Coluna da Digi # 51 – O Roqueiro

Esta crônica foi escrita para fazer um contraponto à anterior. Nasceu de uma conversa que tive com um amigo de temperamento forte e opiniões contundentes. Criei “O Roqueiro”, um personagem que leva às últimas consequências o estereótipo dos camisetas pretas admiradores de um som pesado. Foi uma homenagem a esse meu amigo, além de equilibrar as forças com a coluna postada na semana anterior.

Os leitores, sobretudo os fãs de Rock, não entenderam o texto como uma caricatura em forma de crônica, uma sátira do cotidiano roqueiro, uma alegoria cheia de exageros e excessos propositais. Os roqueiros acreditaram estar diante de um texto sério, sincero e crítico sobre o seu estilo de vida. Em virtude desta impressão deixada, me agrediram gentilmente nos comentários e, desde então, estou proibido de ouvir qualquer modalidade de Rock, de trajar preto e de chegar a menos de 500 metros de uma guitarra.

Em todo caso, mesmo sabedor das possíveis novas represálias de que posso ser alvo, republico aqui neste espaço o polêmico texto. Relembrem e comentem.

***

O Roqueiro

Semana passada eu falei do Raqueiro, uma figura ímpar, mas que anda por aí aos pares. Hoje, vou alertar a sociedade para um outro indivíduo, primo distante (mas não muito) do nosso botinudo forrozeiro: o Roqueiro.

Ele é cabeludo, todo tatuado e só veste preto e toca numa banda de Rock bem pesado. Mesmo quando vai a um casamento, procura manter sua “autenticidade”, usando uma camisa do Obituary ou do Iron. Ouve bandas de Metal ou Hardcore (Nunca os dois. São como água e vinho, Montechio e Capuletto, Flora e Donatela.) ou qualquer um dos seus derivados sonoros a muitíssimos decibéis e exibe o seu jeito de ser com orgulho e satisfação. Algumas vezes descobre uma banda nova e barulhenta da qual gosta muito. Mas logo deixa de gostar da banda se perceber que ela passa a ser conhecida por mais do que 3 pessoas. “Eles deixaram de ser true! Se venderam!”

A pior ofensa que você pode fazer a um Roqueiro é dizer que ele se vendeu. É como xingar a mãe e o Lemmy juntos. Por isso, para experimentar um verniz de coerência, ele não vê TV aberta, pois é contra os grandes monopólios das telecomunicações (falar mal da Globo dá o maior ibope) e condena qualquer pessoa que veja filmes hollywoodianos, mas não dispensa uma TV por assinatura cara que pertença aos mesmos grupos empresariais condenados por ele ou de ver um bom filme de terror produzido pelos mesmos estúdios de Hollywood que ele tanto abomina.

Ele também condena todos os seus amigos que foram trabalhar com publicidade ou assessoria de qualquer natureza, uma vez que são todos uns vendidos e mercenários. No entanto, eu não diria que o Roqueiro apresenta tendências ao socialismo, pois ele mesmo despreza qualquer militância política ou engajamento institucional. Os políticos e aqueles que trabalham para eles são todos uns abjetos seres merecedores de morte lenta e dolorosa. Generalização é uma das especialidades do Roqueiro (poupa-lhe do laborioso trabalho de pensar, prática a qual está pouco habituado).

Mas apesar das generalizações mil, paradoxalmente, ele esbraveja com frequência contra o preconceito que sofre por ser cabeludo, tatuado e por gostar de um som diferente dos outros. Nunca se toca para o fato de que ele próprio se julga membro de uma casta superior, mais evoluída, detentora dos conhecimentos absolutos a respeito da vida, do universo e de tudo mais e que, por isso trata com agressividade e desdém todas as pessoas que não compartilham do seu mesmo gosto musical.

O preconceito do Roqueiro não se restringe apenas ao gosto musical e acaba por estender-se a homossexuais, pessoas que tenham alguma religião (qualquer uma! Até quem lê horóscopo serve.)ou que gostem de alguma banda que mais de meia dúzia já tenha ouvido falar. Em suma: cultiva uma sincera ojeriza a tudo aquilo que não foi concebido à sua imagem e semelhança como se não fosse a aceitação incondicional, a convivência pacífica entre as diferentes opiniões e a natureza democrática da nossa cultura que permitisse a existência de pessoas como ele.

O Roqueiro se orgulha da sua ignorância. É, talvez, o seu maior bem, ao lado da sua guitarra e das suas indumentárias negras. Afirma que faz mais de 10 anos que não lê um livro e que se ler até uma reportagem da Rock Brigade tem dor de cabeça. Essa característica contribui com a formação de sua atitude desprendida com relação ao mundo e sua pose de homem mau, bruto e rude que gosta de chocar a sociedade, negando-se a absorver o conhecimento gerado por ela.

O Roqueiro se reúne com seus amigos, que curtem o mesmo tipo de som em inúmeros eventos de camisetas pretas que ocorrem durante todo o ano no Centro Cultural Dosol. Muitos até são componentes de sua banda, mas nem todos são iguais a ele. Eles gostam do som, mas respeitam aqueles que não têm o hábito de ouvi-lo.

O que torna mais grave o comportamento xiita e a intolerância desmedida do Roqueiro é que, no passado, ele foi um jovem que curtia Mastruz com Leite, dançava seu forrozinho serelepe no São João do Vila Folia e não via nada de errado nisso. O problema é que ele parece se esquecer de um princípio básico defendido e difundido por ele próprio: “Respeite para ser respeitado”.

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