortes que trouxeram o cadáver se precipitaram em sua direção, armados com espingardas e atiraram na cabeça. O ex-morto estava novamente 100% morto. Ouvia-se ao longe os berros do feiticeiro. “Tuer moi! Tuer moi!”, que significa “Mate-me” em francês. No empurra-empurra, Alex foi parar no meio do terreiro. Viu de longe o guia e seus dois colegas se juntarem para fugir dali. Eles olhavam desesperados em volta, à sua procura. Um pavor quase de morte o assaltou ao ser seguro pelas calças. Olhou pra baixo e viu ninguém menos que o bokor de joelhos implorando: “Me mate! Me mate!” Disse isso, revirou os olhos e caiu para trás. Alex olhou em direção dos amigos e se preparou para correr quando sentiu uma dor dilacerante no antebraço esquerdo. O bruxo o havia mordido. Deu um soco no bizarro personagem, desvencilhou-se dele e disparou ao encontro dos companheiros. “Onde você tava, maluco! Vambora daqui! Tá sinistro! A chapa esquentou de vez! Ih, ó lá! Tão matando o macumbeiro!” Os homens negros e parrudos davam tiros na cabeça do sacerdote que há bem pouco tempo comandava a cerimônia.

A Cidade Morta – Parte 2

agosto 11, 2010

O freio do caminhão resgatou-lhe de seus devaneios e o trouxe de volta ao presente caribenho. Ele que viajava olhando fixamente a carta da prima, guardou os papéis num bolso e desceu com o resto do pelotão. “Lembrando da namorada? Daqui a uns dias, você vai estar lá de novo e ela vai cavalgar sobre você!”, disse o Carioca e gargalhou. Pensou em reprimir a falta de respeito do companheiro para com o objeto de seu afeto, mas logo a imagem da prima cavalgando sobre ele, gritando palavras obscenas surgiram na mente, aplacando qualquer reação firme e provocando um sorriso satisfeito. Chegou mesmo a ficar grato ao colega de tropa por proporcionar visão tão alentadora.

E mais feliz ainda ao ser recordado novamente que dentro de dois dias chegaria a Natal. Seu trabalho no Haiti haveria terminado. Ele dormiria aquela noite, despertaria no dia seguinte para arrumar suas coisas, se despedir dos amigos e partir. Após dois anos de trabalho duro, tensão permanente e toda a estupidez inerente à vida militar, voltaria para casa. Mas antes, o Carioca tinha uma proposta:

 – Você não pode ir embora do Haiti sem uma despedida.

– Hômi, me deixe quieto!

– É sério! Uma parada diferente. Um ritual típico local. Uma cerimônia vudu.

– Afe, Maria! Você tá ficando é doido!

– Vâmu lá, rapá! Sacar um pouco da cultura local. Passou dois anos só indo do quartel pra rua, da rua pro quartel. Não viu porra nenhuma! Pelo menos na última noite, poderia ver umas paradas novas.

– E vudu lá é cultura, hômi de Deus!

– Cara, 90% dos haitianos são católicos, mas 110% são vudus. Se isso não for a cultura do país, não sei mais o que é.

– Quem vai?

– Eu, você e o Edu. O François vai dar um bonde pra gente.

– Tá bom. Depois do jantar já vou estar de folga. Aí a gente vai.

– Ah, mulheque! É assim que se fala, meu quiriado! Formou, então. E hoje, maluco, vai ter um ritual ali que é Copa do Mundo, tá sabendo. Eles vão ressucitar um figura que já morreu. Vão transformar o presunto em zumbi.

– Ai, meu Deus! Dá pra desistir ainda?

– Ah, não vai peidar não, vacilão! Deu a palavra, então já era.

CONTINUA