Coluna da Digi # 54 – Parasitas Sociais 2

No dia 02 de fevereiro de 2009, eu estava empenhado em expiar parte de minha culpa literária, lendo “Crime e Castigo”. Pois eis que encontro em uma das páginas do romance uma situação comum à São Petesburgo do século XIX que se encaixava perfeitamente com a Natal do século XXI. Esse fato rendeu uma coluna curtinha, relembrando o hit viral que foi a crônica “Parasitas Sociais”.

Divirtam-se.

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Parasitas Sociais 2

Comecei 2009 e já me pus a cumprir a primeira resolução de ano novo: ler “Crime e Castigo”. Assumi aqui mesmo neste espaço que nunca havia lido a obra e que este era um pecado que eu deveria reparar brevemente. Estou com a leitura em curso e me deparei com uma passagem das mais reveladoras.

Na página 114 da edição da Editora 34, Dostoievski nos revela a existência de uma figura muito comum na São Petesburgo de 1865: o folhetinista. Tratava-se de um colaborador de jornais, autor de sátiras que chantageava donos de bares e restaurantes, pedindo refeições gratuitas e dinheiro para não ridicularizar os estabelecimentos em seus textos.

Em nota explicativa da edição, os escrivinhadores são descritos da seguinte forma: “Comentando os hábitos da ralé literária, um folhetinista do jornal Boletim de São Petesburgo escreve, em 1865, que era comum entre esses indivíduos a chantagem contra donos de tavernas, restaurantes, etc., a quem ameaçavam de denúncia caso não lhes dessem propinas, presentes, ou se lhes cobrassem pelo vinho ou a comida consumidas.”

Dostoievski também fala de escândalos promovidos por essa mesma ralé literária que ofendia pessoas de bem em locais públicos diante de suas famílias e, em uma determinada taverna, um deles chegou a “tocar” o piano com os pés.

O que me causou grande impressão foi perceber como a São Petesburgo de 1865 se assemelha com a Natal de 2009. Nós aqui temos a nossa própria ralé escrivinhadora de sátiras, mas em vez de vender o silêncio, trocam elogios e espaço nas páginas por favores, refeições em restaurantes finos, viagens a Buenos Aires, serviços dos mais diversos que vão de bolsas em academias de ginástica a campanhas de publicidade gratuitas para suas festas e sítios de internet.

Os escândalos também não estão restritos aos folhetinistas de São Petesburgo do século XIX. Vejam que os nossos folhetinistas também armam seus próprios barracos em restaurantes quando abusam dos vinhos e uísques gratuitos.

Algumas vezes, quando leio um texto antigo ou livro clássico fico impressionado com a atemporalidade do que o autor diz. Mas por essa do velho Fiodor eu realmente não esperava.

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