Mano Celo e a marcha da maconha.

O fuzuê começou no Twitter. Parecia ser apenas viagem da rapaziada com uma ponta de subversão, mas o assunto foi ganhando força devagar, fazendo a cabeça da juventude e se espalhando feito fumaça no ar. Natal seria sede da reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e os apreciadores da cannabis sativa articularam uma movimentação pacífica pela descriminalização da erva que faz os mais carolas tremer nas bases. O evento, uma passeata dentro do campus da UFRN, seria a primeira “marcha da maconha” realizada no Rio Grande do Norte, na esteira do que já vinha ocorrendo em várias cidades brasileiras. Uma manifestação democrática de reivindicação por parte de uma parcela da população que almeja um ajuste nas leis brasileiras, uma evolução da sociedade em direção à tolerância de opiniões dissonantes e à aceitação do diferente.

Episódio promissor para contar com a participação da maior expressão do Rap de Tirol, Petrópolis e região. Mano Celo, o rapper mais contestado e contestador do Plano Palumbo ficou eufórico. Ele, que é o terror das patricinhas, odiado pela juventude carnatalesca, barrado na Academia Cosmética, perseguido pela nata da high-society, queria tomar parte do acontecimento, plantando sementes de sabedoria nas mentes mais fechadas e reacionárias. Logo ele, que não fuma nem traga (“para não atrapalhar o permanente estado de consciência social”), que não bebe álcool (“pra não confundir as ideias”) e que não toma nem remédio sem receita, iria participar do movimento como um autêntico militante da causa “natural”?

Claro que sim. Apesar de não gostar do termo “marcha”, militar demais pro seu gosto, colocou-se a disposição da luta alheia. Pois, em que pese sua caretice assumida e a pouquíssima intimidade com psicotrópicos de qualquer natureza, o jovem artista é um incorrigível batalhador em defesa das minorias, sempre dando voz aos protestos que exijam mudanças e avanços civilizatórios em benefício de grupos sociais discriminados. E como o Mano sempre sustentou, era preciso uma reação enérgica contra o preconceito, ainda que os alvos estejam um pouco chapados pra reagir com essa energia toda.

No entanto, era preciso planejar a melhor maneira de contribuir com a causa verde coordenada pelos jovens universitários. E nenhuma ajuda seria mais valiosa que a sua arte. Mano Celo iria compor algumas rimas e entoá-las no microfone do carro de som que acompanharia a procissão dos universitários malhados. Ligou pro Mano Fuinha pra saber se ele poderia acompanhá-lo na marcha pra fazer a capela. “Marchar pela maconha, mano? Numa sexta-feira às 4 da tarde? Pô, eu vou trabalhando nessa hora.”, respondeu o amigo, explicando que era sujeira faltar ao trampo, alegando uma desculpa qualquer, para ir a um evento coberto pela imprensa. Era muita bandeira.

Mas o primogênito da família Dutton não iria cair nessa morgação. Ele iria de todo jeito. Seria mais uma voz a se levantar ante a repressão conservadora que recai sobre essa gente lombrada de olhos vermelhos e pontas dos dedos amarelos. Prepararia rimas que alertassem para suas propriedades medicinais e recreativas, que denunciassem as elites dominantes movidas por interesses escusos e serviçais do capital financeiro internacional.

A certeza de que causaria um grande e positivo impacto sobre as centenas de participantes da marcha, convencendo também as muitas pessoas que estivessem nas proximidades do percurso a aderirem à causa maconheira, graças aos argumentos racionais contidos nas estrofes bem construídas, deixava o Mano Celo exultante. Por isso, ele produziu diversas rimas com muito esmero e dedicação. Não restava dúvida: sua participação seria fundamental, imprescindível, prioritária.

Ensaiou durante vários dias. Cuidou da métrica, reparou na sonoridade das frases e escolheu meticulosamente cada palavra com atenção para significantes e significados, profundidade e impacto. Ao concluir a música, estava convicto de ter criado uma obra prima. Aquele poderia ser a representação do seu trabalho e a sua performance diante do público universitário tinha tudo para ser épica, uma consagração artística como Natal jamais haveria testemunhado.

Na data marcada, antes de ir ao evento, decidiu sair mais cedo e passar na casa de uns amigos simpatizantes da causa, na verdade, entusiastas e adeptos de toda a filosofia hemp que cultuavam com fervor religiosa. Inclusive acendendo muitas velas em virtude de tal devoção. Quando chegou ao apartamento da turma, eles estavam dispostos em círculo no chão da sala, compenetrados numa típica sessão de consumo da planta de 5 folhas. “Aê, Mano Celo. Você devia fumar unzinho com a gente pra entrar no clima, tá ligado? Só não vai segurar demais a parada. Nada de superbonder no dedo. Essa parada que a gente arrumou é massa da boa.” Julgando procedentes os argumentos do amigo, decidiu dar uma ou duas tragadas pra relaxar um pouco. Até porque estava nervoso diante da expectativa de se apresentar para um público tão qualificado, tão politizado. Acabou se empolgando um pouco e fumou um baseado inteiro daquela erva que, segundo seus amigos explicaram, se chamava “Jota Quest” (pois era quase um Skank).

Às 4 da tarde, centenas de pessoas atenderam à convocação. Alguns seguravam cartazes com dizeres como “O pior cego é o que não quer verde.” ou “Tá nervoso? Vá fumar ”. Algumas palavras de ordem também foram entusiasticamente gritadas pelos participantes: “Do solto ou do prensado. Seja um cidadão chapado”, “1, 2, 3, 4, 5 mil. Queremos o D2 presidente do Brasil” ou ainda “Libera os camarão. No Estado é tradição”.

No carro de som que guiava a marcha, o Mano Celo, meio cambaleante, pediu o microfone. O líder do movimento, um rapaz barbudo com camisa do Che Guevara e um boné do New York Yankees, olhou desconfiado para o rapper, mas acabou cedendo o instrumento, tão íntimo do artista, para que ele manifestasse seu apoio. Afinal, outras celebridades locais, como os integrantes da banda Dusolto e o segundo guitarrista dos Bugs já haviam falado para a multidão.

Aproveitando a oportunidade e tentando organizar os pensamentos, o Mano Celo começou:

É uma erva natural / Rica por sua história / Só não conto pra geral / Porque me falha a memória

 Os governos são caretas / E também a sociedade / Para resolver a treta / Precisamos da verdade

 Erva não é violência / Pois acalma de montão / É preciso consciência / E um espaço no colchão

 Fume que não faz mal / Depois a fome é o que fica / Porque o efeito colateral / É a danada da larica

A verdade é que toda a letra declamada pelo Mano Celo foi improvisada na hora, pois as estrofes elaboradas com antecedência, que esbanjavam criatividade, se perderam em meio às baforadas de algumas horas antes. A reação do público foi o clássico e constrangedor silêncio a que já estava habituado o artista, esse gênio incompreendido. Talvez tão incompreendido quanto os usuários de cannabis Sativa. Aliás, por falar nos usuários, os líderes do movimento não querem ver o Mano Celo de jeito nenhum, nem enrolado em papel de seda. É que depois do evento, ele acabou meio queimado.

Tags: , , ,

2 Respostas to “Mano Celo e a marcha da maconha.”

  1. Jonh Carvalho Says:

    Muito bom o texto! Como sempre você retratando a sociedade natalense como ela é! Mano Celo, o gênio incompreendido.

  2. Lisandra Says:

    Por acaso eu ia passando pela reitoria na hora da marcha. Não vi o Mano Celo, mas vi umas faixas muito engraçadas… Uma das melhores era a do movimento (ou organização, não lembro bem) LOMBRA ETERNA!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: