O Maconheiro Militante 2

Faz algum tempo que eu publiquei a crônica “O Maconheiro Militante” para me referir de forma zombeteira aos usuários de maconha que defendem a causa da cannabis apaixonadamente. Se você ainda não tiver lido ou quiser relembrar deste texto, basta clicar aqui: https://blogdofialho.wordpress.com/2010/01/10/coluna-da-digi-20-o-maconheiro-militante/ .

Porém, semana retrasada, com a realização da já tão divulgada “marcha”, tive a ideia de escrever algumas crônicas sobre o assunto que se mostrou mais fértil do que eu pensava. Além da coluna da Digi que publiquei segunda passada, escrevi também uma história sobre a participação do Mano Celo (está logo aí embaixo) e esta crônica que publico aqui: “O Maconheiro Militante 2”.

Riam comigo. Que a leitura seja tão divertida pra vocês quanto foi pra mim escrever.

***

O maconheiro militante 2

Naquele dia, o maconheiro militante típico acordou cedo, por volta do meio dia, tomou banho com seu sabonete de ervas verdes e o xampu de cannabis. Em seguida calçou o tênis de cânhamo, a bermuda de surfista e a camiseta do Capitão Presença. Fumou um baseado pra abrir o apetite e comeu 2 sanduíches de ovo frito com salsicha. Depois comeu mais 2. Aí, comeu mais 4. Por fim, resolveu tirar um cochilo ante de sair de casa.

Era uma sexta-feira especial para o movimento natalense para a libertação dos pintas. Finalmente os militantes do THC na cidade teriam voz e vez. Havia chegado o momento há muito esperado de levantar-se ante a tirania conservadora de ultradireita que vilipendiava os direitos dos amantes da fumaça que leva a paz. A partir daquele dia, eles poderiam reagir contra aquela nefasta manobra de forças ocultas poderosíssimas, dominadas por interesses escusos e idealizada pelo capital financeiro internacional, a indústria armamentista, os capos e traficantes, a rede Globo, os juízes e promotores, o presidente (aliás, todos os presidentes), os petroleiros, o Edir Macêdo e o Paulo Coelho. Essa organização se chama Comando Delta e sua única função e motivação é manter a maconha proibida para que eles possam lucrar milhões no mercado negro, perseguir os seus inocentes consumidores, além de humilhar as classes já tão humilhadas, massacrar as minorias já muito massacradas, oprimir os grupos já um tanto oprimidos e confiscar alguns CDs do Planet Hemp no processo.

Os principais argumentos já estavam muito bem articulados. A erva da paz curava doenças (insônia, glaucoma, ansiedade, câncer, AIDS, dor de cabeça, timidez e falta de apetite.), movimentava a economia (tabacarias, lojas de colchão, lanchonetes, skates e prancha de surf), proliferava a paz ao sufocar pressões sociais prestes a explodir e desenvolvia nos jovens o interesse por diversas áreas do conhecimento, desde a jardinagem (para o cultivo caseiro) até a culinária (ao se estudar maneiras mais eficazes e rápidas de saciar a fome), passando pela literatura (os fumantes costumam comprar livros baratos com papel fininho que possa substituir a seda.) e pela religiosidade (é muito comum ver os usuários acendendo velas com claros sinais de sagrada devoção). É claro que existiam alguns efeitos colaterais como a promoção de shows de reggae nos lugares onde a popularidade da erva já atingiu as massas. Mas deixa esse assunto pra oposição que o papel dos organizadores do movimento era promover unicamente os benefícios.

Seria o início de algo maior. Era preciso dar continuidade àquela luta e desfraldar a bandeira da descriminalização (mas sem dar muita bandeira, claro). Os idealizadores do evento pretendiam fazer dele a ponta de algo muito maior, duradouro e representativo. Eles teriam que se empenhar ao máximo, a causa deveria ser permanente, sem relaxar um só minuto. Quer dizer, uma meia horinha de morgação depois de fumar tá liberado. Mas apenas isso. Em todo caso, eles tinham tudo para serem bem sucedidos em seus objetivos, pois se existiam pessoas dispostas a não ficarem só numa simples ponta, essas pessoas eram os fãs da Mary Jane.

O nome do protesto organizado seria o mesmo utilizado em todas as cidades do Brasil em que havia sido realizado até então: “Marcha da Maconha”. O cenário seria o sempre democrático campus da UFRN e os líderes do movimento reivindicatório esperavam reunir algumas centenas de adeptos e simpatizantes da causa verde.

O perfil para ser um autêntico recruta engajado na revolução natural que tomava conta do planeta, do país e, finalmente, de Natal, era constituído de um incondicional comprometimento com os ideais cannábicos e um amor sincero pela plantinha relaxante. A folhinha de 5 pontas tinha que ser o seu pavilhão nacional, estar no escudo do seu time de coração, ser a logo de sua banda preferida, a representação sagrada de sua fé (in Jah we smoke). O maconheiro homem comum não deveria ir à passeata se quisesse manter em sigilo sua identidade secreta de cidadão acima de qualquer suspeita. Para protestar com vigor e comovente paixão, os participantes não poderiam ter vergonha de ser malhados.

Os insurgentes que integrassem esta relevante parada cívica, divisora de águas na história de lutas e conquistas dos direitos civis da cidade deveriam ser iniciados na arte de apontar o THC como solução de todos os males, como tábua de salvação para uma sociedade careta e corrompida. Deveriam evocar os grandes vultos históricos que já deram um tapinha, de Bill Clinton a Che Guevara, de Maurício de Nassau a, sei lá, Ronaldinho Gaúcho. Também poderiam alegar o apego às raízes do nosso Estado na produção e consumo de camarão como justificativa plausível e tentativa de convencimento dos mais tradicionais. A história da maconha também não deveria ser desprezada enquanto retórica, uma vez que sua matéria prima esteve presente em momentos significativos da história, servindo para confeccionar pergaminhos, tintas para pinturas de guerra tribais e princípio ativo que proporcionou a evolução da escultura em durepoxi. Enfim, era um desafio para profissionais, usuários cultos e estudiosos da erva. Um dos líderes declarou enfático: “Qualquer um pode ter os olhos vermelhos e os dedos amarelos, mas só alguns poucos tem um coração puro, os pulmões verdes e o cérebro em intensa atividade sináptica. Por isso, nada de amadores.”

Inclusive, chegou-se a cogitar que promovessem um vestibular, aproveitando o ambiente universitário, para decidir quem poderia e quem não poderia participar da marcha. O conhecimento das propriedades seria uma matéria específica, a história da erva também e a citação de pessoas que já teriam fumado ou não poderia ser uma questão específica. O exame poderia ter sido mais ou menos assim:

1 – O que significa THC e quais os seus benefícios para o organismo?

2 – Relacione a influência da Cannabis Sativa na música popular brasileira.

3 – Qual das personalidades abaixo já fumou?

a)    Madonna  b)    Maradona  c)    Marcelo Mastroiani  d)    Todas as anteriores

E assim por diante. Porém, a idéia de realizar a prova não prosperou e os organizadores preferiram um processo seletivo diferenciado, mediante uma entrevista presencial numa rodinha de fumo. Quem viajasse com mais fluência e continuasse argumentando bem (ou falando qualquer coisa que fizesse algum sentido) depois de alguns charas estava aprovado. Quem embaçasse a conversa e tivesse passado superbonder nos dedos, estava eliminado. Afinal, a causa era essencialmente coletiva e não haveria lugar para usuários fominhas que não passavam a bola para os companheiros. Esses acabavam queimados pelos demais. E não no bom sentido.

Ainda assim, com um rigoroso critério de seleção, na hora e local marcados, 500 pessoas prestigiaram a 1ª Marcha da Maconha de Natal. Todas munidas de argumentos fortes, cartazes impactantes e uma desculpa pra faltar aula. A imprensa deu ampla cobertura, a sociedade discutiu durante toda a semana seguinte e o Comando Delta fez firme oposição ao movimento subversivo. Inclusive, preocupados com a possibilidade de o evento dispersar-se como fumaça no ar, os organizadores prepararam uma carta aberta com as 10 principais reivindicações do público carburante, que estavam associadas à descriminalização da maconha e beneficiavam enormemente todos os setores da sociedade local. O problema é que ninguém encontrou a carta, pois como havia sido escrita num papel fininho, a turma acabou usando pra enrolar um chara. E como ninguém conseguiu lembrar o conteúdo depois de terem “dado um 2”, deixaram pra lá. Só depois, quando puxaram muito pela memória, alguém lembrou que liberar a maconha estava no meio.

– E as outras 9, braw?

– Pô, as outras eu não lembro.

– Sóóóó.

– Podcrê.

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3 Respostas to “O Maconheiro Militante 2”

  1. Nicolas Says:

    Massa fialho!

    Tudo certo, só acho que faltou uma apresentação da banda BRAWS para completar a marcha e interagir toda a sociedade reprimida dos ferofrewns.
    heheheheh

    Abraçø!

  2. Bia Madruga Says:

    hahaha
    “dado um 2” eu não conhecia. ficava no “dado um” mesmo.

    muitobommuitobom 😉

  3. Lilian Says:

    Olá, Fialho.

    Eu já havia conhecido “O Maconheiro Militante” há um tempo atrás. Indiquei a vários amigos. Só sendo do clube ou ex-clubete para escrever assim, com toda esta propriedade. Adorei. Você é um escritor nato. Digo porque entendo: uma vez que sou “rata de biblioteca” e “militante” também.
    Abraços!

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